Crítica | Duna (Dune, 2021)

Crítica | Duna (Dune, 2021)

Dennis Villeneuve recebe de Frank Herbert um “presente que não é um presente” e, a um só tempo, entrega uma obra contraditória, porém majestosa.

Duna não é um dos assuntos mais simples de se avaliar. Similar a Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons, é seminal e apoteótica (cada uma em seu próprio sentido), profícua em críticas políticas e sociais e lidando com temas profundamente complexos que atormentam a humanidade; ambas também foram consideradas durante muito tempo de transposição quase que impossível para a sétima arte dado seu escopo dificilmente caber no formato que, estruturalmente, está desde sempre atrelado a limitações técnicas e, por que não dizer, até mesmo econômicas. Como se sabe, Watchmen já teve sua adaptação para as telonas. Agora é a vez de Duna tentar superar o desafio da adaptação.

Evidente que não estamos aqui ignorando o filme de David Lynch de 1984. Porém, como é sabido, o próprio diretor renega aquela produção, que sofreu de vários problemas e interferências do estúdio. Muito por isso, inúmeros fãs ao longo do mundo simplesmente ignoravam a obra de Lynch como uma adaptação válida do imenso romance escrito por Frank Herbert. Dessa forma, viria a recair sobre os ombros do diretor Dennis Villeneuve o fardo de, em tempos tão complicados, traduzir a visão da obra de Frank Herbert através da lente do cinema.

Fardo, talvez, seja o termo mais apropriado que se pode associar à obra, para ajudar a compreender tanto seu valor, quanto os problemas que, ao que nos parece, a afetam. Se por um lado temos um dos mais talentosos diretores da atualidade como indiscutível domínio técnico associado a uma significativa – e muitas vezes rara no cinema de blockbusters – sensibilidade artística que entende que adaptar uma obra exige muito mais imaginação do que tão malogradamente invocada “fidelidade ao material original”, por outro há uma incontornável limitação, ironicamente, nitidamente imposta justamente pela força da obra de Herbert. Em suma, se por um lado é justamente a visão artística de Villeneuve que concede ao filme Duna o que lhe há de mais destacado e interessante, é a força do repuxo da obra original que afeta de maneira mais marcante a obra cinematográfica. Afinal, aquela história precisa ser contada, e o peso dela afeta de maneira evidente o filme.

Não se trata apenas do problema de se dividir o filme em duas partes – há quem diga que isso não seja algo em si problema, mas no caso do filme de Villeneuve a opção do momento do corte da narrativa deixa um incômodo sentido de incompletude. A questão que mais chama atenção é que a necessidade de desenvolver a narrativa acaba, de fato, comprometendo o que há de mais interessante na obra cinematográfica que Villeneuve pretende apresentar.

Tentemos esclarecer melhor essa questão. Em Duna temos um Dennis Villeneuve como não se via há muito tempo. Há ali escolhas de fotografia e montagem com os quais o diretor lidou muito bem em outros filmes dele como O Homem Duplicado e até mesmo Incêndios (seu trabalho mais denso), com o resultado de evocar o onírico que se estende entre o sagrado e o profano. Também percebemos, da mesma maneira em que Os Suspeitos, como Villeneuve prefere utilizar os planos fechados e longos para valorizar o trabalho dos atores e deixar a tensão saltar da tela. De maneira inteligente, Villeneuve não explora à exaustão seus grandes planos abertos que o tornaram famoso nos últimos anos, o que seria uma armadilha fácil em uma obra como Duna, que clama por esse tipo de câmera. Os planos abertos estão lá, mas são cuidadosamente planejados como, aliás, o são cada fotograma da película. O diretor sabe exatamente o que está filmando e o que quer fazer, mas infelizmente as limitações já mencionadas, não o permitem entregar o que talvez pudesse vir a ser uma visão muito mais atraente e instigante.

O que ocorre é que, a partir da segunda metade do filme, a evocação ao sagrado e onírico através da montagem dá lugar a uma sequência de cenas que pretendem apenas levar a história do ponto A até o ponto B em que ela precisa estar. E é nesse momento que Duna, como se ofuscada por uma tempestade de areia de Arrakis, perde muito do seu brilho inicial. O principal indicativo disso pode ser avaliado a partir da exposição do roteiro que, embora seja necessária em uma obra como a de Frank Herbert que constrói mitologias inteiras como fundamento para sua trama, aqui também afeta significativamente aquilo que Villeneuve tem de melhor, e desde o início parecia decidido a entregar: sua capacidade de mostrar mais do que dizer. É emblemático como, por exemplo, ao fim da fita, é preciso que a personagem de Zendaya (aqui totalmente desperdiçada) precise lembrar ao público expressamente que aquele ainda não é o fim da obra. É como se em meio a uma ópera a atriz precisasse romper a quarta parede e anunciar à audiência que chegou a hora do intervalo, e que em breve voltarão para concluir o drama.

O Duna de Villeneuve, ademais, escolhe a interessante perspectiva de temas como sacrifício e o sagrado, e como o fenômeno do messianismo afeta indivíduos e relações de poder, enquanto a natureza e o universo passam incólumes ante essas miudezas da humanidade. É uma escolha inteligente e, sem dúvida, projeta o escopo narrativo de Duna na direção certa – ou pelo menos, na direção mais próxima de reproduzir no cinema a força da obra de Herbert, sem deixar de dialogar de maneira significativa com questões relevantes de nosso mundo. Porém isso significa apostar na força do personagem Paul Atreides e, ao que nos parece, o ator Timothée Chalamet tem dificuldade em tornar o seu messias autoproclamado efetivamente crível. Não é possível afirmar tratar-se de um trabalho ruim, ou mesmo medíocre, mas os pequenos problemas do roteiro apontados talvez fossem aqui melhor resolvidos com a ajuda de uma performance mais adequada àquilo que naquele contexto o personagem demanda.

O elenco, a propósito, não é apenas estrelado como pouco se costuma ver no cinema, mas também atua de forma competente. Jason Momoa, de maneira surpreendente, faz uma ótima interpretação de si mesmo, e confere a alma necessária ao filme. Dave Bautista, por outro lado, promete, mas também não entrega. O destaque da atuação fica mesmo com Rebecca Ferguson, de um lado, e Stellan Skarsgård de outro, conferindo a seus personagens a densidade e intensidade necessárias para a construção de importantes sequências do filme.

Mas, a nosso entender, é em Oscar Isaac que reside mesmo a peça mais importante do filme de Villeneuve. Dada a escolha acertada do diretor em dedicar boas horas da película a estabelecer de maneira cuidadosa o anteparo de tudo que virá a seguir, sem a performance do ator como Duque Leto Atreides, talvez o resultado do ótimo primeiro ato não tivesse a mesma força. É através de Isaac que compreendemos a importância  e a força do sacrifício para aquela narrativa, algo que Paul e Timothée Chalamet  ainda precisam ser capazes de fazer.

Evidente que é difícil assegurar o quão legítimas ou mesmo razoáveis as considerações aqui expostas o são, dado que a obra de Villeneuve foi apresentada apenas em uma primeira parte. Se por um lado não se pode dizer que Duna seja um filme incompleto, trata-se por certo de uma experiência incompleta. Não enquanto experiência cinematográfica que, por si só, é inquestionavelmente exuberante e arrebatadora, incorporando o “operístico” em sua estrutura como poucas “space operas” jamais o fizeram. Mas sem dúvida enquanto experiência narrativa que pretende, sobretudo, dialogar com a realidade que a circunda de maneira marcante e desconcertante, tal qual sempre foi a obra de Herbert.


Uma frase: “Quando um presente não é um presente?”

Uma cena: Leto Atreides aceita seu destino e comete seu sacrifício.

Uma curiosidade: Um dos roteiristas do filme é o também diretor Jon Spaihts, responsável pelos filmes mais recentes do Homem-Aranha na Sony.


Duna (Dune)

Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Jon Spaihts, Denis Villeneuve e Eric Roth
Elenco: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Dave Bautista, Stephen McKinley Henderson, Zendaya, Chang Chen, Sharon Duncan-Brewster, Charlotte Rampling, Jason Momoa e Javier Bardem
Gênero: Ação, Aventura, Drama
Ano: 2021
Duração: 156 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

Um comentário em “Crítica | Duna (Dune, 2021)

  1. Bom, Villeneuve deixa claro logo no início que é apenas a parte 1 e Zendaya só confirma no final da informação. Eu não vi problema nessa divisão, isso faz com que o filme se concentre mais na introdução e na exposição das informações. E eu gostei da performance de Timothée Chalamet. Mas acho que só vou poder realmente dizer se gostei ou não quando ver a conclusão da história após a parte 2, então por enquanto fico com os 4 bacons também.

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