Crítica | O Escândalo (Bombshell)

Baseado numa história real, O Escândalo coloca em foco, com muito realismo, o assédio sexual estrutural que ainda é prática recorrente em muitas empresas e corporações do mundo. A trama narra o caso de um grupo de mulheres que decidiu enfrentar o presidente da Fox News, numa resposta ao ambiente tóxico imposto por ele à rede de TV. O filme se passa no período da pré-campanha eleitoral à presidência dos Estados Unidos, em 2016.

Conhecida por seu alinhamento histórico às bandeiras políticas do partido Republicano, a Fox News é um dos maiores canais de notícias do mundo. O império midiático do arrogante e ambicioso empresário Roger Ailes (John Lithgow) foi construído ao custo de muito constrangimento, assédio e chantagem praticada com inúmeras mulheres. O CEO se aproveitava de sua posição hierárquica para cobrar “favores sexuais” em troca da concessão de benefícios à carreira das profissionais.

Megyn Kelly (Charlize Theron), Gretchen Carlson (Nicole Kidman) e Kayla Pospisil (Margot Robbie) formam o trio de personagens principais do filme. As cenas e as histórias narradas são muito impactantes. O intuito é evidenciar didaticamente e por meio de situações reais os bastidores da TV, um ambiente contaminado e permissivo, que oprime diariamente as funcionárias, desde obrigá-las a usar determinado tipo de roupa até a construção de cenários de programas de notícias que evidenciam o corpo das mulheres para atrair audiência.

O roteiro muito bem construído por Charles Randolph segue o perfil de um dos seus mais bem sucedidos: A Grande Aposta (2015). Assim como no filme que lhe rendeu um Oscar de Roteiro Adaptado, também há quebra da quarta parede e sequências de diálogos expositivos acelerados, que situam o espectador sobre a dimensão do poder do canal de notícias televisivo. Esse estilo narrativo mais dinâmico e que interage com o espectador faz, inclusive, referência ao segmento de noticiário hard news da imprensa, no qual a Fox atua.

Apesar de ficcional, a abordagem da temática principal também parece se inspirar em reportagens e documentários de denúncia. O drama é mais contido e fica mesmo por conta das experiências pessoais e dos momentos decisivos vividos pelas três personagens principais, com destaque para a tocante interpretação de Nicole Kidman e para as comoventes expressões faciais de Margot Robbie. Já Charlize Theron se prova mais uma vez uma atriz super versátil e com exímio domínio de cena.

Ainda que não seja uma produção muito criativa do ponto de vista técnico, O Escândalo tem um trunfo fundamental: o grande potencial de gerar identificação e incentivar a conscientização de vítimas. O longa faz isso ao dar visibilidade a um repertório de denúncias sobre assédio sexual, que perpassam as mais diferentes modalidades e escalas do problema, mesmo que de forma superficial. É um filme devastador para quem, em alguma medida, experimentou situações do tipo, mas também é longa urgente e necessário.


Uma frase: “Alguém tem que se manifestar. Alguém tem que se enfurecer”.

Uma cena: Quando a jornalista Kayla esteve, pela primeira vez, no escritório do presidente e CEO da FOX News, Roger Ailes.

Uma curiosidade: A personagem de Margot Robbie é a única principal do filme que não é baseada em uma pessoa real. Sua personagem foi inventada, possivelmente, a partir de uma combinação de pessoas ou experiências da vida real, reunidas em uma personagem para otimizar a narrativa.


O Escândalo (Bombshell)

Direção: Jay Roach
Roteiro:
Charles Randolph
Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Allison Janney, Kate McKinnon, Connie Britton, Liv Hewson e Mark Duplass
Gênero:  Drama, Biografia
Ano: 2019
Duração: 108 minutos

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