Crítica | Casa Gucci (House of Gucci, 2021)

Crítica | Casa Gucci (House of Gucci, 2021)

Casa Gucci aparenta ser muito mais do que de fato entrega.

Nos últimos meses muito tem se falado da performance de Lady Gaga como Patrizia Reggiani em Casa Gucci. A própria atriz não tem poupado declarações nada humildes, insistindo em episódios anedóticos na qual ela teria se perdido em meio à personagem ou honrado as suas raízes italianas (o que quer que isso queira dizer). Infelizmente, se comprova aqui aquela antiga máxima de que, quando existe muito estardalhaço focado em situações que orbitam à coisa, a coisa em si raramente costuma ser interessante.

Casa Gucci (House of Gucci, 2021), pretende contar a história, inspirada em fatos, do casamento de Maurizio Gucci (Adam Driver, sempre ótimo em suas atuações) e Patrizia Reggiani (Lady Gaga), e como essa relação afetou a família e uma das mais poderosas marcas da indústria da moda internacional. O filme conta ainda com um elenco de apoio estelar como Jeremy Irons, Al Pacino e Jared Leto (este último irreconhecível e roubando a cena em todos os momentos que está em tela, em uma das melhores performances de sua carreira). 

Dirigido por Ridley Scott, que nos entregou o excelente “O Último Duelo” nesse mesmo ano, o filme tem, contudo, uma certa dificuldade em se definir e encontrar seu tom, bem como problemas particulares com desenvolvimento. E embora Scott seja um dos mais competentes diretores em atividade da indústria, não se pode se furtar de se jogar na conta dele problemas de desenvolvimento de personagens e narrativa quando este fatalmente se apresentam, como ocorre em Casa Gucci.

Em certos momentos não sabemos se estamos assistindo a uma comédia dramática que não se assumiu, ou uma tentativa de drama policial que fracassou. Certas cenas e performances despertam o riso e o estranhamento diante de momentos em que nos perguntamos se deveríamos mesmo estar rindo ou se aquela seria mesmo a intenção da cena. Em alguns momentos alguns atores (particularmente Lady Gaga) envidam esforços para performar sotaques italianos de fazer corar atores da Rede Globo.

Outro ponto mencionado, bastante problemático, é o desenvolvimento dos personagens e em como eles fazem a narrativa se desenrolar. Em que momento Maurizio deixou de ser um jovem ingênuo e até um pouco tolo para se tornar um ambicioso homem de negócios? Em que momento Patrizia deixou de ser uma mulher ambiciosa para se tornar uma mulher obcecada por seu marido? E em que momento o casamento deles ruiu? Nada disso fica claro no filme, e embora isso não afete a compreensão do enredo, deixamos a sala de cinema com uma nítida sensação de história mal contada. 

Porém, Casa Gucci não é exatamente um filme ruim. A assinatura da produção de Ridley Scott sempre entrega trabalhos minimamente competentes, isso é indiscutível, e a qualidade do elenco, em geral, mesmo quando erra ou exagera, garante uma boa diversão. O segredo, talvez, seja assistir o filme com o espírito de quem assiste a uma comédia de humor ácido, ou à uma ópera bufa, no melhor estilo italiano. Afinal, como diz um dos personagens em certo momento do filme, cocô e chocolate podem parecer iguais, mas têm sabores muuuuito diferentes…


Uma frase: “Cocô e Chocolate podem parecer iguais, mas têm gostos muito diferentes. Acredite! Eu sei do que estou falando!”

Uma cena:
Paolo Gucci celebra a chance de ter sua linha de designs finalmente lançada.

Uma curiosidade:
Segundo filme esse ano em que Adam Driver e Ridley Scott trabalham juntos. Segundo filme de Ridley Scott que envolve uma história baseada em fatos ocorrida na Itália. O primeiro foi Todo o Dinheiro do Mundo (2017).


Noite Passada em Soho (Last Night in Soho)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Becky Johnston, Roberto Bentivegna e Sara Gay Forden
Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jeremy Irons, Salma Hayek e Jared Leto
Gênero: Drama, Crime
Ano: 2021
Duração: 157 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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