Crítica | Noite Passada em Soho

Crítica | Noite Passada em Soho

O cineasta Edgar Wright sem dúvida possui uma cinegrafia que, considerando o contexto da grande indústria, pode ser classificada sem exageros como original. Wright despontou juntamente com Simon Pegg e Nick Frost, seus colaboradores na famosa “Trilogia Cornetto”. Desde então, fez uma boa adaptação de quadrinhos Indie com Scott Pilgrim, chegou a ser diretor de Homem-Formiga (antes de se afastar por conta das famigeradas “divergências criativas”), lançou o surpreendente “The World’s End” (eu me recuso a chamar de “Heróis de Ressaca”), até que finalmente conquistou Hollywood de uma vez por todas com seu cheio de ritmo, música e ação “Baby Driver“. É, em suma, um diretor habilidoso, com grande conhecimento da linguagem cinematográfica e que sabe como poucos contar uma história de maneira envolvente e frequentemente imprevisível.

Em seu mais novo trabalho, “Noite Passada em Soho“, vemos um cineasta cada vez mais amadurecido e no domínio de seu ofício. Wright usa a música para dar o tom e a substância de sua narrativa, e a um só tempo incorpora com admirável coesão diversos gêneros (horror, suspense, noir), referências (Stephen King, Alfred Hitchcock, Brian DePalma) e estilos, tanto em forma quanto em substância. É difícil limitar o filme a um gênero ou fórmula única, o que é antes de tudo um atestado ao talento do diretor.

Diana Rigg, a Rainha dos Espinhos de Game of Thrones, em sua última performance.

Com um elenco escolhido a dedo, e trabalhando com grande sinergia, “Noite Passada no Soho” nos prende desde o primeiro frame, e só nos liberta mesmo ao fim. Mas sem dúvida são as performances Anya Taylor-Joy e Diana Rigg que capturam definitivamente o olhar da audiência. Esta última, aliás, tem o filme dedicado a sua memória, haja vista a atriz ter falecido antes do lançamento do filme.

E ao passo que nos entrega um entretenimento de primeira qualidade, Wright não perde de vista a importante discussão acerca do machismo e, principalmente, da objetificação da mulher que o filme se propõe a fazer. Mais do que simplesmente propor o tópico de maneira panfletária, o cineasta desenvolve não apenas toda sua narrativa, mas toda a própria estrutura do filme, subvertenedo a todo momento tropos típicos do cinema a partir da proposta. Em tempos nos quais tais discussões se fazem cada vez mais necessárias, é gratificante ver alguém não apenas com engajamento, mas com visão artística e compreensão social suficentes para não incorrer em equívocos que muitas vezes passam despercebidos aos realizadores do gênero masculino.


Uma frase: “Isso aqui é Londres. Alguém já morreu em todos os cômodos de todos os prédios e em todas as esquinas desta cidade.”

Uma cena: A cena de abertura do filme, e todas as cenas envolvendo espelhos, são particularmente ótimas.

Uma curiosidade: Wright é grande fã da série James Bond e além de escalar as ex-bond girls Diana Rigg e Margaret Nolan nesse filme, também faz uma referência direta ao drink Vesperm criado por Ian Flemming em suas histórias do agente 007.


Noite Passada em Soho (Last Night in Soho)

Direção: Edgar Wright
Roteiro: Krysty Wilson-Cairns e Edgar Wright
Elenco: Thomasin McKenzie, Michael Ajao, Terence Stamp, Anya Taylor-Joy e Diana Rigg
Gênero: Drama, Horror, Mistério
Ano: 2021
Duração: 116 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

3 comentários sobre “Crítica | Noite Passada em Soho

    1. Não cheguei a achar o filme, como um todo, maravilhoso, mas gostei bastante dele principalmente por ser fã dos trabalhos de Wright e também pelas atrizes estarem muito bem em seus papéis.

      Vale muito a pena assistí-lo, ainda que acheu que as histórias, mesmo que tenham conexões “diretas”, funcionem melhores separadas do que juntas

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