Crítica | Licorice Pizza

Crítica | Licorice Pizza

Eu sou eu, licuri é coco pequeno, e Pizza de Licuri é o que é.

Qualquer um pode contar uma história de amor. Mas poucos são Paul Thomas Anderson.

Hegel definia o amor como um campo normativo de liberdade, no qual o ser consigo mesmo é livre na medida em que se reconhece em um outro; Marx, a partir de Hegel, talvez compreendesse que esse campo normativo é profundamente determinado pelas relações sociais às quais no submetemos. Como falar de amor e liberdade, então, enquanto etapas da formação, em contexto bem particular como o da Califórnia da década de 70? Evidente, que não se pretende aqui sugerir que esta seria a intenção do mesmo, mas não se pode dizer que de certa forma, ainda que incidentalmente, Paul Thomas Anderson tenha buscado responder a essa questão em sua nova obra, Licorice Pizza (2021).

Licorice Pizza se traduziria literalmente como Pizza de Alcaçuz. Pizza, claro, dispensa explicações; alcaçuz, para quem não sabe, é uma planta com propriedades medicinais e adocicadas que quando processada para uso adquire tons escuros. Sem dúvida, um sabor de pizza bastante esquisito mas que, também, indubitavelmente Michelangelo (não o pintor, a Tartaruga Ninja) dificilmente dispensaria. E nem deveria. Licorices Pizzas são uma concretas iguarias abstratas de indispensável degustação.

A imagem de uma Licorice Pizza (ou Pizza de Licuri, como eu prefiro chamar, traduzido para o bom baianês e remetendo ao nosso glorioso ditado) evoca um disco de vinil: circular e negro. Para o diretor Paul Thomas Anderson, Licorice Pizza também evoca a memória afetiva de uma famosa rede de lojas de discos de vinil no vale de San Fernando, na Califórnia, onde o diretor cresceu e também onde se passa a história do filme. Evoca, assim, sobretudo, um sentido de nostalgia; porém, uma nostalgia muito própria: consciente de si mesma e sem pretensões celebratórias.

É claro que você não precisa saber de nada disso para assistir ou apreciar Licorice Pizza. Nem sequer seria preciso você ler isso em uma “crítica” sobre o filme (se você já suportou chegar até aqui, quero presumir que não vá querer desistir agora). Mas o simples fato de um texto se permitir começar dessa forma para tratar de um filme já deve ser indicativo de quão peculiar esse filme pode ser.

Decerto que nem todo filme deve se pretender uma obra complexa com atributos que os mais eruditos (e elitistas, confesso) poderiam classificar de arte. Cinema pode (e muitas vezes deve, mesmo) ser apenas diversão. Em tempos não escuros como alcaçuz, em que hoje vivemos, é preciso de fato muito mais vezes que outras, buscar fugas, escapes e distrações. Entretanto, é ainda mais certo que quando essa diversão pura vem acompanhada da qualidade de nos fazer refletir e pensar sobre nós e o mundo ao nosso redor, isso a coloca em um ligar diferenciado. E quando isso é feito, mais ainda, com um talento narrativo que mistura simplicidade e sofisticação e nos envolve com leveza e profundidade nos transportando para o ínitmo daqueles personagens e daquele mundo, como tem a rara capacidade de fazer Paul Thomas Anderson, esse lugar diferenciado ganha um sabor todo especial. Talvez o sabor que seria o de uma Licorice Pizza.

Aparentemente aquele que chegou até esse ponto deve achar que nada foi dito aqui, de uma perspectiva mais objetiva, sobre o novo filme de Paul Thomas Anderson. De fato, confesso, não o foi. Mas certas coisas, sem dúvida, funcionam melhor quando experienciadas do que quando descritas. E Licorice Pizza, sem dúvida (pode perguntar ao Michelangelo que você prefira), algo que funciona melhor assim, quando devidamente apreciada.

Seria muito fácil, assim, reduzir o mais recente filme de Paul Thomas Anderson (diretor conhecido por seu olhar e sua lente bastante particulares e cheios de uma dura e agridoce sensibilidade) a uma história de formação e de amor, nos termos de Locuras de Verão (American Graffiti, 1973 de George Lucas) ou Picardias Estudantis (Fast Times at Ridgemont High, 1982 de Amy Heckerling). E sem dúvida trata-se de um filme sobre isso. Trata-se de uma comédia romântica, e de uma história de formação. Mas trata-se de uma comédia romântica e uma história de formação escrita e dirigida por Paul Thomas Anderson. Mais ainda, sobre Paul Thomas Anderson compartilhando uma pequena parte de si, que é muito grande, para o mundo. Sua Pizza de Licuri, para o mundo.

E antes que nos esqueçamos, para que depois não digam que eu não disse nada, não custa reforçar (como talvez teria dito nosse grande pensador baiano Franciel Cruz em algum universo alternativo desse nosso multiverso muito louco): “Eu sou eu, licuri é coco pequeno, e Pizza de Licuri é o que é”.


Uma frase: “Como é o seu pênis?”

Uma cena: Alana prova que é capaz de dirigir melhor que Vin Diesel em qualquer um dos Velozes e Furiosos.

Uma curiosidade: Cooper Hoffman, que interpreta Gary Valentine, um dos protagonistas do filme, é filho do falecido ator Philip Seymour Hoffman, amigo e antigo colaborador do diretor Paul Thomas Anderson.


Licorice Pizza

Direção e Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Cooper Hoffman, Alana Haim, John Michael Higgins, Skyler Gisondo, Mary Elizabeth Ellis, Bradley Cooper e Sean Penn
Gênero: Comédia, Drama, Romance.
Ano: 2021
Duração: 133 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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