Crítica | The Mastermind

Crítica | The Mastermind

Kelly Reichardt demonstra, mais uma vez, que o cinema de grande impacto não precisa ser estrondoso. A diretora, conhecida por seu domínio singular de tempo e espaço, transforma o gênero, já saturado, do filme de assalto em uma profunda reflexão artística sobre a ambição humana e a masculinidade frágil em The Mastermind. É, inegavelmente, uma das obras mais elegantes e sutis do ano.

Josh O’Connor entrega uma atuação assombrosa como James Blaine “J.B.” Mooney. A afinidade entre a câmera de Reichardt e o ator é evidente, resultando em uma performance repleta de nuances. J.B. está distante do ladrão carismático que Hollywood frequentemente glorifica; ele é um carpinteiro desempregado, pai de família e iludido, que opta por roubar pinturas abstratas de Arthur Dove de um museu local em Massachusetts. A verdadeira tensão do filme não reside em perseguições ou tiroteios, mas na certeza melancólica de que J.B. está completamente despreparado para o crime que comete.

A direção de arte transporta o espectador diretamente para 1970. Longe de uma nostalgia caricatural, o ambiente é palpável: um eco da ressaca pós anos 60, com a Guerra do Vietnã e a agitação social (rolando em background), enquanto J.B. se isola em sua bolha egocêntrica. Reichardt subverte a estrutura tradicional do gênero ao apresentar o roubo logo no início — executado de forma quase cômica e desajeitada — dedicando o restante da narrativa ao lento desmoronamento deste homem e, por (in)consequência, de sua família (com destaque para Alana Haim, excelente como a esposa Terri).

Contudo, é preciso que o espectador esteja avisado: The Mastermind não é um filme recheado de ação, tiro, porrada e bomba. Se a expectativa é por uma descarga divertida de adrenalina no molde de Onze Homens e um Segredo (por exemplo), a experiência pode ser frustrante. O ritmo do filme é um exemplo clássico do subgênero conhecido como slow burn, termo que designa narrativas que constroem a tensão de maneira lenta e deliberada, focando no desenvolvimento processual e psicológico dos personagens. 

Reichardt aquece o prato em banho Maria, o que exige paciência, mas a recompensa é poderosa: o registro da “tragédia morosa” de um homem comum na tentativa desesperada de justificar o injustificável. É cinema de observação, que exige celular desligado e atenção aos detalhes. Uma jóia rara que reitera que, por vezes, a maior transgressão é a nossa própria soberba.


Uma frase: “Não é roubo se você não for pego.” – J.B. Mooney destilando sua lógica torta.

Uma cena: A abertura do filme, onde J.B., durante um passeio “inocente” com a esposa e filhos no museu, furta uma pequena estatueta bem debaixo do nariz dos guardas (e da própria família), provando que sua compulsão vem de muito antes do grande plano. Servindo como um teste que tudo vai ser muito fácil, afinal, ele é um gênio do crime.

Uma curiosidade: A diretora Kelly Reichardt fez questão de mudar a ambientação do roteiro de 1972 para 1970. O motivo? Ela queria capturar exatamente o momento de “limbo” em que o idealismo dos anos 60 tinha acabado de morrer, mas a década de 70 ainda não tinha identidade própria.


The Mastermind

Direção: Kelly Reichardt
Roteiro: Kelly Reichardt
Elenco: Josh O’Connor, Alana Haim, Hope Davis, John Magaro, Gaby Hoffmann e Bill Camp
Gênero: Assalto, Crime
Ano: 2025
Duração: 110 minutos

marciomelo

Baiano, natural de Conceição do Almeida, sou engenheiro de software em horário comercial e escritor nas horas vagas. Sobrevivi à queda de um carro em movimento, tenho o crânio fissurado por conta de uma aposta com skate e torço por um time COLOSSAL.

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