Crítica | O Esquadrão Suicida (2021)

Crítica | O Esquadrão Suicida (2021)

Após o erro de “Esquadrão Suicida” [1], dirigido por David Ayer, onde a DC/Warner resolveu seguir o estilo mais pop e divertido da Marvel sem assertividade, só restava ao estúdio uma solução: trazer um diretor que já tivesse feito um filme do MCU. Dessa forma, James Gunn chega com sua experiência em “Guardiões da Galáxia” e usa os principais elementos que deram certo no seu trabalho na concorrência para comandar “O Esquadrão Suicida”.

O cineasta apresenta muita competência e consegue salvar a franquia da DC do fracasso criativo, fazendo uma mistura de continuação com remake. No filme de 2021, novamente Amanda Waller (Viola Davis) convoca um grupo de “vilões” para uma missão suicida, em que a recompensa é ser solto da prisão ou ter redução da pena. Além de Waller, voltam a Arlequina e o líder Rick Flag, mas no resto da equipe temos somente caras novas.

O roteiro, assinado pelo diretor James Gunn, é muito inteligente na apresentação dos personagens: ao invés de mostrar o passado de todos logo de uma vez, a história de cada um é apresentada em momentos diferentes da narrativa, através de flashbacks. Esse recurso faz com que o espectador conheça um pouco sobre eles através de suas atitudes, para só depois entender melhor as suas motivações. Um bom exemplo disso é quando vemos um pouco do passado de Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior) através de imagens projetadas na janela de um ônibus, já no meio do filme. O único que foge dessa regra e tem a origem explicada no começo é Sanguinário, interpretado por Idris Elba, que assume o protagonismo de “O Esquadrão Suicida” e é convencido por Waller ao ameaçar colocar sua filha adolescente na cadeia.

Na trama, a missão da equipe envolve a invasão de Corto Maltese — um país fictício da América do Sul que sofreu um golpe militar — para destruir informações sobre o misterioso projeto Starfish, antes que elas possam ser utilizadas pelo novo governo. Gunn insere na narrativa uma crítica política interessante à política dos EUA de invadir para “pacificar” outros países, algo importante, ainda que seja tratado de maneira superficial pelo roteiro.

Na maior parte do tempo, “O Esquadrão Suicida” não se leva a sério, de modo que a direção e roteiro de James Gunn são fundamentais para manter a coesão do filme na transição entre os momentos cômicos, de ação e dramáticos. É possível notar muito disso através dos personagens, como se cada um enxergasse o mundo ao seu redor de uma perspectiva diferente do outro. O melhor exemplo disso é Arlequina, na cena em que ela mata diversos adversários, mas no lugar de sangue surgem flores dos corpos das pessoas, como se ela não tivesse a real dimensão das atrocidades de seus próprios atos.

Outro personagem que exemplifica bem isso é Tubarão-Rei (voz de Sylvester Stallone, brilhante), um tubarão em forma de homem que tem uma voz tranquila e pacífica, com um vocabulário meio infantil, que ao sentir fome resolve comer um de seus colegas de esquadrão, mas é impedido e eventualmente toma consciência que na verdade eles são seus amigos. O personagem é também um bom exemplo do uso de violência gráfica no filme, já que James Gunn assume “O Esquadrão Suicida” como um filme adulto, que abusa do uso de sangue — em alguns momentos beirando o gore — diferenciando-o dos demais longas da DC e também do MCU.

Dessa forma, mesmo com os absurdos e exageros, Gunn deixa seu filme mais “verossímil”, principalmente por também não ter medo de matar personagens. Isso faz com que o espectador realmente sinta que eles estão em perigo, torça por aqueles que querem que sobrevivam e eventualmente se surpreenda com sua morte. 

Outro acerto de “O Esquadrão Suicida” está nas cenas de ação e aventura, que são montadas e fotografadas de maneira coesa e sem muitos cortes rápidos, assim o espectador consegue entender claramente o que é apresentado na tela, como na cena em que Sanguinário disputa com Pacificador (John Cena) quem é o mais criativo e eficiente na “arte” de matar. Os efeitos visuais também são bem realizados e em poucos momentos parecem artificiais, com destaque para o visual da criatura Starro, uma estrela do mar gigante que, apesar de “fofinha”, é bastante ameaçadora.

Para completar a parte técnica, é importante ressaltar a trilha sonora. Assim como em Guardiões da Galáxia, o uso de músicas tem papel fundamental na narrativa, mas ao contrário do Esquadrão Suicida de David Ayer que utilizou — de forma equivocada — diversas músicas pop conhecidas, Gunn usa canções mais alternativas, funcionando como trilha original e eficiente da cena em que é usada, sem clichês. Para completar, o cineasta ainda emprega o som diegético, em que a música é ouvida dentro do próprio filme, em muitos momentos no som de um carro utilizando uma fita K7, para deixar ainda mais clara a intenção de evocar a nostalgia. Isso, equilibrado com a trilha composta por John Murphy, faz com que a parte musical seja um dos destaques de “O Esquadrão Suicida”.

Em síntese, James Gunn conseguiu aplicar acertadamente os mesmos recursos de “Os Guardiões da Galáxia” em “O Esquadrão Suicida”, redimindo a franquia da DC da mediocridade, mostrando que é possível captar todos os absurdos desse grupo de personagens sem perder a coesão. O resultado é um dos filmes mais divertidos e interessantes da DC, e também do gênero “filme de herói”.


Uma frase: – “Alguém verificou se o Doninha sabia nadar?”

Uma cena: A chegada do Esquadrão Suicida na praia de Corto Maltese. 

Uma curiosidade: Idris Elba foi inicialmente contratado para substituir Will Smith como Floyd Lawton / Pistoleiro, mas mais tarde foi decidido que Elba interpretaria um novo personagem (Sanguinário) para permitir que Smith retornasse no futuro. 


O Esquadrão Suicida (The Suicide Squad) 

Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: Idris Elba, Margot Robbie, Daniela Melchior, John Cena, David Dastmalchian, Joel Kinnaman, Alice Braga, Viola Davis, Michael Rooker, Pete Davidson, Jai Courtney, Nathan Fillion, Mayling Ng, Flula Borg, Sean Gunn, Steve Agee, Tinashe Kajese, Jennifer Holland, Juan Diego Botto, Joaquín Cosio, Lynne Ashe, Storm Reid, Taika Waititi, Peter Capaldi e Sylvester Stallone
Gênero: Ação, Aventura, Comédia
Ano: 2021
Duração: 132 minutos

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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