Crítica | Avatar: Fogo e Cinzas
O salto temporal curto de “Avatar: Fogo e Cinzas” em relação ao filme anterior cria a sensação de que ambos poderiam ser um único longa. Isso causa alguns problemas na trama do novo capítulo. O principal deles é o sentimento de urgência da narrativa que não combina com o desenvolvimento dos personagens.
Em “O Caminho da Água” ocorre a morte de Neteyam e a família não tem tempo de ter um luto, pois o Coronel Miles Quaritch está atrás deles. Assim, uma correria é iniciada e os Sully tem que fugir. Durante a fuga eles são atacados por uma nova tribo Na’vi liderada por Varang (Oona Chaplin).
Essa tribo é conhecida como “Povo das Cinzas” (Clã Mangkwan) e é a grande novidade de “Fogo e Cinzas”. Eles rejeitam a deusa Eywa, por acreditar que ela é responsável pelas mazelas ocorridas. Naturalmente são apresentados como antagonistas da história por ter um perfil agressivo e em busca de poder. Além disso, se tornam aliados do Coronel. Ele fornece armas para os Mangkwan em troca de ajuda para capturar os Sully.
A relação entre o Coronel e Varang deveria ser o grande destaque do novo Avatar, mas a urgência do roteiro, citada no início do texto, prejudica o desenvolvimento dos personagens. O “Povo das Cinzas” surge como mais próximo dos humanos pela sua falta de fé, sede de poder e agressividade, entretanto o roteiro os desenvolve como simples antagonistas. Em nenhum momento do filme enxergamos o lado deles como algo empático, pois seu comportamento é caricato, onde a violência é a única característica que se destaca.
Nesse ponto, “Fogo e Cinzas” se aproxima do primeiro Avatar, pois o “Povo das Cinzas” parece uma nova versão do Coronel Miles. Uma visão do vilão caricato, sem nenhuma sutileza. Isso diverge do que foi apresentado “O Caminho da Água”, cujo principal trunfo era justamente explorar melhor os personagens e mostrá-los mais humanos e multidimensionais.
Outro elemento que adiciona urgência à narrativa é a transformação de Spider, que agora consegue respirar em Pandora sem usar máscara. Caso o grupo dos militares do Coronel descubra uma forma de replicar isso em outros humanos, pode significar o fim do planeta, pois eles viriam com tudo explorar o local. Dessa forma, surge um dilema na família Sully. Jake tem que decidir se protege ou não o jovem, pois se antes ele o considerava parte do seu grupo familiar, agora o rapaz representa uma ameaça para todo o povo Na’vi.

Contudo, esse componente do roteiro funciona. Nele o diretor James Cameron mostra sua “mão pesada” em explorar a emoção do espectador. O cineasta vai no sentimento mais básico ao prolongar certas cenas emotivas ao máximo, em busca de sensações, principalmente de perigo. Será que o personagem vai morrer, questiona o público.
Assim é importante citar a trilha sonora de Simon Franglen, cujos temas evocam esses sentimentos de maneira orgânica, contribuindo para o sentimentalismo da narrativa. As canções contribuem bastante no tom do filme, seja na emoção ou no clima épico de aventura das cenas de ação. Ainda que não seja inovadora, é extremamente eficaz.
Retornando a comentar sobre o problema do desenvolvimento dos novos personagens, pelo menos dentro do núcleo familiar dos Sully, vemos alguma evolução. O grande destaque é Kiri (Sigourney Weaver), que desenvolve sua conexão com a natureza e a figura da deusa Eywa. Isso resgata o lado místico do povo Na’vi e da sua principal diferença em relação aos humanos.
Por outro lado, o desfecho do arco do povo da água é insatisfatório. O roteiro parece negligenciá-los, retomando-os apenas no final para uma conclusão superficial. O que é uma pena, já que em “O Caminho da Água” eles tiveram um ótimo destaque dentro da história.
Por último, é importante ressaltar a parte técnica. Ainda que não haja uma evolução entre “Fogo e Cinzas” e o anterior, o padrão de qualidade se mantém. Os cenários ainda são belos e os efeitos especiais impressionam. Contudo, talvez o ‘fogo’ não cause o mesmo impacto que a água. Vale ressaltar que a franquia Avatar é uma das poucas que realmente justifica o uso do 3D. O único porém é que Cameron mantenha alguns hábitos do cinema tradicional. O principal exemplo é que ao dar um close em algum personagem a fotografia desfoque o fundo, para que o espectador foque na emoção do rosto que é apresentado em tela. Essa técnica, contudo, conflita com o 3D, cujo objetivo é justamente oferecer profundidade e detalhamento de todo o cenário, inclusive do que está em segundo plano.
Dessa forma, ainda que “Avatar: Fogo e Cinzas” tenha retrocessos em relação ao anterior, James Cameron mantém seu padrão de qualidade. O filme apresenta, contudo, um grande trunfo: sua conclusão. Ainda que deixe algumas pontas soltas, o roteiro apresenta fechamento para a maioria dos arcos. E após mais de 3 horas de duração e 3 filmes, esse detalhe é importante. Agora resta saber se ele ainda vai levar adiante o desenvolvimento de novos filmes da franquia.

Uma frase: – Tuk: “Os Sully nunca desistem.”
Uma cena: Quando Jake decide o que vai fazer com Spider.
Uma curiosidade: A Disney queria que James Cameron reduzisse a duração de mais de 3 horas de ‘Fogo e Cinzas’ para permitir mais exibições diárias, mas Cameron resistiu, citando o sucesso de ‘Titanic’, que também tinha longa duração. Ele acredita que uma narrativa envolvente justifica o tempo de exibição, e o desempenho do novo filme determinará o futuro da saga ‘Avatar’.

Avatar: Fogo e Cinzas (Avatar: Fire and Ash)
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron, Rick Jaffa e Amanda Silver; história de James Cameron, Rick Jaffa, Amanda Silver, Josh Friedman e Shane Salerno
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Oona Chaplin, Jack Champion e Kate Winslet
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Ano: 2025
Duração: 197 minutos
