Review | Better Call Saul – 5ª Temporada

Uma das melhores obras do audiovisual de nossa geração se aproxima tragicamente de seu fim. E é absolutamente imperdoável não se estar disposto a presenciá-lo.

Nas linhas que se seguem, faço algumas reflexões estéticas – e existenciais – sobre “Better Call Saul“, a série derivada do sucesso de público e de crítica “Breaking Bad“. O seriado estreou em 2015 e está, atualmente, em sua quinta temporada, devendo ter seu encerramento na próxima sexta temporada. No Brasil, é exibida pela Netflix, semanalmente, sempre às terças-feiras. A quinta temporada se encerrou no dia 21 de Abril de 2020 e se encontra agora, juntamente com todas as 4 temporadas prévias, cada uma de 10 episódios, integralmente disponível pelo serviço de streaming. A série é criada e produzida por Vince Gilligan e Peter Gould – também responsáveis por Breaking Bad – e protagonizada por Bob Odenkirk (no papel título do personagem apresentado como coadjuvante em Breaking Bad), Jonathan Banks e Rhea Seehorn.

O texto abaixo não contém spoilers

Sobre tragédias (e autoajuda)

Há coisas que são tão boas que queremos que nunca terminem. Mas é justamente por sabermos que invariavelmente irão terminar um dia – como tudo mais que existe, seja no plano material ou ideal – que, para além de suas necessárias qualidades intrínsecas, as prezamos tanto. Essa irônica contradição aparente, além de ser um corolário da vida, define também a essência de uma tragédia.

Uma tragédia é uma forma específica de narrativa dividida sempre em 5 etapas: exposição, crescendo da ação, clímax, queda e catástrofe. Toda a tragédia se caracteriza pelo herói, o protagonista, ser uma criatura que, embora habilidosa, é invariavelmente vítima de suas próprias falhas de caráter que o conduzem a erros de julgamento, que culminam na catástrofe apontada. Embora não seja raro que venha a ser pontuada de elementos cômicos – tragédia e comédia são irmãs gêmeas bivitelinas, pode-se dizer – e conheçamos mesmo obras que podem ser classificadas de tragicomédia, é o peso da catástrofe motivada pelo próprio protagonista que marca esse tipo de narrativa clássica.

Há ainda, 4 tipos gerais de tragédia: a tragédia complexa, marcada por peripécias e anagnorisis (recurso narrativo de revelação sobre algo do personagem que ele próprio desconhece), é a mais comum; as demais são a tragédia de sofrimento, a tragédia de personagem e a tragédia de espetáculo, cada uma reforçando diversamente um dos 6 elementos chaves da tragédia: enredo, personagens, falas, ideias, canto e espetáculo.

Nos sentimos tão atraídos pela tragédia menos por um sadismo subjacente do que por uma profunda identificação com a natureza falha do ser humano, esta colocada sob lentes de aumento diante de nossos olhos, e apresentada com habilidosa capacidade. Quando essa habilidade é marcada pela sutileza e verossimilhança, particularmente em tempos de tamanho estardalhaço e estapafúrdia, a tragédia parece mesmo funcionar mais: ela parece ecoar com mais força e nos tocar mais profundamente de uma maneira estranha que se assenta e se prolonga. Esse prolongamento acentua em termos metanarrativos, inclusive, o caráter agridoce da certeza do fim que muito nos fascina na tragédia; uma genuína expressão de um contradictio in adjecto existencial. Dito de forma mais simples e repetitiva, sob o risco de soar como texto de autoajuda: é a certeza do fim que nos faz apreciar a coisa.

Justice Matters Most

Better Call Saul“, é hoje, sem dúvida, uma das melhores obras dramáticas do entretenimento audiovisual. Trata-se de uma tragédia de altíssima qualidade desenvolvida com preciosismo e grande habilidade, em um ritmo que ao mesmo tempo que envolve, nos desgasta, mas que, sobretudo, se impõe diante de nossas pretensões e desejos, nos entregando apenas o inevitável e constante amargor da catástrofe.

Os responsáveis por essa obra são Vince Gilligan e Peter Gould. Gilligan e Gould ganharam fama e fortuna através de outra grande obra, Breaking Bad, considerada por muitos uma das melhores séries de televisão já realizadas. Discussões à parte, é certo que o trabalho na mencionada série refinou significativamente o talento desses dois artistas, a ponto de lhes conferir, além da fama necessária na indústria, a capacidade artística de produzir algo de qualidade equivalente – ou, em certo sentido, até maior – do que Breaking Bad. O resultado é que em Better Call Saul somos brindados por subsequentes pérolas de tragédia contemporânea audiovisual – cada vez mais raras em uma indústria marcada pelo genérico e repetitivo – tornadas possíveis pela expressão artística de realizadores totalmente comprometidos com sua obra e com total controle criativo e expositivo sobre a mesma.

Merece destaque ainda o trabalho espetacular dos atores. Os protagonistas estão sempre impecáveis: Bob Odenkirk (Jimmy McGill/Saul Goodman; o nosso herói) e Jonathan Banks (Mike Ehrmantraut) já nos eram conhecidos por seus excelentes trabalhos em Breaking Bad que, aqui, em Better Call Saul, eles “apenas” fazem melhorar. Rhea Seehorn (no papel de Kim Wexler, a cara-metade de nosso herói), por outro lado, assumiu um imenso desafio ao dividir a cena com personagens tão bem estabelecidos por atores tão talentosos no auge de suas performances, como protagonista feminina e uma nova personagem em meio a estes já conhecidos e aprovados personagens. Seehorn, porém, apenas melhora e cresce em sua performance a cada episódio da tragédia ao ponto de sermos surpreendidos, a medida que as temporadas avançam, com o tamanho e significância de sua personagem, nos levando a questionar os motivos de sua total ausência em Breaking Bad (a resposta, é claro, é bastante evidente e pode ser, apenas, trágica).

Os personagens coadjuvantes, cada um deles, são escritos, dirigidos e interpretados com maestria. Se temos o prazer de ver mais uma vez o sedutor Gus Fring (papel que alçou ao sucesso o competentíssimo ator Giancarlo Esposito), ou o desprezível Dom Hector Salamanca (Mark Margolis), ambos egressos de Breaking Bad, em cena, somos ainda presenteados, nessa temporada, pela deliciosa e irresistível performance de Tony Dalton, no papel de Lalo Salamanca, alguém que parece ser capaz de reunir em um só ser as “piores qualidades” dos vilões previamente citados, com um toque surpreendente de Senhor Ávila. Dalton, aliás, merece todos os prêmios possíveis por essa temporada. Tamanho é seu charme que, assim que ele entra em cena e abre seu sorriso cínico, somos tomados por uma profunda apreensão e pelo contraditório sentimento de torcer, mais uma vez, pelo antagonista da história.

Tudo isso associado a roteiros escritos com esmero, obedecendo quase que de maneira impecável a estrutura de atos da tragédia, com diálogos primorosos que se expressam com mais força por aquilo que não é dito, ou pelo que é dito de forma expositiva apenas para ser negado pela expressão física dos personagens. Em Better Call Saul, olhares, expressão corporal e silêncios costumam dizer muito mais do que qualquer palavra e, ainda assim, os diálogos cumprem a importante função narrativa de conduzir o espectador para onde a trama precisa, às vezes como um truque de prestidigitação, às vezes com uma exposição didática clara e necessária que não incorre no pecado do didatismo expositivo que subestima toda e qualquer possibilidade de vida inteligente.

Mas talvez nada disso funcionasse tão bem não fosse o completo controle da linguagem audiovisual que os showrunners Gilligan e Gould subsequentemente demonstram possuir. Better Call Saul é, sobretudo, uma obra que chama para si o predicado de “cinematográfica”, em termos que raramente guardam justiça ao uso do adjetivo. Além dos roteiros, já previamente mencionados, merece destaque, ao lado dos esplêndidos trabalhos de fotografia e montagem, a competência de diretores experientes do ramo que, com Gould e Gilligan, têm um direcionamento para trabalhar, associado à liberdade criativa, cada vez mais raros na indústria.

Something Unforgivable

Tudo dito até agora poderia servir para descrever quaisquer uma das 5 excelentes temporadas de, “Better Call Saul“. Se considerarmos se tratar de um spin-off, prequel, de um personagem coadjuvante de Breaking Bad, a série se mostra como uma realização ainda mais impressionante.

A cada temporada, porém, a qualidade do drama trágico criado e conduzido por Gilligan e Gould apenas melhora, gradativa e lentamente, ao ponto de, uma vez que somos confrontados com a finitude próxima da série – Better Call Saul deve terminar na sexta temporada, a próxima – apenas lamentamos. Como sugerido no já longínquo primeiro parágrafo desse texto, amamos e apreciamos mais ainda as coisas boas justamente diante da consciência de sua finitude. As coisas excelentes, como Better Call Saul, apenas nos resta celebrar.

Minha forma de celebrar essa grande obra artística é escrevendo um texto assim. E a assistindo e reassistindo. Há episódios em Better Call Saul que merecem, facilmente, a classificação de preciosos. Em temporadas passadas podemos citar espetáculos visuais de fotografia melancólica como “Wiedersehen” – nono episódio da quarta temporada -, montagens inspiradas como a de “Chicanery” – quinto episódio da terceira temporada – ou epítomes de melancolia trágica como “Klick” e o doloroso “Lantern” – respectivamente os finais de temporada da segunda e terceira temporada, esse último, com a espetacular despedida do excelente Michael McKean da série (tudo que é bom, tem que acabar, não é mesmo?).

Seria de fato algo imperdoável – remetendo aqui ao último episódio da quinta temporada – deixar de apreciar uma obra como “Better Call Saul“. Fica aqui, assim, mais do que a recomendação: uma demanda mesmo; um apelo. Não tanto pela série, que já tem temporada garantida, e não precisa – felizmente, em tempos que as redes e a “fanficzação” comprometem tanto a qualidade das obras – agradar a audiência para sobreviver. Mas, mais por você, que, embora tenha se dado ao trabalho de ler esse extenso texto até aqui, ainda não se deu ao desfrute de apreciar algo primoroso como “Better Call Saul”. Sempre que você reclamar que “hoje em dia não se faz mais nada bom na TV ou no cinema”, pense duas vezes; caso você não tenha assistido ainda “Better Call Saul”, sequer seria possível afirmar tratar-se de uma afirmação trágica. A tragédia, afinal, é algo que demanda muito mais dedicação e capacidade.



Better Call Saul – 5ª Temporada

Criado por: Vince Gilligan e Peter Gould
Emissora: Sony Pictures Television (transmitida pela Netflix fora dos EUA)
Com: Bob Odenkirk, Jonathan Banks, Rhea Seehorn, Patrick Fabian, Michael Mando, Tony Dalton e Giancarlo Esposito
Ano: 2020

One thought on “Review | Better Call Saul – 5ª Temporada”

  1. Realmente é a melhor série/temporada que acompanhei este ano. Todos os episódios bem acima da média, mas aquela sequência no deserto é simplesmente genial.

    Também adorei Lalo, muito muito bom

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