Crítica | Um Lindo Dia na Vizinhança

Ao contrário do que parece, Um Lindo Dia na Vizinhança não é um filme biográfico sobre o lendário apresentador americano Fred Rogers (Tom Hanks). A produção se baseia na história real do jornalista Tom Junod – que inspirou o personagem Lloyd Vogel (Matthew Rhys), um cínico e rancoroso repórter investigativo da revista Esquire, que aceitou escrever o perfil de Rogers e, durante as entrevistas em 1998, mudou não só sua visão sobre o entrevistado como também passou por um processo de transformação pessoal.

Para os americanos, o pedagogo conhecido como Sr. Rogers era uma figura encantadora e muito popular, responsável por comandar um programa de TV infanto-juvenil que obteve sucesso a partir do final dos anos 1970 com canções educativas e por inspirar crianças e adolescentes a lidarem com seus sentimentos. Apoiado no carisma de Tom Hanks, o longa de superação explora a afável e, por vezes, intrigante personalidade de Fred Rogers, conhecido por ser extremamente difícil de entrevistar.

Sem empolgar muito, mantendo-se na zona de conforto, o roteiro se desenvolve a partir das questões emocionais do jornalista Lloyd Vogel (Matthew Rhys), que tem dificuldade de se relacionar com o pai – problema que acaba comprometendo seu trabalho e até seu relacionamento familiar com a esposa e o filho. Um Lindo Dia na Vizinhança é um filme sobre um homem comum e maduro, que depois de muitos anos amargurado e mergulhado no rancor se vê desafiado a vivenciar e aceitar seus sentimentos, dentre eles, os principais, que são a raiva e o perdão.

Explorar essa jornada de transformação do repórter a partir da convivência com Fred Rogers é um recurso narrativo interessante, mas acaba que o filme se vale basicamente dessa interação e tenta se garantir na forte e comovente atuação de Tom Hanks – que rouba o protagonismo de Matthew Rhys, por sua experiência e forte domínio de cena. Quando o personagem do apresentador de TV aparece é que o longa ganha brilho e emoção. Nos demais momentos, o filme é apenas mediano. Do elenco secundário, o destaque maior é para o pai de Lloyd Vogel, o alcoólatra Jerry Vogel (Chris Cooper).

Referência lúdica

Com relação à parte técnica, Um Lindo Dia na Vizinhança investe em ser a própria referência lúdica ao programa de TV do Sr. Rogers, do começo ao fim. Tanto é que os deslocamentos dos personagens são retratados no filme por meio de maquetes, assim como acontecia na atração televisiva do apresentador, em 1968, sempre que o próprio Sr. Rogers deixava sua casa em direção a outro destino. Além disso, a trilha sonora executa o esperado ao lembrar as músicas pedagógicas de Fred. O figurino e o design de produção também parecem não terem enfrentado muitos desafios ao reproduzir com fidelidade roupas, cenários e fantoches utilizados no programa infantil.


Uma frase: “Acho que o melhor que podemos fazer é deixar as pessoas saberem que cada uma delas é preciosa”.

Uma cena: Fred Rogers e Lloyd Vogel almoçando no restaurante chinês.

Uma curiosidade: Antes de uma exibição especial do longa em Nova York, Tom Hanks, de 63 anos, descobriu que é primo de sexto grau de Fred Rogers. O ator americano compartilha com o personagem que interpretou no filme o mesmo pentavô (ou, quinto avô) chamado Joahannes Meffort e nascido em 1732.


Um Lindo Dia na Vizinhança (A Beautiful Day in the Neighborhood)

Direção: Marielle Heller
Roteiro:
Tom Junod, Noah Harpster e Micah Fitzerman-Blue
Elenco: Tom Hanks, Matthew Rhys, Chris Cooper, Susan Kelechi Watson, Maryann Plunkett, Enrico Colantoni e Wendy Makkena
Gênero:  Biografia, Guerra
Ano: 2019
Duração: 109 minutos

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