Crítica | Surto (Surge)

Crítica | Surto (Surge)

O ambiente de um aeroporto pode ser considerado bom para os amantes de viagens, mas para aqueles com medo de avião pode ser um momento de tensão. Pensando assim, o local é uma metáfora interessante sobre esse conflito de sentimentos. Dessa forma, o diretor Aneil Karia usa esse lugar como ponto de partida para “Surto”, focando na história de Joseph, um solitário segurança aeroportuário responsável por fiscalizar os passageiros na hora de passar pelo raio-x. Fica claro que ele está preso nesse trabalho, entediado por uma vida aparentemente sem propósito.

Sua rotina sem graça envolve um relacionamento frio com os colegas de trabalho, onde ele tem certo interesse por uma mulher, mas não se esforça para “socializar” com ela. Fica claro que o problema na verdade começa da sua relação com os pais, ao mostrá-lo encontrando com eles em sua residência por causa do próprio aniversário. O pai reclama de todas as suas atitudes, enquanto a mãe também é apática e sem carinho com ele. Um acidente doméstico com Joseph durante essa visita ativa um gatilho nele, que foge correndo e parece sentir uma liberdade que nunca sentiu antes.

Esse é o início do surto do título, se referenciando ao comportamento que Joseph apresenta a partir desse ponto. Aneil Karia capta o protagonista quase sempre usando uma câmera na mão, sempre próxima dele, focando principalmente nas suas expressões faciais e corporais. Essa maneira de filmar deixa “Surto” em um tom quase documental, como se o espectador estivesse ao lado do personagem enquanto ele experimenta o seu lado mais selvagem e libertador.

Em muitos momentos a imagem fica tremida, simbolizando a confusão de sentimentos da cabeça de Joseph. Sua mudança de comportamento é clara, onde ele deixa de ser um homem quieto e apático, se transformando em uma pessoa afobada e que não tem medo de tomar atitudes mais intensas. As doses de adrenalina sobem aos poucos e alguns contratempos, como na cena em que ele resolve comprar um cabo para ligar um computador em uma TV e seu cartão de banco não funciona, fazem com que ele faça atos mais extremos, como roubar um banco.

O filme só funciona muito bem graças à atuação hipnótica de Ben Whishaw. O ator entrega um desempenho impressionante e extremamente físico. As suas expressões corporais dizem muito sobre o personagem, então é fascinante acompanhar sua mudança de comportamento. O ator constrói essa trajetória de maneira brilhante, indo do extremo apático para o outro selvagem com uma naturalidade assustadora.

Assim, o diretor Aneil Karia faz em “Surto” um ótimo estudo de personagem em um filme que evoca uma reflexão interessante para o espectador, que pode fazer diversas leituras sobre o que levou Joseph a ter essa brusca mudança de comportamento. Será que foi por causa do seu passado e da sua relação com os pais? Ou seria algo maior, envolvendo também a influência de uma sociedade baseada em estresse, ameaças, medos e sistemas hostis? A resposta seria lutar contra o “sistema” em busca de algum tipo de liberdade “animal”, um sentimento contra o condicionamento e um código de comportamento? Os atos do protagonista até podem ter feito que ele atinja algum tipo de “nirvana”, mas é importante também pensar sobre as consequências do seu comportamento além de si próprio.


Uma frase:  Joyce (mãe de Joseph, falando para ele): “O que se passa nessa cabecinha?”

Uma cena: Quando Joseph vai a uma loja comprar um cabo para ligar um computador em uma televisão. 

Uma curiosidade: O filme teve sua premiere no Sundance Film Festival no dia 26 de Janeiro de 2020. 


Surto (Surge)

Direção: Aneil Karia
Roteiro: Aneil Karia, Rupert Jones e Rita Kalnejais
Elenco: Ben Whishaw, Ellie Haddington, Ian Gelder e Jasmine Jobson 
Gênero: Thriller, Suspense
Ano: 2020
Duração: 105 minutos 

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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