Review | The Pitt – 1ª Temporada
Existe uma tradição na televisão americana de seriados com a temática de medicina. Sem dúvidas um dos mais famosos foi “Plantão Médico”, que foi ao ar de 1994 a 2009 com mais de 300 episódios e revelou atores como George Clooney e Noah Wyle. Não por acaso, a nova série da HBO Max é estrelada por Wyle, que já tem experiência no gênero. No entanto, o que diferencia The Pitt das outras produções são os muitos fatores que tornam o programa criado por R. Scott Gemmill único.
O primeiro deles é o seu formato. A primeira temporada consiste de 15 episódios e cada um deles apresenta uma hora do plantão do Centro Médico de Traumas da cidade de Pittsburgh, mais precisamente da emergência. Todo capítulo tem em torno de 50 minutos, então não temos a narrativa totalmente em tempo real, mas é algo bem próximo disso. Dessa forma, a série explora bem o realismo em torno das situações e principalmente o senso de urgência e tensão, pois a cada momento surgem novos pacientes e circunstâncias que precisam ser resolvidas.
Esse formato também elimina a necessidade de criar uma fórmula onde cada episódio precisa ter alguma situação ou caso médico diferente, normalmente algo bem peculiar, que necessita ser resolvido até o final do capítulo. Mas é claro que eventualmente temos algum ganho entre os episódios para deixar o telespectador ansioso para assistir o seguinte.
Essa proximidade do tempo real cria um desafio para os atores, forçando as atuações a seguirem um ritmo de improviso e continuidade, quase como em uma peça teatral. Não por acaso todo o elenco teve que fazer um treinamento de primeiros socorros e uma imersão junto com médicos de verdade, para que o que eles fizessem em cena se aproximasse da realidade. É até curioso ver como de vez em quando eles se esbarram, o que é perfeitamente normal.

A ideia do criador era justamente criar uma série médica mais próxima possível da realidade. As filmagens ocorrem na ordem cronológica, o que facilita bastante retratar o plantão em sua totalidade. Segundo ele, era importante ressaltar os problemas da classe médica após a crise da Covid-19, que afetou bastante a saúde mental dos profissionais de saúde.
É interessante notar como isso afeta o Doutor Robby, o protagonista interpretado por Noah Wyle. Eventualmente vemos ele ter algum flashback onde relembra da época da Covid-19. Isso é importante para mostrar o quanto ele é humano, especialmente porque a figura do médico é, muitas vezes, idealizada como incapaz de demonstrar fraquezas.
Um dos maiores méritos de The Pitt é sua capacidade de transcender o drama médico e se firmar como um poderoso retrato social, econômico e político dos EUA na era pós-pandemia. É até difícil selecionar só alguns elementos, pois são tantos que chamam a atenção.
Temos agressão física aos profissionais de saúde, o tempo de atendimento que pode chegar até a 8 horas de espera, pessoas que não quiseram tomar vacina e principalmente aqueles pacientes que chegam com informações do Google e que questionam as atitudes dos médicos o tempo todo. A inclusão do sarampo, doença que a maioria dos profissionais mais jovens sequer reconhece, serve como um sutil, mas poderoso, lembrete sobre o impacto do movimento antivacina e a desinformação na saúde pública moderna.
A qualidade do roteiro realmente impressiona, pois durante os 15 episódios The Pitt consegue fazer um retrato social, econômico e político dos EUA apenas a partir do ponto de vista do que é apresentado em um hospital. Sem dúvidas é um local bastante acertado para se fazer uma análise e crítica sobre isso.
Temos também situações em que os próprios profissionais de saúde são afetados por fatores externos ou por questões pessoais. É curioso notar a cada novo episódio, isto é, nova hora do plantão, em como suas feições mudam e em como eles começam a demonstrar o cansaço físico e mental. O trabalho do elenco é fantástico e cada ator tem pelo menos um momento de destaque para brilhar nos episódios. A escolha dos atores foi muito boa para cada papel.
Inclusive, é importante citar como The Pitt mostra todos os elementos do hospital, não somente focando nos médicos. Assim enxergamos a importância de enfermeiros, da assistente social, da administradora, das pessoas que fazem os primeiros-socorros, quem fica no atendimento ao cliente ou mesmo o segurança. Além disso, temos uma grande diversidade étnica no elenco, o que faz com que as perspectivas dos personagens sejam ainda mais fascinantes.
Um outro detalhe é que o centro médico carinhosamente apelidado de The Pitt (uma referência à palavra pit em inglês, que significa poço) é um hospital universitário, assim além de médicos experientes temos também os estudantes. Essa troca de experiência é importante, pois mesmo os mais antigos estão dispostos a tanto ensinar como aprender. A parte educacional funciona como uma maneira da narrativa ter que explorar diálogos expositivos, afinal de contas os profissionais precisam dizer em voz alta os que estão fazendo para quem está ao redor aprender e o espectador que é leigo em medicina possa entender o que está sendo feito em cena.
A parte técnica também merece elogios. A fotografia é muito boa ao captar o caos de uma emergência sem que o espectador fique perdido no que está acontecendo, também graças à montagem que mantém o ritmo com sensação de urgência, com alguns momentos de respiro.
Ao retratar o esgotamento da classe médica e os males sociais que chegam à emergência, The Pitt não é apenas um sucesso de público e crítica; é um drama essencial que redefine o realismo dos seriados médicos para o nosso tempo.


The Pitt
Criado por: R. Scott Gemmill
Emissora: HBO Max
Elenco: Noah Wyle, Tracy Ifeachor, Patrick Ball, Katherine LaNasa, Supriya Ganesh, Fiona Dourif, Taylor Dearden, Isa Briones, Gerran Howell, Shabana Azeez e Sepideh Moafi
Ano: 2025
