Crítica | A Crônica Francesa

Crítica | A Crônica Francesa

A Crônica Francesa”, novo filme de Wes Anderson, faz uma bela homenagem ao mundo do jornalismo. O longa-metragem segue bem o estilo de Anderson em todos os aspectos, desde os técnicos até os habituais colaboradores no elenco. Além disso, esse talvez seja um dos filmes mais criativos do cineasta, onde ele explora diversas técnicas de cinema que abordou ao longo da carreira. É como se esse fosse um “melhores momentos” da sua filmografia.

A trama gira em torno da revista fictícia The French Dispatch (título original do filme), uma publicação dos Estados Unidos nos anos 1960 que aborda as histórias de maneira “francesa”. Como se fosse uma versão americana de um periódico da França. Ela é comandada por Arthur Howitzer Jr. (Bill Murray). Acompanhamos três histórias que serão publicadas na revista do ponto de vista do jornalista que as escreveu.

Na verdade são quatro, pois a primeira é bem mais curta e é apresentada inicialmente, contando com a participação de Owen Wilson. As três seguintes são mais desenvolvidas e tem em média o mesmo tempo de duração. É como se “A Crônica Francesa” na verdade fosse composto de três médias metragens de Anderson.

Cada uma delas aborda um tema que faz parte da revista, mas de alguma forma elas abrangem mais do que inicialmente propõem. A primeira delas gira em torno do artista Moses Rosenthaler (Benicio del Toro), um pintor que foi preso por cometer assassinato. Dentro da prisão ele fez um novo quadro, inspirado por sua musa Simone (Léa Seydoux), funcionária do lugar. Julien (Adrien Brody) é um negociador de artes que conhece o trabalho de Rosenthaler e resolve criar um “hype” em torno do artista para valorizar o trabalho dele e com isso ganhar dinheiro, mas isso se mostra um trabalho bem complicado.

Nessa primeira parte, o tema é arte e a história explora bem as nuances do assunto, indo das excentricidades dos artistas, passando por suas fontes de inspiração e, principalmente, como a biografia da pessoa pode influenciar no valor do seu trabalho. Afinal de contas, o que seria arte e como colocar um preço nela? Essa temática é constantemente abordada no mundo do cinema e Anderson explora bem com sua maneira meio cômica e surreal.

A história seguinte é sobre política, inspirada nos movimentos estudantis políticos dos anos 1960 e 70. A jornalista Lucinda (Frances McDormand) conversa com o estudante Zeffirelli (Timothée Chalamet) para entender e ajudar com o seu manifesto, entendendo suas motivações e quem faz parte do movimento. Esse talvez pudesse ser o segmento mais engessado, mas Anderson não se aprofunda nos princípios políticos e sim em como pessoas tão jovens, ainda aprendendo sobre a vida e amores, se interessam pela “revolução”.

Para finalizar a matéria mais absurda e surreal, que inicialmente deveria abordar culinária, mas envolve crimes e sequestro. O jornalista Roebuck Wright (Jeffrey Wright) narra como foi jantar com um comissário de polícia para pesquisar sobre seu cozinheiro, mas durante o evento o filho do policial é sequestrado por bandidos.

Em cada história, “A Crônica Francesa” apresenta uma lógica visual que funciona graças ao excelente trabalho do desenho de produção, que apresenta cenários incríveis. O figurino completa a reconstituição de época e junto com a trilha de Alexandre Desplat transporta o espectador para o universo do filme, que mistura viagem no tempo com as particularidades da narrativa da filmografia de Wes Anderson.

A fotografia também é muito bonita e a razão de aspecto “quadrada” dá ao longa-metragem a impressão de ser um filme antigo. “A Crônica Francesa” também alterna entre cores e preto e branco, dando um charme maior para a narrativa. Para completar, ainda utiliza um pedaço da história final em animação, que mostra uma perseguição de carro que nesse formato fica ainda mais hilária e surreal.

Ou seja, ao misturar animação com outras técnicas de fotografia, o diretor Wes Anderson utiliza em “A Crônica Francesa” os principais recursos de linguagem de cinema que ajudaram a definir seu estilo como cineasta. Dessa forma, é possível (re)afirmar que seu trabalho mais recente é uma maneira de apresentar pot-pourri da sua filmografia, para assim confirmar seu talento como artista e toda a sua criatividade.


Uma frase: – Herbsaint Sazerac: “Todas as grandes belezas escondem seus segredos mais profundos.”

Uma cena: O lançamento da nova obra de Moses Rosenthaler dentro da prisão.

Uma curiosidade: Durante os créditos finais são mostradas algumas capas de The French Dispatch ao longo de sua história. Eles foram criados pelo ilustrador espanhol Javi Aznarez e foram vagamente inspirados nas capas da The New Yorker.


A Crônica Francesa (The French Dispatch)

Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson; história de Wes Anderson, Roman Coppola, Hugo Guinness e Jason Schwartzman
Elenco: Benicio del Toro, Adrien Brody, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Alex Lawther, Lyna Khoudri, Jeffrey Wright, Mathieu Amalric, Stephen Park, Bill Murray e Owen Wilson
Gênero: Comédia, Drama, Romance
Ano: 2021
Duração: 108 minutos

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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