Crítica | O Que Ficou Para Trás (His House)

Crítica | O Que Ficou Para Trás (His House)

Dentro do Brasil, quando uma pessoa muda de um estado para o outro já é possível ver uma boa diferença cultural, seja na forma de falar ou mesmo em alguns pequenos costumes. Agora imagine ser obrigado a abandonar seu país de origem e buscar refúgio em outro bem diferente do seu. Esse é o drama de muitos refugiados e tema do terror O Que Ficou Para Trás, do diretor Remi Weekes.

O filme mostra o drama do casal sul-sudanês Bol e Rial que foge do seu país e consegue refúgio na Inglaterra. Eles recebem o visto como refugiados e o governo dá uma casa para que possam morar. Fugindo do horror da sua terra natal, agora eles têm um novo drama em suas vidas: se adaptar a essa nova residência.

A questão principal gira em torno dessa adaptação e do quanto eles precisam se mostrar ajustados aos costumes locais, seja na forma de se vestir ou de falar, para que provem aos funcionários do governo inglês que estão aptos a se tornarem cidadãos do país. Enquanto Rial quer manter suas origens, usando roupas típicas do Sudão do Sul e falando sua própria língua dentro de casa com seu marido, Bol faz de tudo para demonstrar a qualquer custo que está feliz morando em Londres. Ele prefere falar inglês o tempo todo e vai em um shopping comprar roupas para se parecer com a imagem de uma propaganda que mostra uma típica família do lugar.

Esse drama da vida real já é suficiente para mostrar a angústia dos personagens, que o diretor Remi Weekes desenvolve muito bem principalmente graças ao grande trabalho dos atores Wunmi Mosaku e Sope Dirisu. Essa parte psicológica é apresentada aos poucos de forma visual, onde esse conflito surge através da casa onde os protagonistas moram.

Como um bom filme de terror, esse conflito psicológico é fundamental para criar uma narrativa onde o drama atual dos refugiados é explorado através da casa mal assombrada. O diretor explora o tema de maneira inteligente e criativa, construindo de maneira brilhante o drama dos personagens. Será que o que aparece na casa é real, ou apenas algo em suas cabeças que retratam o conflito interno dentro deles em se adaptar a uma nova cultura, abandonado de vez suas próprias raízes?

O Que Ficou Para Trás explora muito bem esse conflito entre real e o que seria imaginário, com uma parte técnica de qualidade onde a fotografia explora bem o ambiente claustrofóbico e agressor da nova casa, que é detalhada com primor pelo design de produção. A mistura de efeitos práticos e visuais faz com que a experiência seja imersiva, sem parecer artificial por conta de um excesso de computação gráfica.

O filme utiliza elementos do folclore do Sudão do Sul através da figura dos apeth, seres malignos da cultura do país que decidem aterrorizar os protagonistas. Mas o que seria pior: enfrentar esses “fantasmas” que retratam a dificuldade de adaptação a uma nova cultura em detrimento do abandono das próprias raízes ou voltar para sua terra natal e enfrentar o terror da vida real?

Em síntese, O Que Ficou Para Trás mostra como o gênero terror pode ser utilizado para retratar temas políticos e atuais de maneira inteligente e criativa. O diretor Remi Weekes desenvolve um excelente filme que explora bem o drama dos personagens e seus conflitos psicológicos em torno da adaptação em um novo país, encontrando um novo terror enquanto fogem do horror do próprio passado.


Uma frase: – Bol: “Somos boas pessoas.”

Uma cena: A ida de Rial ao médico.

Uma curiosidade: A estreia do filme foi no festival de Sundance em Janeiro de 2020, depois foi lançado na Netflix em Outubro do mesmo ano.

 


O Que Ficou Para Trás (His House)

Direção: Remi Weekes
Roteiro:
Remi Weekes
Elenco: Wunmi Mosaku, Sope Dirisu e Matt Smith
Gênero: Drama, Terror, Thriller
Ano: 2020
Duração: 93 minutos

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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