A Nostalgia Era Melhor Antigamente: A Curiosidade Negra

Seja bem vindo à coluna A Nostalgia era Melhor Antigamente, na qual eu covardemente analiso histórias que foram escritas em outro contexto e aponto incongruências inaceitáveis em gibis sobre um alienígena de um planeta distante que por acaso tem a exata aparência de um terráqueo caucasiano.

No episódio de hoje, veremos que Miriam Lane desconhece o conceito de empatia e descobriremos que o slogan “mais rápido que uma bala” é só uma jogada de marketing mesmo.

Míriam Lane, a Namorada do Super-Homem: A Curiosidade Negra!

História: Robert Kanigher
Desenhos: Werner Roth
Arte-final: Vince Coletta
Publicado no Brasil em Revista o Homem de Aço 15, Editora Ebal
Nota: este texto não teria saído sem a luxuosa e indispensável colaboração de Junio Carlota, que apontou alguns deslizes não apenas na história, como de minha parte também. Obrigado por tudo e peço perdão pelos vacilos.

Nossa história começa com a jornalista Miriam Lane decidindo fazer uma reportagem sobre a comunidade negra de Metrópolis, para ajudar a combater a segregação e o racismo em plenos Estados Unidos da década de setenta.

…ou talvez ela só queira ganhar um prêmio de jornalismo mesmo.

Intenções nobres e consciência social à parte, Miriam parte para o bairro Pequena África na cidade de Metrópolis e o Super-Homem decide acompanhá-la à distância e em segredo, porque, para ele, cobrir invasões alienígenas e cair de helicópteros são riscos normais para uma jornalista, mas ir no bairro dos negros de Metrópolis demanda uma escolta super humana.

Chegando na Pequena África, Miriam tenta se aproximar de três crianças e entrevistá-las sem a presença ou autorização dos pais, mas o trio apenas dá as costas e vai embora — no que estão certíssimas, minha mãe também me ensinava a não falar com estranhos na rua.

Porém, para sua surpresa, os adultos também não estão muito propensos a conceder entrevista para uma repórter interessada apenas na sua própria carreira, e não em dar voz à minoria oprimida.

Sem mencionar a inconveniência de sair batendo em portas aleatórias

As razões das dificuldades na interação só começam a ficar claras para Miriam quando ela presencia o discurso de um líder comunitário, que diz com todas as letras que a sociedade branca somente aceita os negros como seus subalternos.

Para ser justo com Miriam, vale destacar aqui que ela não manda um “NEM TODO BRANCO”. A jornalista apenas reflete que as duras palavras são em grande medida verdadeiras — mas para outras pessoas, afinal ela não se vê como racista.

Assim, em seguida ela decide fazer o que qualquer pessoa faz quando quer demonstrar que não é, sob qualquer forma ou circunstância, uma racista: se disfarça de negra para poder fazer a sua reportagem sem ser reconhecida.

Não, sério mesmo. Miriam. Faz. Um. Black. Face.

Não satisfeita, Miriam ainda usa o que chama de “vestimenta africana”, afinal todo o continente da África é uma maçaroca só, as roupas que usam na Argélia são as mesmas usadas na Somália e por aí vai.

E nem vou entrar na questão da apropriação cultural

Firme em sua decisão de escrever uma história ocupando o lugar de fala alheio, Miriam parte mais uma vez para Pequena África. Usando o blackface, ela consegue o contato com moradores e testemunha em primeira mão a precária estrutura do local, infestado de ratos, vazamentos, instalação elétrica deficiente etc. 

Quando uma das moradoras demonstra simpatia e lhe oferece ajuda, Miriam é apresentada a esse misterioso e desconhecido conceito chamado “empatia”, o que me parece revelar muito sobre as amizades dela.

Prosseguindo em sua incursão na Pequena África, Miriam conhece Dave Stevens, o líder comunitário que algumas horas antes discursava sobre o racismo, mas a conversa dos dois é interrompida quando ele observa adolescentes entrando em um beco de forma suspeita.

Com um pequeno toque de machismo, porque a desconstrução tem que ser um exercício diário

Entrando no beco, Dave e Miriam flagram os adolescentes entregando produto de roubo para traficantes, que então atiram na dupla. Mas não há o que temer! Cumprindo o que prometera mais cedo, o Super-Homem está de olho em Miriam e prontamente entra em ação!

 …DEPOIS que Dave é alvejado

Mais rápido que uma bala, porém depende

Eu realmente preciso enfatizar isso aqui. Estamos falando do Super Homem, sabe? O herói cujo slogan COMEÇA com “mais rápido que uma bala” não impede que atirem em Dave, só intervém depois que o coitado já levou o tiro. “Todas vidas importam”?

No hospital, a white savior Miriam se prontifica para doar sangue para salvar a vida de Dave, e a transfusão por algum motivo é feita direto do braço dela para o dele sem exames ou anticoagulantes, o que me parece bem pouco recomendável.

Já o Super Vaselina literalmente tira o braço da seringa

Enquanto Dave se recupera, Miriam confronta o Super-Homem, questionando o sujeito que acabou de deixar um negro ser baleado se ele aceitaria se casar com uma mulher negra. E aí é claro que nosso herói vai se posicionar firmemente contra o racismo, certo?

Ou talvez não

Nosso herói torna a usar seus poderes de super vaselina e enrola, sem responder nem que sim nem que não. Confesso que a princípio isso me incomodou bastante, mas aí conversei com o especialista Junio Carlota, que me fez compreender melhor as razões do homem de aço:

Mesmo um Super-Homem precisa conhecer seus limites.

#VidasNegrasImportam

4 thoughts on “A Nostalgia Era Melhor Antigamente: A Curiosidade Negra”

  1. A pessoa precisa literalmente se transformar em uma pessoa negra para aprender um pouco sobre empatia, mas no final das contas só se preocupa com o casamento com o Superman, digo, Super Vaselina. Tudo certo nessa história.

  2. Este é um daqueles posts que eu fico até sem jeito de comentar porque nada do que disser vai conseguir expressar o que senti lendo essa maravilhosidade sobre uma obra de surrealismo da arqueologia quadrinistica.

    Parabéns Lionel!

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