Crítica | Flee: Nenhum Lugar Para Chamar de Lar

Crítica | Flee: Nenhum Lugar Para Chamar de Lar

O documentário “Flee: Nenhum Lugar Para Chamar de Lar” mostra o quanto é possível ser criativo nesse gênero ao utilizar animação para contar a incrível jornada de Amin Nawabi para fugir do Afeganistão. O diretor Jonas Poher Rasmussen usa o relato de Amin como fio condutor, mas também usa o formato de desenho animado para mostrar ao espectador, de forma visual, um pouco da vida do protagonista no seu país natal utilizando dubladores para dar voz a uma versão criança de Amin e também para outros membros da sua família. Além disso, o cineasta usa em poucos momentos algumas imagens reais para contribuir ainda mais para a contextualização da narrativa.

A jornada de Amin é realmente impressionante e tudo começa com os dias atuais onde ele mora na Dinamarca e está prestes a morar junto com seu namorado Kasper. É no documentário que ele resolve contar pela primeira vez sua verdadeira história, pois até então o que ele narrava era que sua família teria morrido e ele chegou sozinho à Dinamarca para pedir asilo. No entanto, não foi bem isso que aconteceu e o objetivo de “Flee: Nenhum Lugar Para Chamar de Lar” é justamente apresentar para o espectador um pouco dessa incrível trajetória.

Caso fosse um documentário tradicional, “Flee: Nenhum Lugar Para Chamar de Lar” teria uma enorme dificuldade de apresentar imagens da época em que Amin era criança no Afeganistão para ilustrar a história e, se tivéssemos apenas a entrevista dele em vídeo, o impacto não seria o mesmo. Assim, a decisão do diretor Jonas Poher de usar animação se mostra extremamente acertada durante o desenrolar da narrativa.

Tudo começa com a infância de Amin onde ele tinha uma vida normal, ia para escola, brincava com os amigos, mas ele já se sentia um pouco diferente dos outros por sentir atração por homens. Se a homossexualidade ainda é um tabu em 2022, imagine nos anos 1980 e em um país conservador e religioso como o Afeganistão. Inicialmente o documentário apresenta isso de forma leve e divertida em como o jovem via nos posters no seu quarto de astros como Jean-Claude Van Damme ganharem vida e conversarem com ele. Temos também uso de músicas pop de bandas como A-ha para contribuir ainda mais na contextualização da época que ele vivia.

Contudo, esse tom leve não dura muito tempo. Durante os anos 1980 surgem conflitos dentro do Afeganistão envolvendo EUA e a União Soviética, dessa forma para muitas famílias, como a de Amin, a única alternativa é fugir do país. Essa jornada em busca de um novo lar é triste e complicada. O amadurecimento do protagonista enquanto está em fuga é difícil e o seu depoimento é emocionante. Esse é o grande trunfo do documentário, apresentar um relato recente, mas de uma realidade que infelizmente ainda é comum em muitos países até hoje, onde famílias abandonam suas casas para fugir de guerras. Pior ainda é a forma como são recebidos em outros países.

Ao mesmo tempo, o diretor Jonas Poher Rasmussen ainda faz paralelo com a vida atual de Amin. O homem aceitou uma proposta para fazer um pós-doutorado nos EUA, então ele se prepara para uma nova mudança de país, ao mesmo tempo em que enfrenta a dúvida se deve ficar ou não na Dinamarca com seu namorado. Ou seja, é como se até os dias atuais ele ainda estivesse em busca de um lugar para chamar de lar.

Talvez o único porém de “Flee: Nenhum Lugar Para Chamar de Lar” seja o de não explorar muito as questões sociais e políticas do Afeganistão e os outros lugares pelos quais Amin passa durante a sua jornada. Isso com certeza ajudaria o espectador a entender ainda melhor o drama dele, mas não chega a ser algo que comprometa o documentário, já que o diretor Jonas Poher Rasmussen fez a escolha em focar no drama pessoal do protagonista. O resultado é um filme impactante e que graças ao formato de animação ganha um escopo ainda maior na forma de contar essa emocionante história de vida e de como isso ainda impacta Amin até hoje, algo que infelizmente ainda é muito comum em muitos lugares ao redor do mundo.


Uma frase: – Amin (9-11 anos): “Não temos ideia do que vai acontecer conosco. Ninguém nos diz nada. Os jornalistas vêm e nos filmam. Esperamos que algo aconteça, mas não. Eles vão para casa fazer programas de TV… Mas nada realmente acontece. Somos só nós e os guardas.”

Uma cena: O início do filme quando Amin conta sobre sua infância e de como corria pelas ruas no Afeganistão usando um vestido. 

Uma curiosidade: Os atores Riz Ahmed e Nikolaj Coster-Waldau foram anunciados para se juntar ao projeto como produtores executivos em janeiro de 2021, depois que o filme estreou no Sundance Film Festival. Eles também dublaram Amin (Ahmed) e o diretor Jonas Poher Rassmussen (Coster-Waldau) na dublagem em inglês do filme. 


Flee: Nenhum Lugar Para Chamar de Lar (Flugt)

Direção: Jonas Poher Rasmussen
Roteiro: Jonas Poher Rasmussen
Elenco: Amin Nawabi, Daniel Karimyar, Fardin Mijdzadeh, Jonas Poher Rasmussen, Kasper, Belal Faiz, Milad Eskandari, Zahra Mehrwarz, Elaha Faiz e Sadia Faiz
Gênero: Documentário
Ano: 2021
Duração: 90 minutos

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

%d blogueiros gostam disto: