Review | Watchmen S01E09 – See How They Fly

Não dá para fazer omelete sem quebrar alguns ovos

Chegamos ao final da jornada de Watchmen e ao longo de 9 episódios a série da HBO criada por Damon Lindelof provou em cada um deles que fez uma excelente adaptação / continuação do universo criado por Alan Moore e Dave Gibbons. A conclusão é brilhante e prova o quanto é possível se interpretar de uma obra complexa como a hq de 1986. A leitura atual ainda faz mais sentido do que a original e isso é um grande mérito para Lindelof, já que outros “artistas” como Zack Snyder não parecem ter ido além da trama básica dos quadrinhos.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em See How They Fly, o nono e último episódio da primeira temporada de Watchmen.

S01E09 – See How They Fly

A frase do início do texto diz muito sobre esse episódio final. Essa é a teoria de Adrian Veidt e que ele aplicou em seu plano de salvar a humanidade criando uma grande catástrofe para impedir a guerra nuclear. O problema é que combater terror com terror tem se provado ao longa da história da humanidade como algo que não funciona e isso também se aplica ao universo de Watchmen. Não demorou até que outro “narcisista” que quer brincar de deus aparecer para tentar salvar a Terra novamente.

Sim, estou falando de Lady Trieu e o seu grande plano de tomar os poderes do Doutor Manhattan para poder salvar a humanidade. Descobrimos que ela é filha de Veidt e como diz o ditado: “filho de peixe, peixinho é”. Mas será que suas motivações realmente seriam nobres? Bom, um narcisista reconhece o outro, diz Veidt, então, por via das dúvidas, é melhor impedir que ela coloque seu plano em prática.

Essa relação de pai e filha de Veidt e Trieu é bem interessante, já que papai Adrian não ficou nem um pouco feliz em saber que tem uma “pimpolha”. Ele se sentiu roubado já que surgiu alguém no mundo que é tão, ou até mais, inteligente do que ele. Dessa forma o ego falou mais alto. É claro que Veidt faria de tudo para impedir que alguém acabasse com o seu “legado” de ter salvo a humanidade, então nada melhor do que fazer isso novamente. Bastava fazer uma pequena modificação no plano original.

Dessa vez as pequenas lulas foram congeladas para que causassem uma grande destruição capaz de destruir a grande máquina que Trieu construiu para roubar os poderes do Doutor Manhattan, só que o estrago seria um pouco maior. Mais uma vez Lindelof faz uma referência religiosa, e como o porcolunista Mário Bastos bem lembrou o tema é recorrente nas obras dele. Essa “chuva” é algo bem similar ao que foi feito no filme Magnólia. No longa de Paul Thomas Anderson a referência é ao versículo Êxodo 8:2 da Bíblia que diz: ‘Mas se recusares a deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos’.

Bom, Veidt salvou o mundo novamente, só que dessa vez Laurie – com a ajuda de Looking Glass – não vai deixar que ele se safe outra vez e ele dessa vez terá que pagar pelos seus crimes, já que agora ela é do FBI e tem o poder de prendê-lo. Pois é, nem sempre se pode ser Deus sem sofrer as consequências.

É muito difícil ser um homem branco nos EUA, nos dias de hoje!

Relembrando a frase do episódio An Almost Religious Awe para falar sobre os “pobres” homens brancos que tinham um grande plano para recuperar a supremacia. O pior de tudo é achar que estavam fazendo a coisa certa. Mas felizmente eles são “burros”, ou simplesmente não contavam com o poder dos negros, representados pela Sister Night, e com a pessoa mais inteligente do mundo: Lady Trieu.

Podemos dizer que em sua superfície a série Watchmen poderia ser definida como uma trama de vingança, mas talvez seja melhor afirmar que seja um tipo de “revisão histórica” em nome do povo negro. A jornada de Will Reeves, o Justiça Encapuzada (Hooded Justice), foi concluída por sua neta Angela Abar. Essa sem dúvida é a essência do programa.

Para completar ainda temos a questão da passagem de poder de uma geração para a próxima. Como garantir que em breve os brancos não consigam se reunir novamente para tentar recuperar a sua “supremacia”? Então voltamos novamente para os ovos para observar que nem todos foram quebrados. O Doutor Manhattan deixou um para que pudesse em teoria passar os seus poderes para Angela Abar. Mas será que deu certo? Resta a “prova do milagre de Jesus” de andar sobre a água, teste que Angela resolve fazer no final do episódio ao caminhar sobre a piscina fica em aberto.

Esse final em aberto é interessante e condizente com o que foi apresentado ao longo dos 9 episódios. Watchmen usou diversos recursos narrativos e referências para contar a sua história, algumas vezes de forma bem literal e explícita, mas em outras de maneira mais subjetiva. É um encerramento poderoso com o poder da sugestão e que nem sempre é necessário entregar tudo de “mão beijada” para o espectador. Ao longo de nossos reviews, que começam com Mário Bastos, tentamos fazer algumas interpretações e leituras sobre a narrativa. Agora é a sua vez de dizer para nós: Angela conseguiu ou não os poderes do Doutor Manhattan?

Mas será que a resposta é realmente necessária? Como diz a letra de “I Am The Walrus”, dos Beatles, que encerra o episódio:

I am he as you are he as you are me (Eu sou ele como você é ele como você sou eu)
And we are all together (E nós estamos todos juntos)



Série: Watchmen
Temporada:
Episódio: 09
Título: See How They Fly
Roteiro: Nick Cuse e Damon Lindelof
Direção: Frederick E.O. Toye
Elenco: Regina King, Don Johnson, Tim Blake Nelson, Yahya Abdul-Mateen II, Andrew Howard, Jacob Ming-Trent, Tom Mison, Sara Vickers, Dylan Schombing, Louis Gossett Jr., Jeremy Irons, Jean Smart, Adelaide Clemens, Hong Chau e James Wolk

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