Crítica | Tempo (Old)

Crítica | Tempo (Old)

Segundo M. Night Shyamalan, o filme “Tempo” lembra um pouco a pandemia do covid-19, pois, na trama, um grupo de pessoas fica preso em uma praia e não tem como sair, enquanto isso o tempo passa. É uma visão interessante sobre a obra cinematográfica, já que a história é baseada na hq “Castelo de Areia” (Sandcastle) de Pierre Oscar Levy e Frederik Peeters lançada em 2011, bem antes de existir um isolamento social acontecendo no mundo todo. Isso é a beleza da arte, quando é possível associar uma obra a algo que está acontecendo na atualidade.

É bom também ver Shyamalan voltar ao seu “básico”, sem se preocupar em criar um multiverso, mas sim em desenvolver um bom mistério e contar uma história interessante. Em “Tempo”, o cineasta está inspirado na direção com movimentos de câmera muito bem realizados e comandando bem o elenco. O único porém do seu novo filme é o roteiro, também escrito por ele, que peca em construir a trama deixando alguns “buracos” na narrativa. Talvez fosse interessante o diretor considerar deixar a escrita para outras pessoas, como ele fez na série “Servant” e se concentrar apenas na direção, mas pelo menos dessa vez ele já fez algo diferente da sua filmografia e se inspirou pela segunda vez em uma adaptação de uma obra já existente, no caso a hq Sandcastle — a outra vez foi no filme “O Último Mestre do Ar”.

Em “Tempo”, a família Cappa está passando por uma crise e o casal Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps) pretende se separar, mas ainda não sabem como contar para os filhos. Além disso, eles precisam tomar uma decisão, mas só iremos descobrir do que se trata mais na frente. Na tentativa de criar um ambiente mais amigável, eles decidem ir para um resort paradisíaco na beira da praia, pensando assim que essa atitude facilitaria a resolução da situação. No hotel eles são bem recebidos e convidados pelo gerente do estabelecimento para conhecer uma praia muito bonita e isolada perto do lugar, onde somente alguns hóspedes são selecionados para visitar. Assim eles e outras pessoas vão para esse belo lugar, mas que esconde um mistério: as pessoas começam a envelhecer rapidamente. E claro, existem complicações que fazem com que eles não consigam sair do lugar.

A partir desse ponto se desenvolve uma tensão e conflito entre as pessoas presas na praia, onde tentam descobrir o que está acontecendo. Aqui surgem alguns dos problemas do roteiro de Shyamalan, dessa forma surgem diálogos expositivos explicando a situação, mas que são na verdade puro achismo ou conclusões “mágicas” feitas pelos personagens para de alguma forma explicar ao espectador os mistérios da narrativa. Isso prejudica um pouco o filme, mas não chega a comprometer muito, pois felizmente o cineasta está inspirado como diretor. Ele consegue criar uma dinâmica de tensão e suspense entre o grupo, apresentando bons conflitos, além de usar bem a movimentação da câmera para construir o mistério sobre o envelhecimento sem motivo dos personagens.

Esse envelhecimento é percebido principalmente nas crianças, já que de repente elas crescem e ocorre a troca dos atores que os interpretam. Esse recurso funciona muito bem e mostra que a escolha do elenco foi muito acertada, já que eles são bem parecidos fisicamente. É interessante como a câmera mostra apenas uma parte deles, enquanto conversam, para somente depois apresentar a mudança, causando um choque no espectador. Isso tem êxito graças ao talento de Shyamalan em saber criar o clima de mistério no uso assertivo da fotografia. Outro elemento importante é a maquiagem, que é muito bem aplicada no elenco adulto, fazendo com que a evolução da idade deles apareça de forma sutil e verossímil.

Em síntese, em “Tempo” o diretor M. Night Shyamalan apresenta um mistério básico e eficiente, onde apesar dos problemas do roteiro, a trama simples e direção inspirada fazem a diferença no resultado final positivo.


Uma frase: – Prisca: “Tem alguma coisa errada com esta praia!”

Uma cena: Uma cirurgia feita de emergência na praia.

Uma curiosidade: Filmado em 2020, durante o auge da pandemia global do Coronavirus. O elenco e a equipe deveriam ser testados diariamente para possíveis infecções. M. Night Shyamalan disse sobre a produção: “A principal prioridade era manter todos seguros e bem. Apesar de todos nós vivermos e trabalharmos juntos por um período de meses, ninguém adoeceu, o que foi fantástico.”


Tempo (Old)

Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Gael García Bernal, Vicky Krieps, Rufus Sewell, Alex Wolff, Thomasin McKenzie, Abbey Lee, Nikki Amuka-Bird, Ken Leung, Eliza Scanlen, Aaron Pierre, Embeth Davidtz e Emun Elliott
Gênero: Drama, Horror, Mistério
Ano: 2021
Duração: 108 minutos

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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