Crítica | O Dilema das Redes

O documentário Dilema das Redes (The Social Dilemma) expõe os perigos das redes sociais e seus impactos para sociedade. Lançado pela Netflix, a produção conta com depoimento de pessoas que trabalharam nas principais companhias de tecnologia do mundo para falar sobre os males que suas criações trouxeram para a humanidade. Serve como um alerta para introduzir algumas pessoas em assuntos potencialmente graves que já vem sendo discutidos, mas sem a devida atenção, há algum tempo.

Para ajudar a ilustrar melhor algumas situações e os males que as redes sociais vem causando (individual e coletivamente), o documentário conta com cenas roteirizadas. Algumas partes acompanhamos uma família tentando lidar com o uso “exagerado” do celular e redes sociais e outra acompanhamos uma simulação de como funcionam os algoritmos. E essa segunda chega a ser cômica de tão absurdo que é tentar ilustrar o quão bizarro é o seu funcionamento.

Por mais que sirva bem ao propósito, acompanhar o algoritmo (temos o mesmo ator interpretando três facetas de si mesmo com penteados diferentes) rende algumas boas risadas. É tosco, mas não atrapalha tanto porque a mensagem é passada de forma clara e, para aqueles que ainda estão sendo introduzidos nessa discussão, é uma forma válida de passar os conceitos básicos.

Menos uma alma

O tom alarmista é proposital, serve para atrair a atenção do espectador. Imagine só que absurdo, deletar todas as suas redes sociais? Só que isso é bem explicado por um dos entrevistados mais lúcidos e interessantes que é Jaron Lanier, que lançou o livro chamado “10 Argumentos para Deletar suas contas nas Redes Sociais”. Já os entrevistados chamados de “Tech Experts”, ou seja, as pessoas que criaram coisas como o botão “curtir” do Facebook ou participaram ativamente do algoritmo de sugestão do que ver a seguir no Youtube, esses precisam ser vistos com um certo cuidado.

E como todo documentário, “O Dilema das Redes” tem a sua visão apresentar e seu lado da história. Acreditar que todos os documentários são imparciais é um erro e, mais que isso, não é porque as pessoas estão botando sua cara no filme, dando seus depoimentos, que elas estão falando apenas a verdade. É sempre bom ficar atento e investigar as coisas que recebemos como informação.

Sendo assim, o que pensar de um Programador/Analista que diz que criou ferramentas para nos monitorar, fazermos ficar mais tempo numa rede social, etc, achando que estava fazendo o bem? Sério. Ou você é uma pessoa MUITO ingênua, ou você está contando que quem vai lhe ouvir é uma pessoa incapaz de pensar um pouco mais a frente.

Tech Experts

Claro, nem sempre trabalhamos ou fazemos algo achando que estamos fazendo o mal. Não é impossível de imaginar em empresas como essas pessoas apenas seguindo ordens, criando coisas que são partes de algo maior que elas nem enxergam. Portanto, acreditar que empresas comandadas, geralmente, por homens brancos e que trabalham para figuras que jogam ações num mercado que faz lucro “do nada” estavam apenas querendo fazer o bem é não entender muito bem onde estamos atualmente, não apenas como indivíduos, mas também como sociedade.

Para todos aqueles que tiveram um mínimo de senso crítico, sem dúvidas “O Dilema das Redes” serve como uma boa introdução a temas que são importantíssimos de serem discutidos atualmente. Não é perfeito, tem seus problemas, mas é uma daquelas produções que valem sim serem assistidas. 


Uma frase: –A gente criou o botão curtir com a melhor das intenções. Era pra ser algo positivo”.

Uma cena: Qualquer uma na “sala do algoritmo”.

Uma curiosidade: Em determinada parte, o Brasil surge como exemplo. Negativo, claro.

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O Dilema das Redes (The Social Dilemma)

Direção: Jeff Orlowski
Roteiro: Davis Coombe, Vickie Curtis e Jeff Orlowski
Elenco: Tristan Harris, Aza Raskin, Justin Rosenstein, Shoshana Zuboff, Jaron Lanier, Skyler Gisondo, Kara Hayward, Vincent Kartheiser e Anna Lembke
Gênero: Documentário, Drama
Ano: 2020
Duração: 89 minutos

2 thoughts on “Crítica | O Dilema das Redes”

  1. Essa sua ponderação é essencial para analisarmos um documentário. Quase sempre há o viés ideológico de quem o produziu e cabe a nós refletirmos e discutirmos sobre o que vimos. Um documentário não é uma verdade absoluta. Quanto a este, ele aborda um tema dos mais relevantes para os dias de hoje. Particularmente, sinto falta daquela época em que no máximo tínhamos ICQ e SMS e não eramos induzidos por algoritmos.

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