Crítica | O rei de Staten Island

A filmografia de Judd Apatow gira em torno da comédia, no entanto o diretor costuma equilibrar suas histórias com doses de drama. O rei de Staten Island talvez seja seu filme mais dramático, mas a presença de Pete Davidson como protagonista faz com que a narrativa mantenha o tom cômico. O ator é conhecido por fazer parte do elenco do Saturday Night Live e no longa ele surpreende com uma atuação impressionante que equilibra bem as nuances necessárias para dar multidimensionalidade a Scott Carlin, transitando entre os gêneros de maneira fluída e natural.

Scott é um jovem de vinte e poucos anos que ainda mora com a mãe e a irmã. Ele perdeu o pai, um bombeiro que morreu trabalhando, quando era criança e ainda adulto sofre com a perda. O rapaz é meio perdido na vida sem saber bem o que quer fazer. Sua única paixão é a tatuagem e ele treina o ofício nos seus amigos, mas apesar de ter um dom ainda é necessário praticar bastante para conseguir atuar profissionalmente.

A família Carlin vive em Staten Island, que faz parte do condado de Richmond no estado americano de Nova Iorque. O local é também um personagem da história, já que os pessoas estão sempre fazendo piada da relação dele com NY. A área é tranquila, como se fosse um subúrbio, e a condição financeira também é mais humilde. Essa ambientação é um reflexo da vida do protagonista já que parece ter um potencial, só que não é explorado da melhor maneira.

O conflito da família aumenta quando a Margie Carlin (Marisa Tomei) começa a sair com Ray Bishop (Bill Burr), um homem que também é bombeiro. Se inicialmente Scott acha bom a mãe estar saindo com alguém logo a situação complica quando ele descobre que a profissão de Ray. A relação entre eles é de plena hostilidade e a forma como o filme explora esse enfrentamento é um dos pontos altos da narrativa.

Judd Apatow explora muito bem o drama de Scott, principalmente a relação dele com as outras pessoas. Tem os conflitos com a família, mas tem também os seus amigos. O grupo também é “perdido” na vida como ele e é curioso como eles apoiam o sonho do rapaz em ser tatuador cedendo seus corpos como cobaia. O destaque aqui é a relação do jovem com Kelsey (Bel Powley), uma mulher que sonha em trabalhar para a prefeitura de Staten Island para poder melhorar o local. A relação dela com Scott tem essa mesma pegada, já que a moça parece ser uma das únicas que consegue enxergar o potencial do rapaz.

O fato da história ser inspirada na própria história de Pete Davidson faz com que o ator se sinta ainda mais à vontade no papel de Scott, conseguindo dar incrível verossimilhança ao personagem. A jornada de amadurecimento é muito bem desenvolvida pelo roteiro, que foi escrito pelo próprio Davidson junto com Judd Apatow e Dave Sirus. Com mais de duas horas de duração o diretor consegue se aprofundar bem no drama do protagonista e nas relações dele com as pessoas ao seu redor.

Isso funciona muito bem também graças ao elenco. Marisa Tomei está bem, como sempre, e retrata bem o drama da mãe dividida entre o amor do próprio filho e do novo namorado. Já Bill Burr constrói o confronto de Ray com Scott de maneira interessante, sempre parecendo que existe um algo a mais por trás disso. Mas sem dúvidas o grande destaque entre os secundários fica por conta de Bel Powley que sempre rouba a cena como Kelsey. A atriz é muito talentosa e a química dela com Davidson é muito boa.

Na parte técnica Judd Apatow faz um filme correto onde pouco elementos cinematográficos se sobressaem. É possível notar esse tom sóbrio e minimalista na trilha sonora, que chama a atenção quando usa uma música do Red Hot Chilli Peppers em versão instrumental com uma pegada de jazz para ilustrar o tom da narrativa.

O rei de Staten Island está mais interessado em explorar o drama da relação do protagonista com as pessoas ao seu redor e isso Judd Apatow executa muito bem. A grande surpresa fica por conta de Pete Davidson que surpreende como o protagonista ao mostrar um lado dramático que ele parecia não ter.


Uma frase: – Scott: “Eu sei que a sua filha foi esperta e foi pra faculdade e nos abandonou. Mas eu ainda tô aqui. Vou ficar aqui pra sempre!”

Uma cena: A briga entre Scott e Ray.

Uma curiosidade: O pai de Pete Davidson era um bombeiro que morreu trabalhando. A unidade de Scott Davidson respondeu a um chamado no World Trade Center depois do ataque terrorista de 11 de Setembro de 2001. Ele resgatava pessoas no Marriott World Trade Center Hotel quando a torre desabou no prédio. Peter tinha 7 anos de idade.


O rei de Staten Island (The King of Staten Island)

Direção: Judd Apatow
Roteiro:
Judd Apatow, Pete Davidson e Dave Sirus
Elenco: Pete Davidson, Marisa Tomei, Bill Burr, Bel Powley, Maude Apatow e Steve Buscemi
Gênero: Comédia, Drama
Ano: 2020
Duração: 136 minutos

One thought on “Crítica | O rei de Staten Island”

  1. Achei esse filme muito legal e esse tom dramático que ele carrega fez dele um dos mais interessantes trabalhos de Apatow, em minha opinião.

    A atuação do MISERINHA do Saturday Night Live é realmente um dos pontos altos aqui.

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