Crítica | Foi Apenas um Acidente
O filme “Foi Apenas um Acidente” é uma obra extremamente política e não por acaso o seu diretor Jafar Panahi rodou o longa-metragem em segredo para não ter retaliações do seu país, o Irã. A ideia do roteiro surgiu após um período que o cineasta passou preso entre 2022 e 2023. Após sair do encarceramento, ao conversar com outros companheiros de prisão foi encorajado a fazer uma obra sobre o tema.
A história começa com o acidente do título, onde um homem que está no carro com a esposa e filha sem querer atropela um animal na estrada. Quando ele para em uma oficina em busca de ajuda, Vahid (Vahid Mobasseri), um dos funcionários do local, o reconhece. Então o homem decide segui-lo e o sequestra no dia seguinte. O problema é que ele fica na dúvida se a pessoa é mesmo Eghbal, que o torturou enquanto esteve preso. Dessa forma ele vai atrás de outras pessoas que possam confirmar a identidade do torturador.
Ao reunir um grupo de cinco pessoas, Jafar Panahi desenvolve a história onde cada um deles tem uma opinião sobre o que deve ser feito. Vahid quer um encerramento, uma confirmação da identidade do torturador, para poder ter um fechamento emocional. Seu apelido é “jarra”, porque ele tem problema de postura devido à tortura e fica o tempo todo com uma das mãos na cintura. Ele funciona como uma bússola moral do grupo.
Completam o grupo Shiva (Mariam Afshari), uma fotógrafa de casamentos, sua amiga Goli (Hadis Pakbaten) que está prestes a se casar com Ali (Majid Panahi), sendo que ele é o único que não foi torturado, e por último Hamid (Mohammad Ali Elyasmehr), que é o mais enfático em dizer que eles devem matar o homem que supostamente é Eghbal. Inicialmente é interessante ver as discussões do grupo, onde cada perspectiva revela uma opinião importante sobre o que cada um passou. Contudo, após um tempo esses diálogos se tornam repetitivos. Isso é extremamente realista, mas do ponto de vista narrativo se torna cansativo.
A conversa pode ser resumida entre se eles devem ou não se vingar do torturador. Caso decidam matá-lo estariam se tornando algo próximo a figura dele e assumindo a mesma postura do estado repressor que resolve as coisas através da violência. Dessa forma, “Foi Apenas um Acidente” apresenta uma reflexão corajosa sobre o tema. No entanto, a insistência no dilema, embora realista, impede o aprofundamento das personalidades do grupo, tornando o ritmo da narrativa inerte em certos momentos.

A forma como Jafar Panahi filma as cenas transforma a obra em uma mistura de teatro encenado, onde temos longos planos sem cortes em que acompanhamos a interação entre os atores, com um documentário, onde tudo é captado com câmera na mão. Em alguns momentos bastante próximos ao elenco, passando um sentimento de urgência, em outros um pouco mais distante. Essa distância, por vezes, não é apenas estética, mas uma necessidade. Como o cineasta realizou o filme em segredo e sem autorização, em cenas dentro da cidade, muitas vezes a câmera ficava dentro do carro, enquanto a ação ocorria do lado de fora.
Curiosamente esse recurso foi usado para criar alguns alívios cômicos, para dar algum suspiro durante a construção da narrativa. O melhor exemplo disso é uma cena na qual os personagens descem da van no meio de uma avenida movimentada para empurrar o veículo.
O ponto mais frágil do filme está em certas decisões dos personagens, que não parecem verossímeis diante da gravidade da situação. Não é algo que parece realista do ponto de vista deles, devido à gravidade da situação. Entretanto, é um recurso que Jafar Panahi utiliza para humanizar o grupo. A intenção é nobre, mas dentro do contexto construído pelo roteiro não funciona. Mesmo com falhas narrativas, o longa se afirma como um poderoso protesto político, denunciando a violência estatal e a repressão no Irã. E somente por isso, que é um ato extremamente corajoso, Panahi já merece diversos elogios.

Uma frase: – Hamid: “Nos meus pesadelos, estou há cinco anos passando a mão na perna dele!”
Uma cena: Quando Vahid sequestra o homem que ele acredita ser Eghbal.
Uma curiosidade: O filme foi rodado em segredo, sem autorização da República Islâmica. Além disso, a maioria das atrizes não usa hijab, que é obrigatório para as mulheres no Irã. Apesar desses esforços, perto do fim das filmagens, policiais abordaram a equipe exigindo as cenas gravadas e chegaram a ameaçar prender todos e interromper a produção quando o diretor Jafar Panahi se recusou. Depois de um tempo, porém, eles acabaram cedendo e as filmagens prosseguiram sem problemas até o final.

Foi Apenas um Acidente (Yek tasadof-e sadeh)
Direção: Jafar Panahi
Roteiro: Jafar Panahi
Elenco: Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten, Majid Panahi, Mohamad Ali Elyasmehr, Delnaz Najafi Afssaneh Najmabadi e Georges Hashemzadeh
Gênero: Drama, Comédia ácida
Ano: 2025
Duração: 104 minutos
