Crítica | Meu Anjo (Gueule d’ange)

Meu Anjo aborda temas que ainda são tabus na nossa sociedade: a maternidade tóxica e o abandono parental. O filme francês conta o drama da conflituosa relação de Marlene (Marion Cotillard) com sua filha Elli (Ayline Aksoy-Etaix). No longa, acompanhamos o ciclo de autodestruição de uma péssima mãe sendo projetado na filha. O sofrimento da menina é o fio condutor da narrativa.

As interpretações de Marion e Ayline são incríveis e comoventes. Enquanto a veterana exagera no gestual para compor uma mãe controversa, ingênua e inconsequente, a atriz mirim consegue entregar a carga emotiva de sua triste personagem apenas com olhares. A indignação da filha com a contradição dos sentimentos maternos fica evidente quando Marlene chama Elli de Meu Anjo, título dado ao filme.

Na direção, Vanessa Filho faz um ótimo trabalho, principalmente, nos enquadramentos de cena, que nos colocam a maior parte do tempo sob o ponto de vista da criança. Corajosamente, a diretora aposta em “cenas fortes” no intuito de sensibilizar o espectador, a maior parte delas visa evidenciar um problema que muitos pais ignoram: o alcoolismo infanto-juvenil.

Segundo o último levantamento do IBGE, 1,5 milhão de adolescentes de 13 ou 14 anos já experimentaram álcool. O consumo de bebida alcóolica é atualmente o maior responsável pela morte de brasileiros entre 15 e 19 anos. Muito se fala sobre o consumo de drogas por jovens, mas o álcool ainda costuma ser tolerado apesar de seu sabido efeito danoso para a saúde. Aliado à solidão, à depressão, ao bullying, o alcoolismo pode culminar em suicídio. E o filme estabelece muito bem essa relação de causa e consequência.

Meu Anjo, foto

Ao se vê abandonada pela mãe, Elli só quer se embriagar para fugir dessa realidade de solidão e infelicidade. Se para um adulto é muito complicado lidar com esses sentimentos, imagina para uma criança, cuja personalidade e caráter ainda não foram consolidados. A carência de uma figura materna mais presente, cuidadosa e carinhosa, bem como o desconhecimento sobre a identidade do pai, faz com que a menina se apegue ao personagem de Julio (Alban Lenoir), seu salvador.

Como obra cinematográfica, Meu Anjo executa bem uma narrativa dramática. A fotografia também é destaque, com a valorização da luz solar nas cenas diurnas, as cores fortes e brilhantes dos figurinos e enquadramentos noturnos, a palidez da caracterização de Elli. A intenção, nesse caso, é infantilizar o personagem da mãe e dar um ar mais adulto à criança. É justamente essa inversão de papéis que é posta como pano de fundo do filme.


Uma frase: – Marlene em mensagem para filha gravada na secretária eletrônica: “Você é a coisa mais importante para mim. Não estou longe. Preciso de um tempo. Não pense que não penso em você. Penso em você todo tempo. Mamãe te ama muito”.

Uma cena: Quando Elli se recusa a ser abandonada também por Julio e ela grita muitas vezes para ele não a deixar.

Uma curiosidade: O filme levou vários anos para ser escrito.


Meu Anjo, cartazMeu Anjo (Gueule d’ange)

Direção: Vanessa Filho
Roteiro:
Diastème, Vanessa Filho e François Pirot
Elenco: Marion Cotillard, Ayline Aksoy-Etaix e Alban Lenoir
Gênero: Drama
Ano: 2018
Duração: 108 minutos

Filha dos anos 80, a Não Traumatizada, Mãe de Plantas, Rainha de Memes, Rainha dos Gifs e dos Primeiros Funks Melody, Quebradora de Correntes da Internet, Senhora dos Sete Chopes, Khaleesi das Leituras Incompletas, a Primeira de Seu Nome.

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