Crítica | A Voz de Hind Rajab
O filme “A Voz de Hind Rajab” é muito doloroso de se assistir, mas é um longa-metragem essencial nos dias de hoje. Ele transcende a obra de arte, firmando-se como um manifesto urgente e político contra o genocídio em Gaza, perpetrado por Israel (apesar do suposto cessar-fogo).
A diretora Kaouther Ben Hania já é conhecida pelo uso de recursos híbridos (como no documentário “As 4 filhas de Olfa”), onde mistura dramatização com realidade. Em seu novo filme ela constrói um manifesto que mistura dramatização com a realidade crua das ligações de socorro.
Acompanhamos um dia, mais precisamente 29 de janeiro de 2024, de trabalho da organização humanitária chamada Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (SCVP). O voluntário Omar (Motaz Malhees) recebe uma ligação com um pedido de ajuda.
Quem precisa de ajuda é a criança Hind Rajab de 5 anos de idade, pois ela se encontra um carro que sofreu mais de 300 tiros de tanques de guerra israelenses. No veículo estavam seus tios e quatro primos, todos morreram. Agora tentem imaginar a situação: Omar precisa tentar acalmar a criança por telefone enquanto tenta coordenar um resgate.
É neste ponto que o filme expõe o seu cerne político mais revoltante: a coordenação do resgate. Como o próprio Omar enfatiza em determinado momento do filme, o grupo de socorristas está localizado a apenas 8 minutos de distância de Hind. Só que para conseguir enviar uma ambulância existe todo um processo burocrático. Ele envolve o supervisor Mahdi (Amer Hlehel) entrar em contato com funcionários do governo do seu país, que entram em contato com o exército de Israel, então após a aprovação da rota é que finalmente eles recebem o sinal verde para o envio do socorro.
Como Mahdi frisa, a exigência de aprovação da Força de Defesa de Israel é um absurdo burocrático, visto que outros socorristas foram mortos ao tentar entrar em Gaza sem essa ‘autorização’. Por causa disso, eles mantêm uma foto de cada um dos voluntários que foram assassinados em homenagem às vítimas.
Dessa forma, o filme recria a tensão em torno da situação em que tanto Omar quanto Rana (Saja Kilani), outra voluntária do SCVP, se alteram na ligação com Hind tentando acalmar a criança. Em respeito à menina, o filme usa a sua voz nas ligações reais para aumentar o impacto do filme.

É como se a diretora utilizasse a voz dela para simbolizar todas as vítimas do genocídio em Gaza. É importante ressaltar o excelente desempenho do elenco, composto por atores palestinos. A maneira como eles contracenam com a voz real de Hind é profundamente tocante e desoladora.
Para acentuar ainda mais a urgência e a tensão da situação, a fotografia utiliza uma câmera inquieta, quase documental, que junto com planos fechados ressalta bem o tom da narrativa. Outro recurso interessante é mostrar imagens no celular das pessoas reais, enquanto os atores só apresentam os sentimentos através da expressão corporal.
Em síntese, é impossível ficar indiferente após assistir “A Voz de Hind Rajab”. Talvez o principal sentimento seja a indignação ou raiva diante de uma situação absurda, que infelizmente só se concretiza graças à política genocida praticada por Israel.
A tragédia final, que a diretora não esconde, é o cerne do manifesto: a pequena Hind Rajab, cercada por militares israelenses com equipamento sofisticado, não sobreviveu. O filme não apenas registra a morte, mas denuncia o absurdo de uma política que impede o resgate mesmo com conhecimento de que apenas uma criança estava viva.

Uma frase: – Omar: “Diga a eles que levaria só 8 minutos para salvar a menina!”
Uma cena: Quando é mostrada pela primeira vez uma foto de Hind Rajab.
Uma curiosidade: Alfonso Cuarón, Jonathan Glazer, Brad Pitt, Rooney Mara e Joaquin Phoenix juntaram-se ao filme como produtores executivos pouco antes de sua estreia mundial no Festival de Cinema de Veneza de 2025. Apenas Mara e Phoenix compareceram à estreia e à coletiva de imprensa do filme em Veneza.

A Voz de Hind Rajab (Sawt Hind Rajab)
Direção: Kaouther Ben Hania
Roteiro: Kaouther Ben Hania
Elenco: Saja Kilani, Motaz Malhees, Amer Hlehel e Clara Khoury
Gênero: Drama
Ano: 2025
Duração: 89 minutos
