Crítica | A Assistente (The Assistant)

Crítica | A Assistente (The Assistant)

Disponível no catálogo da Amazon Prime, “A Assistente (The Assistant)” é uma obra que precisa ser assimilada com um olhar mais amplo. Por detrás de uma jornada aparentemente simples, a diretora e roteirista Kitty Green discute questões importantes e que vem sendo debatidas em movimentos como o #MeToo. Quase que de forma “documental”, é um daqueles dramas que trazem situações que não deveriam, mas ainda são bastante cotidianas.

Na trama somos apresentados a Jane (Julia Garner, Ozark), uma recém contratada assistente, e aspirante a produtora cinematográfica, de um poderoso magnata do mundo do entretenimento. O filme basicamente a segue durante todo o seu dia de trabalho, desde quando sai de casa, com tudo ainda escuro, até quando finalmente ela é liberada tarde da noite. O que parecia ser um trabalho dos sonhos logo se torna um verdadeiro pesadelo.

Sem alardes, sem cenas explosivas e com cores frias, a cineasta Kitty Green constrói uma trama que apresenta, de forma quase sufocante, o misógino e machista cenário empresarial de forma bastante verossímil A ideia de usar a figura do chefe sem nunca apresentar um ator em cena – tudo o que vemos dele são apenas ligações, gritos ou e-mails – ajuda a criar esse lugar que é tão parecido como tantos outros que existem mundo afora e, ao mesmo tempo, não direciona a história à nenhum caso mais específico como no filme “O Escândalo”. E nem precisa, porque facilmente casos como o de Harvey Weinstein (e tantos outros) são lembrados.

A melhor cena do filme.

Essa “impessoalidade” ajuda a criar um clima de bastante desconforto e são nas falsas ‘normalidades’ expostas que estão as maiores críticas em relação a forma que as mulheres são tratadas pessoal e profissionalmente diariamente. Nada disso seria tão impactante se não fosse o talento de Julia Garner, que atua de maneira brilhante. Tensão, raiva, angústia e especialmente impotência, tudo isso pode ser visto em seu rosto e nas suas expressões corporais durante todo o seu dia de trabalho.

A Assistente” é propositalmente cadenciado como um monótono dia de trabalho recheado de tarefas chatas e algumas até moralmente degradantes, um ritmo que pode não agradar os espectadores que preferem filmes mais dinâmicos. A construção para o clímax, que é justamente quando a protagonista vai procurar ajuda, acontece sem pressa durante todo o filme. São as “pequenas” violências (verbais, psicológicas) e o conjunto de assédios morais que se empilham em respostas de emails, ligações telefônicas ou até aquelas “falsas ajudas” que fazem deste um daqueles trabalhos que merecem serem assistidos.


Uma frase: “É um trabalho difícil, mas estou vendo que você tem tudo o que precisa para se dar bem nele. Você é uma garota esperta.

Uma cena: Jane sendo atendida pelo ‘RH’ da empresa após pedir ajuda.

Uma curiosidade: Os remédios que Jane guarda para o ‘chefe’ são Injeções de Alprostadil, usadas para tratamento de disfunção erétil.
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A Assistente (The Assistant)

Direção: Kitty Green
Roteiro: Kitty Green
Elenco: Julia Garner, Owen Holland, Jon Orsini, Rory Kulz, Noah Robbins, Migs Govea, Tony Torn, Alexander Chaplin e Jay O. Sander.
Gênero: Drama
Ano: 2019
Duração: 87 minutos

Marcio Melo

Marcio Melo

Vejo filmes que ninguém conhece, escrevo contos que ninguém lê e torço por um time que nunca vence.

Um comentário em “Crítica | A Assistente (The Assistant)

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