Crítica | Tenet (Tenet, 2020)

Que “Princípios” orientam um diretor como Christopher Nolan?

Desde muito antes do início de sua produção o novo trabalho do diretor Christopher Nolan foi marcado por um clima de mistério, talvez um pouco fora de proporção. Um dos elementos mais sintomáticos parece estar no próprio título do filme. Nas divulgações se insistia que tudo que tudo que se sabia em relação à trama era uma misteriosa palavra que abria muitas portas, e fechava tantas outras: Tenet.

Tenet, em inglês, porém, é uma palavra que significa simplesmente “Princípio”. Nada de tão engenhoso como “Inception” que forçou, no Brasil, a adoção de um título que tentasse – e falhasse em – expressar o que o neologismo em inglês o fazia tão bem. Assim, manter o nome original no novo filme, parece ironicamente apenas um subproduto de um certo provincianismo colonial que olha para o que vem de fora com ares de um mal colocado deslumbramento. Algo, aliás, que parece estar, sintomaticamente, de alguma forma associado ao já caráter pretensioso do cinema de Christopher Nolan. No rastro dessa característica, se poderia mencionar também a campanha do diretor pela reabertura das salas de cinema para exibir sua obra, em um momento no qual uma pandemia assola o planeta, para atender aos parâmetros que, no entender do mesmo, são indispensáveis para que a audiência possa experimentar sua obra. Nolan e sua obra, afinal, se confundem, e essa confusão, no contexto atual, se apresenta como um elemento incontornável na apreciação da obra (mais do que em qualquer outro caso).

Porém, há mais do que falar sobre a Tenet do que simplesmente recorrer a um – ainda que compreensível – “ad hominem“. Tenet, como dito, congrega todas as características da cinegrafia do diretor: pretensiosidade, complexidade, preciosismo, detalhismo e grandiloquência. Tudo isso, associado a um domínio da linguagem cinematográfica capaz de traduzir, através do controle quase que absoluto da magia da luz e do som, conceitos e elementos narrativos intrincados de maneira quase sempre arrebatadora. Para Nolan, aliás, os roteiros sempre foram apenas mecanismos narrativos usados para conectar suas expressividade artística, sua visão, à sua audiência. Durante muito tempo porém ele teve o competente auxílio de seu criativo irmão – para mim, o gênio menos celebrado da família – Jonathan Nolan. Nos últimos trabalhos, porém, com Jonathan – juntamente com a esposa Lisa Joy – seguindo seus próprios caminhos, Christopher parece cada vez mais ter dificuldade em desenvolver roteiros que sigam a primeira regra que qualquer roteiro deveria seguir: contar uma história de forma coerente.

Em Tenet, essa deficiência, associada à já citada pretensiosidade, se evidenciam como nunca antes no cinema do mais celebrado dos irmãos Nolan. O que impressiona, porém, é que esse dado – que no cinema de outros autores resultaria em um total e insuportável desastre – diante da inquestionável qualidade técnica do cinema de Christopher Nolan se apresenta mais como um desagradável – ainda que significativo – “porém”. Na verdade, ao apostar no preciosismo técnico e no uso do roteiro apenas como um suporte para expressar sua maestria em cenas meticulosamente planejadas e executadas – e no caso de Tenet “re-executadas” – Nolan entrega um produto um tanto quanto diviso, que transita, intensamente, entre uma possível genialidade e um intragável fracasso.

Dito de forma muito superficial, Tenet pode ser consumido pelo grande público como uma experiência cinematográfica que reúne elementos de um James Bond genérico, filmes de assalto, com conceitos de Sci-Fi de pano de fundo aparentemente complexos. Mas isso descreve apenas metade da experiência. Uma outra metade reúne todo o virtuosismo técnico do diretor com sequências de ação que entregam subsequentes, porém desarticuladas, satisfatórias recompensas para aquilo que foi preparado de maneira um tanto quanto superficial e cansativo na primeira metade. No fim das contas, a narrativa em sentido geral é sacrificada em favor da experiência técnica cinematográfica; ou melhor, a experiência técnica, em certo sentido, se torna a própria narrativa. 

Afinal, em um sentido que reúna compreensão narrativa e experiência imagética de maneira eficaz como parâmetro, é muito difícil – senão impossível – experimentar Tenet de maneira satisfatória após uma única exibição. Há tantos elementos e peças em movimento no filme que, o já conhecido exaustivo recurso aos diálogos expositivos do diretor, dessa vez chegam mesmo a fazer falta. É assim, bastante complicado, avaliar Tenet a partir dessa perspectiva. Ao sair do cinema, haverá aqueles que detestarão a experiência, assim como haverá alguns que a adorarão. Isso não é incomum, em muitas obras.

O que talvez seja incomum – e o que pode ser aquilo que a nova obra de Nolan possa provocar em alguns como eu – é um genuíno sentimento de efetivamente não saber avaliar o filme como simplesmente bom ou simplesmente ruim. Tenet, tanto pode ser a pior incursão de Nolan no cinema, como também pode ser, em algum sentido, a mais genial de todas. Ou seja, por motivos que, ironicamente passam longe daquilo que motivaria uma experiência cinematográfica mediana, Tenet é um filme que nos convida a mais de uma apreciação. E, ironicamente, isso também nos diz muito, tanto sobre Christopher Nolan, quanto sobre o cinema dele – se é que há ainda alguma diferença entre os dois.


Uma frase: “Te vejo no princípio, meu amigo.”

Uma cena: um prédio desabando, se reconstruindo, e desabando de novo, em outro sentido do tempo.

Uma curiosidade: Várias cenas – e falas do filme – são de fato realizadas de trás para frente, sem quaisquer efeitos especiais.

 


Tenet

Direção e Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: John David WashingtonRobert PattinsonElizabeth Debicki, Himesh Patel, Aaron Taylor-Johnson, Aaron Taylor-Johnson e Kenneth Branagh
Gênero: Ação, Sci-Fi
Ano: 2020
Duração: 150 minutos

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