Crítica | Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Crítica | Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Rian Johnson apresenta sua nova investigação cinematográfica em “Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out”, terceiro capítulo da franquia Knives Out. No primeiro o cineasta e roteirista criticou a sociedade americana, enquanto no segundo foi a vez dos bilionários. Agora é a vez da religião, obviamente sem deixar de lado a questão sociopolítica.

É claro que Johnson não iria simplesmente repetir a fórmula de sucesso dos filmes anteriores. Cada um deles tem algo de diferente e interessante que se destaca. “Vivo ou Morto” tem suas particularidades e isso é que torna a franquia tão fascinante a cada novo capítulo.

Uma das diferenças de “Vivo ou Morto” é o foco no principal suspeito do crime. O filme começa contando a história do padre Jud Duplenticy, interpretado por Josh O’Connor. Ele assume o papel de narrador e nos conta como ocorreu o crime. No passado ele era um lutador de boxe, mas após matar uma pessoa no ringue decide entrar para a igreja como uma forma de lidar com a raiva. Contudo, o sentimento fala mais alto em uma briga com outro religioso. Como punição ele é enviado para outra igreja e conhece Monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin), que é a vítima do assassinato.

Ou seja, na primeira parte do filme não temos a presença do detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) em cena. Primeiro conhecemos os personagens e o contexto do crime, é então que a investigação começa. E ela é mais peculiar do que nos longas anteriores. Blanc se une a Jud na apuração, pois apesar do padre ser o principal suspeito, o detetive acredita que ele pode ser útil na solução do crime.

Agora, como ele se tornou o principal suspeito? Esse é o elemento fundamental da narrativa de “Vivo ou Morto”. O Monsenhor Wicks é uma figura “controversa”, para dizer o mínimo. Ele é conservador, obviamente, mas sua postura extrema em relação ao discurso de ódio chama a atenção. O Monsenhor não mede suas palavras, muitas vezes ofendendo alguma minoria, ou ataca de forma indireta algum dos presentes na igreja. Dessa forma, poucas pessoas frequentam suas missas, mas aqueles que comparecem são extremamente fiéis. Quando o padre Jud chega ao local decide enfrentar essa metodologia de Wicks, só que trava um forte embate com o Monsenhor, fazendo com que aflore novamente sua raiva. Por conseguinte, por demonstrar esse descontentamento, ele se torna o principal suspeito.

Existe também o grupo dos fiéis ao Monsenhor Wicks formado pelo médico Nat Sharp (Jeremy Renner); a advogada Vera Draven (Kerry Washington), que é mãe adotiva de Cy (Daryl McCormack); o escritor Lee Ross (Andrew Scott); a violoncelista Simone Vivane (Cailee Spaeny); a devota Martha Delacroix (Glenn Close), que sabe tudo sobre o passado da igreja; e Samson Holt (Thomas Haden Church), o jardineiro da igreja e amante de Martha. Eles são as principais testemunhas sobre o ódio que o padre Jud teoricamente sentia pelo Monsenhor Wicks. Mas é claro que existe muito mais coisa em jogo e o roteiro de Rian Johnson explora todas as nuances com maestria.

O curioso desse grupo é como a influência do discurso de ódio de Wicks funciona em cada um deles. Temos novamente uma crítica à sociedade americana, mas infelizmente a extrema direita se espalhou pelo mundo todo, assim o comentário político se torna algo universal. Contudo, a relação dele com Jud é o destaque. É como se o Monsenhor estivesse o tempo todo querendo trazer o novo padre para o “lado sombrio da força”, citando Star Wars. E como uma boa figura católica, o personagem carrega um enorme sentimento de culpa.

Outro ponto importante, que sempre é o destaque desse tipo de narrativa, é a investigação do crime. Como foi citado, a apuração é feita de forma peculiar onde o detetive tem ajuda do principal suspeito. Entretanto, é a religião que entra como o principal tema da trama. Quando Blanc entra na igreja para conversar com Jud, deixa claro que não acredita em nada católico. Só que ele, e o diretor Rian Johnson, tem um enorme respeito pela religião. Então qualquer coisa relacionada ao tema é importante na averiguação, por mais irreal que possa parecer. Assim entramos em discussões em torno da fé, do sentimento de culpa e da razão versus emoção.

Já na parte técnica tudo é construído de forma talentosa, então todos os aspectos contribuem de alguma forma para a qualidade do longa-metragem. A montagem mantém o ritmo e inova na estrutura, ao apresentar primeiro o crime e o principal suspeito, para em seguida focar na investigação. A trilha sonora ajuda a definir o tom da narrativa, evocando o clima de mistério misturado com o religioso, mas sem cair em clichês. Enquanto a fotografia e o design de produção exploram os detalhes da igreja, como por exemplo o púlpito de onde o padre fica em destaque no alto, acima de todos os fiéis, para exaltar ainda mais a grandiosidade de quem está fazendo o sermão.

Por último, não é possível deixar de falar do elenco, sempre elemento de destaque nos filmes Knives Out. A escolha de atores é impressionante, mais uma vez. Daniel Craig está excelente novamente, no limite do caricato e ainda mais à vontade como Benoit Blanc. A relação dele com o padre Jud, de Josh O’Connor, é o que mais chama a atenção na trama. Aliás, Josh mostra que é um ator com muito talento e constrói a figura de Jud de maneira brilhante, alternando os momentos de raiva, culpa e empatia sem perder a coesão. E quem rouba a cena é Josh Brolin, mais uma vez interpretando um “vilão” de maneira concisa, onde as intenções do Monsenhor estão sempre às claras.

Nesse contexto, “Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out” é mais um acerto do diretor Rian Johnson. Ele mostra que é possível explorar de formas diferentes o formato de investigação de um crime, incluindo comentários sociopolíticos e reunindo um elenco cheio de atores talentosos. Tudo isso com uma parte técnica impecável.


Uma frase: – Benoit Blanc: “Sou incapaz de não resolver um crime. Você vai ver. É divertido.”

Uma cena: O primeiro encontro entre Benoit Blanc e o padre Jud Duplenticy.

Uma curiosidade: Assim como seus antecessores, o filme leva o nome de uma música. Nesse caso, trata-se de “Wake Up Dead Man”, do álbum Pop, lançado pela banda U2 em 1997.


Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up Dead Man)

Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson
Elenco: Daniel Craig, Josh O’Connor, Glenn Close, Josh Brolin, Mila Kunis, Jeremy Renner, Kerry Washington, Andrew Scott, Cailee Spaeny, Daryl McCormack e Thomas Haden Church
Gênero: Comédia, Crime, Drama, Mistério, Suspense
Ano: 2025
Duração: 144 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *