A Nostalgia Era Melhor Antigamente: Batman – Segredos de Sangue

Seja bem vindo à coluna A Nostalgia era Melhor Antigamente, na qual eu covardemente analiso histórias que foram escritas em outro contexto e aponto incongruências inaceitáveis em gibis sobre um sujeito que se veste de morcego para investigar crimes.

No episódio de hoje, aprenderemos como não falsificar documentos, veremos como é fácil conseguir um estágio de detetive no interior dos Estados Unidos e descobriremos que “Cloris” é um nome bem mais raro do que parece.

Batman – Segredos de Sangue

Argumento: Mark Waid & Brian Augustyn
Desenhos: Val Semeiks
Arte-final: Michael Bair
Publicado no Brasil em Batman 12 (3ª série), Editora Abril

Nossa história começa com o Batman entrando na casa de uma pessoa não revelada para simplesmente contar uma história, porque imagino que era o que as pessoas faziam antes de existir Netflix.

E o catálogo pelo visto era bem limitado

O delivery de história do Homem Morcego nos leva a alguns anos no passado, antes do início de sua carreira super heroística, quando ele tinha apenas 17 anos e aporrinhava um detetive de nome Harvey Harris para que este o ensinasse a arte da investigação. Harvey no entanto recusava, porque obviamente tinha mais o que fazer do que aturar um adolescente querendo brincar de polícia e ladrão.

O jovem Bruce então decide falsificar um documento de identidade da forma mais porca e amadora possível, recortando a foto do seu documento original e colando por cima da falsa, porque, presumo, tirar uma nova 3×4 é uma atividade incomum que desperta muitas suspeitas.

Ou talvez o jovem milionário simplesmente não saiba o que é um lambe lambe

Embora não use qualquer tipo de disfarce, o jovem Bruce tem certeza que a identidade falsa será o suficiente para que ninguém descubra que ele é o herdeiro da milionária fortuna Wayne, então parte com seu caríssimo Porsche Carrera para a cidade de Huntsville encontrar o detetive.

Bruce/Frank Dixon convenientemente chega na cidade no momento em que Harvey, juntamente com três policiais e o médico legista Malcolm Falk estão examinando o recém descoberto corpo da terceira vítima de um assassino em série que vem aterrorizando a pacata cidade interiorana.

O detetive autoriza que o rapaz de 17 anos acompanhe o exame do cadáver recém descoberto, afinal que problema poderia haver em ter um adolescente sem qualquer experiência ou vínculo com a polícia no meio de uma investigação de crimes violentos?

E ainda assim consegue ser mais profissional que o médico legista reclamando por lhe “fazerem” periciar cadáveres

Para se certificar de que conseguiu traumatizá-lo adequadamente, Harvey decide pegar uma carona com “Frank” de volta à cidade, mas no trajeto ambos são surpreendidos por alguém em uma caminhonete que atira com uma escopeta para o alto e os joga para fora da estrada.

Bruce, se você não é capaz de deduzir por que ele perguntou se você é bom de voltante, a carreira de investigador talvez não seja a sua

Em seguida, ambos comparecem a uma reunião na cidade, convocada para que a polícia possa prestar informações sobre a investigação e tranquilizar os cidadãos, no que falha miseravelmente.

Dentre os presentes, destacam-se o sujeito viciado em spoilers que pergunta se o detetive trazido para pegar o assassino por acaso vai pegar o assassino;

 

O juiz entusiasta da intervenção militar;

E Ben Carr, o sujeito com olhos esbugalhados que segundo o legista Malcolm ouve vozes, o que me pareceu uma fofoca bem antiética vinda do médico da cidade.

No dia seguinte, Harvey descobre que o proprietário da caminhonete que os atacara na véspera está hospedado em um hotel de beira de estrada. Por algum motivo que não fica claro, no entanto, eles não vão procurar o sujeito em um hotel, mas sim em um bar, cujo acesso é proibido a menores de idade, mas se Harvey não vê problemas em ter um adolescente acompanhando a investigação de assassinato, não é uma ofensa ao Estatuto da Criança e do Adolescente que vai constrangê-lo.

Dentro do bar proibido para menores, o menor “Frank” — que por sinal podia ter aproveitado e mudado logo a data de nascimento quando falsificou a identidade — não hesita em agredir um sujeito bem maior que ele, que sabidamente anda armado e está cercado de amigos. Somente com a intervenção do detetive Harvey a situação é contornada antes do jovem tomar uma surra.

O que deixa Bruce/Frank empolgadíssimo, afinal todos sabemos o quanto ele é admirador de armas de fogo

Mesmo depois de tudo isso, quando o quinto cadáver é descoberto, Harvey manda chamar “Frank”, porque é o tipo do cara que joga a vida no hard e não pode abrir mão de um adolescente cabeça quente e sem qualquer experiência atrapalhando as investigações.

No local do crime, Harvey explica a Bruce/Frank que o assassino dessa vez foi desleixado, pois eles encontraram algo bem estranho na carteira da vítima: uma cruz.

“Não, não faz sentido nenhum. Por que alguém andaria por aí com um dos símbolos religiosos mais conhecidos no mundo?”

O surpreendente fato de um cidadão do interior dos Estados Unidos fazer parte dos 2,3 bilhões de cristãos que existem no mundo acaba sendo de fato uma pista importante, porque a dupla encontra outro crucifixo idêntico dentre os pertences de outra vítima.

Investigando mais um pouco, eles vão tarde da noite à biblioteca, onde descobrem que a cruz é na verdade parte de um brasão utilizado por Richard Hunt, um antigo morador da cidade. A bibliotecária sugere então que eles conversem com o juiz Lamar Nelson, que além de ser defensor da ditadura militar era também muito amigo do falecido Richard Hunt.

Em uma tremenda demonstração de falta de educação, os dois decidem ir imediatamente à casa do juiz minion, que claramente não gosta de visitas tarde da noite, porque os recebe com uma armadilha: dentro de casa estão os mesmos quatro homens com quem “Frank” e Harvey brigaram no bar.

Note que não gostar de receber visitas é a única explicação razoável, porque se for uma armadilha premeditada e relacionada à investigação, o juiz Lamar precisaria saber previamente que Harvey e Frank:

  1. Encontraram a cruz;
  2. Descobriram que a cruz tem ligação com Richard Hunt;
  3. Ficaram sabendo que Richard Hunt era amigo de Lamar;
  4. Decidiram ir imediatamente conversar com Lamar.
Ou isso ou o juiz está morando com os quatro rapazes, o que eu acho legal e até bem progressista da parte dele

Depois que o adolescente e o senhor de meia idade conseguem sem dificuldades derrotar os quatro capangas, Harvey descobre um porta retratos com Lamar, Hunt e as cinco pessoas assassinadas, assim concluindo que o juiz sabe que provavelmente é o próximo alvo e não quer que ninguém saiba.

Acompanhe comigo a lógica dele: há uma série de assassinatos ocorrendo. O sujeito sabe que será uma das vítimas, então o que ele faz? Ataca o detetive que está tentando capturar o assassino. Entendeu? Eu também não.

Lamar decide então contar toda a história. Richard Hunt, ele e os demais alvos do assassino compunham um grupo chamado “Paladinos da Cruz”: um grupo de homens brancos que vestem capuzes e agridem as pessoas negras da cidade. Em outras palavras, é a forma que a DC Comics encontrou para fazer uma história sobre a Ku Klux Klan sem mencionar a Ku Klux Klan.

O grupo se separou depois de um dia em que as agressões viraram homicídio: eles invadiram uma favela e chacinaram todos seus moradores, inclusive uma moça de nome Maybelle que havia sido empregada da família de Hunt.

“Nos convenceu”; “estávamos bêbados”; ASSUMA SUAS PORRA

Em seu relato, Lamar menciona ainda Cloris, a ex esposa de Hunt, que se separou dele pouco antes da chacina. Essa informação é suficiente para que Bruce/Frank deduza que ela secretamente voltou à cidade com um sobrenome falso, pois escutou alguém mencionando esse nome no escritório do Dr. Malcolm mais cedo e quais são as chances de haver duas mulheres chamadas “Cloris” no mundo?

Não satisfeito em deduzir o nome, deduz também o número do telefone dela

Chegando à casa de Cloris, a dupla se depara com um homem vestido como um Paladino da Cruz e esfaqueando a mulher. Na troca de tiros que se sucede, o assassino, que na verdade é o louco ouvidor de vozes Ben Carr, é morto. Mas o detetive Harvey também é alvejado, e em seu leito de morte revela saber que “Frank” na verdade se chama Bruce, o que realmente não deveria ser surpresa para alguém que tentou falsificar uma cédula de identidade com durex e liquid paper.

Com o assassino descoberto e morto, Bruce abandona a identidade de Frank Dixon e se prepara para voltar para casa, mas não sem antes deixar para trás uma prova material do crime de falsificação de documentos que cometeu.

Sem contar que ele precisa da foto para pôr de volta no documento verdadeiro

Mas ele ainda está intrigado. Não acredita que o caso foi verdadeiramente solucionado e por isso decide incomodar a senhora Cloris enquanto ela se recupera das facadas no hospital.

Ela então lhe conta que se separou de Hunt quando descobriu que ele tivera um filho fora do casamento justamente com Maybelle, a empregada que viria a matar no dia da chacina na favela.

Com isso, Bruce liga alguns pontos e acaba descobrindo toda a verdade: o legista Malcolm Falk é na realidade filho de Hunt e Maybelle, e de alguma forma ele conseguiu fazer com que Ben Carr matasse cada um dos antigos Paladinos da Cruz, assim fazendo sua vingança por proxy. Ele solucionou o primeiro crime da sua carreira, mas não tem como provar.

Tirando a confissão, claro

Passada mais de uma década, o maior detetive do mundo jamais conseguiu essas evidências. Em vez disso, o que ele faz é, ano após ano, ir até a casa do Dr. Malcolm para relembrar o dia em que ele mandou cinco assassinos racistas para o colo do capeta.

Errado não está.

#VidasNegrasImportam

 

5 thoughts on “A Nostalgia Era Melhor Antigamente: Batman – Segredos de Sangue”

  1. Não foi só a ser detetive que Bruce aprendeu com Harvey Harris, repare que as técnicas de como tratar um adolescente é a mesma que ele usa com Robin. Tudo de um fino trato que causa inveja até a Darth Vader

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