Crítica | Renascendo das Cinzas (Phoenix Rising)

Crítica | Renascendo das Cinzas (Phoenix Rising)

Quando decidi clicar no play e assistir ao documentário Phoenix Rising confesso que eu não estava preparada para ele. Sou capaz de afirmar, inclusive, que nenhuma mulher está. Confesso também que eu mesma não estava no meu melhor momento naquele dia. Acabara de saber que uma colega de trabalho havia sido humilhada publicamente por uma autoridade – um homem, é claro – dentro do ambiente de trabalho. Eu chorei de consternação não apenas por Evan Rachel Wood (Westworld), abusada e torturada psicológica e fisicamente pelo astro de rock, Marilyn Manson (Brian Warner), como chorei também pela minha amiga do trabalho. Lembrei de mim mesma e dos abusos sofridos em tantos relacionamentos tóxicos – amorosos e profissionais – os quais,  na maioria esmagadora das vezes,  envolvem um homem poderoso ou que se sente como tal.

Dirigido por Amy Berg, Phoenix Rising estreou na HBO Max em duas partes. Vítima de violência doméstica, Evan usa da sua própria experiência para buscar por justiça e para dar voz a outras sobreviventes. Na primeira parte do documentário é possível conhecer parte da história da atriz que, desde muito cedo, vivia em ambiente tóxico junto à família. “A gente briga porque se ama!”, Wood revela uma das falas de seu pai sobre as brigas com a  mãe. O relacionamento de Evan e Brian começou quando ela tinha apenas 18 anos, enquanto que ele, 37. Na narrativa de Berg é possível acompanhar a trágica escalada de um relacionamento abusivo: análise do perfil de Evan, bombardeio de amor, desvalorização e descarte.

A sensibilidade de Berg e a coragem de Wood trazem uma poderosa e dolorosa narrativa que vai muito além das feridas ainda não curadas da atriz. É possível ter uma pequena mas profunda dimensão de quão danosa e premeditada foi a intervenção de Manson na vida de Evan. Com a delicadeza necessária para tratar do tema, a história é explorada com a ajuda de uma série de ilustrações que nos trazem acolhimento, nostalgia e desencanto, tudo ao mesmo tempo. Acompanhar Evan sendo atraída para a “toca do coelho”  e afundando-se cada vez mais na escuridão que é o próprio Brian Warner leva o(a) espectador(a) a ter o máximo de empatia possível, especialmente sobre denúncia tão tardia. Quem é mulher sabe o quão difícil se torna a nossa vida quando denunciamos violências perpetradas por homens.

Tendo como únicos compromissos a verdade e a cura, Evan Rachel Wood revela e detalha os momentos de terror que passou nas mãos de seu ex-companheiro e abusador. Ela foi torturada psicológica e fisicamente durante todo o relacionamento que, entre idas e vindas, durou 4 anos. Na segunda parte do documentário é importante destacar o aviso de gatilho, uma vez que Evan e outras sobreviventes de Brian comentam atrocidades sofridas. Para além de dar voz às vítimas, Phoenix Rising também destaca a importante participação de Wood e de outras vítimas para a aprovação da Lei Phoenix, na Califórnia (EUA). A regulamentação aumentou o tempo para que as vítimas possam denunciar seus abusadores – de 3 para 5 anos. A lei também passou a exigir que policiais tenham treinamento sobre violência por parceiro íntimo.

Não foi fácil assistir a Phoenix Rising. Houve gatilhos e lágrimas, e eu tenho certeza absoluta que um pedacinho de mim morreu naquele dia. Não apenas por Evan, mas pela colega de trabalho e por tantas outras mulheres que sobreviveram (felizmente) a relacionamentos tóxicos. Infelizmente ainda permanece uma sensação esmagadora de impotência em relação ao machismo estrutural. Machismo esse que faz com que mulheres das mais diversas classes sociais, ocupações e vivências ainda caiam em armadilhas de predadores como Brian Warner. Um machismo tão intrínseco em nossa sociedade que permite que mulheres sejam torturadas em relacionamentos amorosos e humilhadas em ambientes de trabalho. Um patriarcado tão nocivo que não condena e tampouco inibe homens que assediam abertamente mulheres dentro de ônibus e vagões de trem. O mundo é masculino. As leis foram feitas por homens, mas nós somos maioria no país e no planeta. Apenas a sororidade nos salvará. O acolhimento e a solidariedade entre mulheres é mais do que urgente, é caso de vida ou morte.

*Se você é ou conhece alguma mulher em situação de violência disque 180 e denuncie. 


Uma frase: – “Me passava a impressão de que o abuso era arte para ele”

Uma cena: Cena em que Wood relata a tentativa de suicídio.

Uma curiosidade: A primeira parte do documentário teve sua estreia mundial no Festival de Sundance 2022 no dia 23 de Janeiro de 2022. Na HBO a primeira parte estreou no dia 15 de Março de 2022 e a segunda no dia 16 de março do mesmo ano.


Renascendo das Cinzas (Phoenix Rising)

Direção: Amy J. Berg
Elenco: Evan Rachel Wood, Sara Wood, Ira David Wood IV e Illma Gore
Gênero: Documentário, Policial
Ano: 2022
Duração: 155 minutos

Elaine Fonseca

Elaine Fonseca

Jornalista, servidora pública e nerd.

Um comentário em “Crítica | Renascendo das Cinzas (Phoenix Rising)

  1. Era fã do Marilyn Manson, mas, depois do primeiro post da Evan, parte da comunidade de fãs da maior fã base dele aqui desabou, a dona do site vendeu o domínio por não saber lidar mais com aquilo, dentro do grupo houve muita controvérsia com gente passando pano para o criminoso e a outra parte se sentindo um bando de tolos por não ter visto os sinais claros que algumas musicas e clipes passavam, basta ouvir ‘Leave a Scar’, ‘Pistol Whipped’ e Wow para ver que quando o Manson escreveu sobre seu lado pessoal, o lado doentia estava lá nos versos sendo cantado em festivais… espero que um dia a Evan possa viver sem medo e que Manson se f#da

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