Crítica | Não Olhe Para Cima

Crítica | Não Olhe Para Cima

O melhor filme catástrofe que você jamais irá ver é uma comédia que tragicamente reproduz com bastante fidelidade nossa realidade…

O diretor Adam McKay se consagrou por imprimir um tom bastante característico em suas produções que mistura humor, crítica social e um estilo de câmera que pretende se aproximar do formato de documentários. Leonardo DiCaprio, além de ser um dos grandes artistas de sua geração, é também um importante ativista a favor de causas sociais e principalmente ecológicas. Quando os dois se juntam, o resultado é uma parábola bastante óbvia – porém necessária – sobre o aquecimento global.

Em “Não Olhe Para Cima”, vemos dois astrônomos – Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence, ambos em ótimas performances – que descobrem que um cometa irá se chocar com o planeta Terra e erradicar a humanidade em cerca de seis meses. Ao tentar alertar as autoridades, se deparam com políticos saídos de reality shows, com suas próprias agendas e interesses, e uma sociedade absolutamente alienada pelo ruído das redes sociais que ignora e até os ridiculariza quando ambos gritam a plenos pulmões o já infelizmente desgastado alerta de que “Nós todos iremos morrer!”. A partir daí, se desenvolvem situações idiossincráticas e tão surreais que nos causariam estranhamento se não fossem profundamente calcadas em nosso estranho e distópico mundo contemporâneo. McKay entende bem essa peculiaridade de nossa sociedade e muito por isso sua exposição satírica, um tanto constrangedora e muitas vezes óbvia se prova tão necessária e contundente.

Além do ótimo roteiro que tem personagens muito interessantes e bastante expressivos em seus papéis, o filme conta com um elenco excelente. Além dos já citados protagonistas, temos Meryl Streep como a presidente dos EUA e Jonah Hilll como seu filho e chefe de gabinete são um curioso espelho da política contemporânea, não apenas nas terras do Tio Sam, mas também no Brasil. Cate Blanchett e Tyler Perry fazem uma dupla de apresentadores de TV que sintetizam uma mídia totalmente absorvida pelo entretenimento em detrimento da obrigação de tratar a realidade com a seriedade devida que se exige em alguns momentos. O filme ainda conta com diversas ótimas participações de nomes como Ron Perlman, Himesh Patel e Rob Morgan.

Mas é mesmo de Mark Rylance o papel e atuação mais extraordinário, e talvez uma das melhores atuações de sua já ótima carreira. Na pele do bilionário guru tecnológico Peter Isherwell, Rylance entende o valor da caricatura de seu personagem e o abraça com tamanha tranquilidade que é simplesmente impagável. É ele, sobretudo, a espinha dorsal da narrativa e o elemento que move a trama. É através dele que McKay aponta para onde devemos olhar e muito por isso é que a excelente performance de Rylance é tão importante para que o valor crítico de “Não Olhe Para Cima” seja tão acima da média.

Afinal, em tempos em que bilionários gastam bilhões para ir ao espaço em estruturas fálicas gigantes, enquanto bilhões passam fome e são vítimas impotentes de uma das maiores crises ecológicas da história causada por esses mesmos bilionários, nada melhor do que um bronteroc para trazer um pouco de justiça poética e nos fazer rir um pouco diante da incontestável, desesperadora e surreal realidade da proximidade do fim.


Uma frase: – Devin Peters “É, esse broche aponta para cima e para baixo. Eu acho que, como país, precisamos parar de discutir e sinalizar virtude. É hora de harmonia.”

Uma cena: O filme tem diversas cenas excelentes, mas uma que me chamou a atenção foi uma ponta de Chris Evans que faz um ator de cinema que assume a já conhecida posição “murista” que insiste que todos os lados devem ser ouvidos, e que nós não deveríamos brigar tanto, mesmo diante de nossa iminente extinção.

Uma curiosidade: O mesmo Chris Evan havia sido originalmente escalado para o papel de Mark Rylance. Acho Evans um grande ator, mas ainda bem que McKay mudou de ideia e decidiu dar o papel a Rylance.


Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up)

Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay; história de Adam McKay e David Sirota
Elenco: Leonardo DiCaprio, Jennifer Lawrence, Rob Morgan, Jonah Hill, Mark Rylance, Tyler Perry, Timothée Chalamet, Ron Perlman, Ariana Grande, Scott Mescudi, Himesh Patel, Melanie Lynskey, Michael Chiklis, Tomer Sisley, Paul Guilfoyle, Robert Joy, Cate Blanchett e Meryl Streep
Gênero: Comédia, Drama, Sci-Fi
Ano: 2021
Duração: 138 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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