Clássicos | Matrix (1999)

Clássicos | Matrix (1999)

Em 1999 uma pergunta intrigou os fãs de cinema: “o que é a matrix?”. O filme Matrix das irmãs (na época ainda irmãos) Wachowskis causou um enorme impacto na cultura pop e é impressionante notar como mais de 20 anos depois ele continua atual. Talvez porque hoje o conceito de realidade virtual seja mais acessível e a tecnologia domine as nossas vidas ainda mais.

A jornada clássica do herói de Neo em aceitar o seu papel de escolhido é explorada de maneira brilhante no roteiro de Matrix, escrito pelas Wachowskis, que utiliza diversas referências pop, indo de cyberpunk à literatura clássica de Lewis Carroll e seu “Alice no País da Maravilha”, para criar um grande pastiche cultural que resiste até os dias de hoje. A trama também apresenta elementos de filosofia misturados com informática, então para compensar a sua “complexidade” o filme abusa dos diálogos expositivos, onde Neo — representando o espectador — faz diversas perguntas que são respondidas da maneira mais didática possível, principalmente através da figura do personagem Morpheus

É importante falar também do contexto político, afinal de contas não é difícil fazer a conexão entre o fato das máquinas usarem os seres humanos como bateria, gerando energia para mantê-las funcionando, com o capitalismo que explora o esforço do trabalho das pessoas em busca do lucro. Assim existem muitos simbolismos, como por exemplo, a escolha entre a pílula azul e vermelha, quando Neo tem que decidir se quer saber ou não a verdade. Esse conceito foi inclusive deturpado nos dias atuais pela extrema direita nos EUA ao sugerir que seus eleitores tinham que tomar esse comprimido para enxergar a verdadeira realidade, algo que causou grande indignação por parte das Wachowskis nas redes sociais.

Outro elemento que ainda impressiona são os efeitos especiais, principalmente o bullet time — onde diversas câmeras são posicionadas para captar a cena dando um efeito de 360º. Esse recurso técnico foi inovador na época e imitado por diversos filmes feitos depois, mas nenhum deles conseguiu repetir o mesmo efeito visual esperado. Logo na abertura de “Matrix” vemos Trinity sendo perseguida por policiais, em seguida temos o momento icônico no qual ela dá um pulo para dar um chute no ar, então a câmera se movimenta enquanto a personagem está parada no ar, para captar a cena de outro ângulo.

A riqueza de detalhes na construção do universo do filme também fascina, seja pelo uso dos tons de verde para simular as cores de um terminal de computador, já que nos primórdios da computação os monitores praticamente utilizavam apenas essa cor, ou na criação dos figurinos, abusando do couro preto, que se tornaram icônicos. Tem coisas que hoje em dia parecem anacrônicas, como utilizar um telefone fixo para sair da Matrix, mas eram condizentes com a época em que a maioria das pessoas ainda usavam Internet discada e sofriam com o barulho do modem discando para o provedor para se conectar.

As cenas de ação também são brilhantes, especialmente graças ao trabalho do diretor de coreografia de artes marciais Yuen Woo-ping que criou momentos de luta incríveis e funcionam graças também a performance do elenco que fez as próprias cenas sem utilizar dublês — que exigiu deles um enorme esforço de treinamento.  

Não só as lutas, os tiroteios também impressionam, com um desenho sonoro que coloca o espectador dentro daquele universo, graças também a trilha sonora de Don Davis, que mistura sons eletrônicos e orgânicos para criar temas “vivos” que representam muito bem a sonoridade desse ambiente. Sem contar do uso de música pop, como a canção “Spybreak! (Short One)” da banda Propellerheads utilizada na clássica cena do tiroteio quando Neo e Trinity vão ao resgate de Morpheus.

Já a fotografia que capta muito bem a ação na tela criando um espetáculo de mise-en-scène, usando a câmera lenta para criar um estilo focado nos movimentos dos personagens que desafiam a gravidade, além de apresentar planos detalhes lindos, como a “chuva” de cartuchos de bala caindo de um helicóptero.  

O elenco também merece elogios, tanto pelo já citado esforço em realizar suas próprias cenas de luta e ação sem usar dublês, quanto pela forma em que apresentam um grande carisma e química entre si. Os diálogos entre Keanu Reeves e Laurence Fishburne são ótimos em nos apresentar o universo de Matrix e Reeves é perfeito para o papel de um homem que trabalha com informática, leva uma vida monótona e apresenta poucas emoções, mas que ao ser surpreendido para realidade fica totalmente estupefato e incrédulo. Quando aos poucos se transforma em um herói, seu vigor físico vem à tona e junto com o resto do elenco brilha com uma atuação totalmente corporal e visceral.

Em síntese, Matrix é um filme que se mantém atual em todos os quesitos e talvez até muito de seus conceitos façam mais sentido nos dias atuais. É uma obra que preserva seu impacto cultural, provando que ainda é muito relevante para a cultura pop e para a história do cinema, isto é, um clássico.


Uma frase: – “O que é a Matrix?” 

Uma cena: Quando Neo e Trinity vão resgatar Morpheus e começam um tiroteio no lobby do prédio onde ele está preso. 

Uma curiosidade: Nos primeiros quarenta e cinco minutos do filme, Neo tem oitenta falas. Quarenta e quatro dessas linhas são perguntas, pouco mais da metade de seu diálogo total, com média de cerca de uma pergunta por minuto. 


Matrix (The Matrix)

Direção: The Wachowskis
Roteiro: The Wachowskis
Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving e Joe Pantoliano
Gênero: Ação, Sci-Fi
Ano: 1999
Duração: 136 minutos 

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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