Crítica | O Último Duelo

Crítica | O Último Duelo

Uma mãe precisa criar seu filho, ela não precisa estar certa.

A magia da arte reside na capacidade de dialogar com nossa época, ainda que se recorra a uma referência aparentemente anacrônica. Aparentemente é a palavra chave nessa afirmação, pois é justamente na capacidade de apostar na aparência como ferramenta para ir além dela que a força do artifício estético nos impressiona. E quando isso é realizado com a medida certa entre sofisticação e exposição; com cuidado aos detalhes e bruteza; com calculada pluralidade semiótica, é aí mesmo que nos arrebata de vez. 

Em “O Último Duelo” (The Last Duel, 2021), os realizadores nos entregam um conjunto tão coeso e bem executado que pode ser facilmente considerado uma das melhores obras do ano. Mas o filme parece estar destinado a ser mais que isso. Não me surpreenderia se, nos anos em que viessem, o Último Duelo não se tornasse um rico objeto de debates, análises e ponto de partida de discussões para entender a intrincada teia de relações sociais que constituem a sociedade machista contemporânea, desde suas raízes na idade média, e o peso que a propriedade exerce nesse jogo. Claro que esse viés aqui proposto é apenas um dos muitos possíveis. Mas sem dúvida, o Último Duelo aborda, sobretudo, o que significa ser mulher em um mundo dominado por homens. 

Dessa perspectiva, cabe ressaltar um ponto: uma grande obra frequentemente é um trabalho de muitas mãos. O Último Duelo, sem dúvida, se acomoda bem a essa perspectiva. Embora seja dirigida por um dos grandes diretores de nossa época – Ridley, a quem diga o menos talentoso dos irmãos Scott, aqui, mais uma vez, entregando o seu melhor, como o fez em The Martian -, é nítido que a produção de Ben Affleck e, sobretudo, de Matt Damon, conferem a substância social que o tecnicismo exagerado de Scott não raro deixa de apurar. Mais ainda, é nítido como o trabalho de Nicole Holofcener no roteiro é imprescindível para um resultado final de tamanha relevância. Some-se a isso as atuações brilhantes de Damon e de Adam Driver (um dos maiores atores que Hollywood já nos apresentou, estou cada vez mais certo disso), e um elenco de apoio impecável e temos o valor de uma grande obra realizada por muitas mãos, como aqui inicialmente referenciado.

Porém, retornando ao fim do parágrafo prévio, quando consideramos como o Último Duelo é um brutal comentário ao que significa ser mulher em um mundo dominado por homens, é impossível deixar de apontar que um nome se destaca. E, assim se dá, sabemos bem, em qualquer obra conjunta. Esse nome não é outro senão o de Jodie Comer. Não fosse pela extraordinária performance da atriz que dá alma e sangue à série Killing Eve, o Último Duelo talvez não transcendesse para o patamar em que promete se alçar. 

Nos primeiros dois atos do filme quem comanda a festa é claramente a direção de Ridley Scott. Talvez, nas mãos de outro diretor, esse filme não funcionasse; ou apenas seria mais longo, mais cansativo, e logicamente não tão bem-sucedido. Mas a habilidade de Scott com a câmera, associada ao talento de Claire Simpson na montagem, que faz com que um longo período de narrativa passe diante de nossos olhos de forma dinâmica e reiterada sem ser repetitiva. Esse, aliás, é um ponto importante para um filme que em certa medida conta uma mesma história de três pontos de vista distintos, um recurso que, sabemos, não é raro ao cinema, mas que aqui, por razões que é melhor não adiantar, ganham toda uma outra relevância. 

Mas é no terceiro ato do filme, quando a narrativa se desloca para a perspectiva de Lady Marguerite, a personagem de Jodie Comer, é que a obra finalmente se realiza. Percebemos como todos os dois primeiros atos do filme foram apenas uma preparação para ela, e Comer não decepciona. Com menos tempo de tela, menos falas e uma montagem que compreende o período do filme de maneira ainda mais pontual, a atriz diz mais com aquilo do que não diz do que qualquer personagem. E quando ela de fato diz, com todas as letras, o efeito é devastador e o sentido muito longe do consensual ou simplório. É mesmo verdade que uma mãe entre criar seu filho e estar certa deve mesmo escolher o primeiro? Eu não saberia dizer. Eu não sou uma mulher. Mas sem dúvida, o fato de ter que haver essa escolha, já revela muito sobre a crueldade de nosso mundo. 


Uma frase: “Uma mãe precisa criar seu filho, ela não precisa estar certa”.

Uma cena: Jean de Carrouges se vangloria para a platéia diante do olhar atônito de sua esposa.

Uma curiosidade: primeiro filme escrito pela dupla Matt Damon e Ben Affleck desde o oscarizado “Gênio Indomável”.


O Último Duelo (The Last Duel)

Direção: Ridley Scott
Roteiro: Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon
Elenco: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer e Ben Affleck
Gênero: Ação, Drama, História
Ano: 2021
Duração: 152 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

2 comentários sobre “Crítica | O Último Duelo

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