Review | Aeon Drive (2020)

Review | Aeon Drive (2020)

Quem nunca criou um desafio imaginário para si próprio em um jogo de videogame? “Será que eu consigo terminar essa fase sem ser atingido nenhuma vez?” “Será que eu consigo chegar ao final sem matar nenhum inimigo?” “Será que eu consigo terminar em menos de cinco minutos?”

O ser humano sempre foi instigado por desafios, e muito antes da era das “conquistas” e “troféus”, nós mesmos já pensávamos em maneiras de tirar valor de um jogo que já tínhamos terminado várias vezes. A idéia de terminar um jogo ou uma fase o mais rápido possível (conhecido com speedrunning) já existe desde o primórdios da internet, onde jogadores competiam em rankings online (e mesmo antes disso, na era de ouro das revistas de games – sendo o registro feito de forma totalmente análogica, tirando uma foto e mandando pelo correio para a editora), e se tornou tão popular que inclusive inspirou grandes eventos, como o Games Done Quick.

Por isso, é de se admirar que até hoje poucos jogos exploraram a idéia de speedrunning como sua mecânica principal — os mais famosos deles sendo o FPS “SEUM: Speedrunners from Hell” e o plataformer Speedrunners.

Pois eis que surge Aeon Drive, um jogo de plataforma com inspiração totalmente old school, onde terminar a fase o mais rápido possível não é apenas uma competição pelo melhor tempo, mas uma necessidade para a sobrevivência e para a progressão.

Quando eu digo old school, é old school mesmo: o jogo remete muito à era 16-bits, inclusive em narrativa, que é muito simples, contada através de raras cutscenes e diálogos. Na história ambientada em um universo cyberpunk, controlamos a protagonista Jack, uma aventureira interdimensional presa em mundo paralelo que precisa recuperar os núcleos de sua nave para voltar para casa. O problema é que o núcleos causam uma instabilidade no espaço-tempo e se não forem controlados em trinta segundos, causarão a destruição total do planeta.

Nossa heroína porém conta com a ajuda da inteligência artificial Vera, que possui a habilidade de manipular brevemente o espaço e o tempo – permitindo à Jack se utilizar de um loop temporal para recuperar todos os núcleos dentro destes trinta segundos. Vera também concede a habilidade de teleportar-se, através da fiel faca de Jack, que pode ser arremessada e transfere Jack para onde a arma estiver repousando.

E isso é tudo que temos a dizer da história de jogo. De resto, temos uma estrutura bem clássica – são cem fases, divididas em dez áreas diferentes – e cada fase tem que ser completada em, veja só, no máximo trinta segundos. Porém, o jogo, que possui uma estrutura de plataformer 2D sidescrolling tradicional, te desafia não somente a conseguir terminar a fase neste tempo – mas tentar fazer o melhor tempo possível. Inclusive, ao final de cada fase concluída são mostrados diversos rankings comparando seu tempo com o de seus amigos e com outros jogadores ao redor do mundo.

Para tornar o desafio mais interessante, Jack é extremamente ágil, e possui habilidades como pular na parede, dar um “carrinho” (que permite passar por baixo de lugares mais estreitos), além da já citada faca, que serve tanto como arma (sim, temos alguns inimigos pelas fases) como um mecanismo de teleporte (muito útil para atingir lugares inacessíveis ou protegidos por barreiras). É muito bonito ver a protagonista atravessando a fase com fluidez, transpondo os obstáculos de maneira praticamente ininterrupta para fazer o melhor tempo possível. Contamos também com diversos fragmentos do núcleo espalhados pelas fases, que quando coletados, podem ser consumidos para conceder alguns segundos de tempo adicional no relógio.

As fases também tem um design bem elegante e todas elas possuem vários caminhos para o final – geralmente, alguns caminhos são mais fáceis de transpor, porém mais longos e tomam mais tempo – enquanto outros são mais curtos e possuem atalhos, porém são muito mais difíceis. Também temos diversos coletáveis diferentes espalhados pelo jogo, e para aqueles que querem fazer 100%, coletar esses itens e fazer um bom tempo em simultâneo pode ser um plus

No geral, a estrutura do game pouco muda até o final, mas as fases são tão diversas e tão curtinhas que não chega a ficar cansativo ou repetitivo demais. Algumas das novas áreas também acrescentam novos desafios, como paredes que devem ser destruídas, por exemplo, porém a maioria destes não chegam a afetar muito o ritmo geral do jogo (exceto pelos interruptores que aparecem nas últimas fases do jogo e mudam totalmente a maneira de pensar a progressão).

A curva de dificuldade também é um pouco estranha, pois durante boa parte das fases o jogo é relativamente fácil (sendo o grande desafio não terminar a fase em si, mas sim terminar o mais rápido possível), e de forma meio súbita a dificuldade do jogo escala muito, sendo que chegar ao final da fase passa a ser um desafio por si só.

Vale destacar também a belíssima arte em pixel do jogo, muito colorida, animada e muito viva — é um dos jogos com estilo 16-bit mais bonitos que vejo em algum tempo. Pena que algumas vezes o excesso de informação visual atrapalha a percepção de inimigos ou elementos do cenário. A trilha sonora com uma pegada synth-wave também é excelente e acrescenta bastante ao clima cyberpunk do game.

Em suma, Aeon Drive que não está nem de longe preocupado em contar uma boa história, mas sim de trazer desafios e uma jogabilidade contagiante. É um jogo muito gostoso de jogar, e que vai te fazer retornar várias fases a uma mesma fase em busca do posto de melhor speedrunning do mundo.


Classificação:


Aeon Drive

Plataformas: PlayStation 4, Microsoft Windows, Xbox Series X, Linux, Nintendo Switch, PlayStation 5, Mac OS, Xbox One
Produtora: CRITICAL REFLEX
Desenvolvedora: 2Awesome Studio
Ano: 2020

Dario Lima

Dario Lima

Dario Lima, além de ser faixa branca em todas as artes marciais e modalidades de combate conhecidas pelo homem, é também formado em Cinema. Mas sua verdadeira paixão são os joguinhos eletrônicos, desde que ganhou um Atari de presente do pai em uma época longínqua em que Menudo tocava nas rádios, Chevette era carro de playboy e McGyver passava na TV nas manhãs de domingo. Escreve sobre games na POCILGA e de vez em quando perturba os outros em algum episódio do Varacast.

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