Crítica | A Primeira Tentação de Cristo

O especial de final de ano do grupo de humor Porta dos Fundos já é uma tradição, com irreverentes histórias que subvertem e humanizam personagens bíblicos. Em 2018, os comediantes ganharam o Prêmio Emmy Internacional de Melhor Série de Comédia pelo filme exibido na Netflix Se beber, não ceie, na qual Jesus e os apóstolos promovem uma farra regada a muito álcool e drogas naquela que seria a última ceia do messias. Já a mais recente produção, de 2019, A primeira tentação de Cristo, se passa no aniversário de 30 anos de Jesus, quando ele decide levar para casa um amigo que ele fez durante sua caminhada de 40 dias pelo deserto.

Apesar de parecer, à primeira vista, ofensiva e chocante, a história narrada nesse curta de comédia, se interpretada a fundo, é muito mais um reforço das crenças cristãs do que uma “crucificação” dos valores morais pregados por religiosos. Jesus (Gregório Duvivier) é retratado como um jovem adulto que experimenta sua iniciação sexual e, no tempo desfrutado no deserto, se descobre envolvido por Orlando (Fábio Porchat). Ao apresentá-lo para a família, no dia da sua festa de aniversário, Maria (Evelyn Castro), José (Rafael Portugal) e Deus (Antonio Tabet) desconfiam do relacionamento e tentam abrir os olhos do messias para o seu verdadeiro propósito que é salvar a Humanidade.

Sim, eu dei spoilers. Fiz isso porque certamente, muito do que o grande público tem ouvido falar sobre o especial de Natal é superficial e contém uma dose explícita de homofobia. Afinal, qual a razão desse Cristo ser mais ofensivo do que o retratado no filme de 2018 pelo mesmo grupo? Afinal, o que faz um Jesus fanfarrão e beberrão ser mais aceitável do que um messias confuso e dividido entre se entregar ao amor de outro homem ou seguir sua verdadeira missão como filho de Deus? Conflitar a humanidade das divindades não é algo novo nas artes e no entretenimento. Pelo contrário, desde os primórdios do próprio Cristianismo esse é um tema recorrente.

O incômodo existencial proporcionado pelo filme é de outra seara, na verdade. O alvo das críticas do texto e da construção dos personagens do Porta dos Fundos não é a religião, os símbolos cristãos ou qualquer coisa do tipo. O grupo foca suas piadas e ironias na relação dos indivíduos com a religiosidade, confrontando a moral – tão frágil quanto um telhado de vidro – da maioria das famílias que se reúnem em torno da mesa da ceia de Natal. Um exemplo é a Tia Lupita (Sura Berditchevsky), que personifica aquele familiar racista que todos costumam tolerar. 

Para surpresa geral dos cristãos ofendidos que conseguirem assistir com o mínimo de senso crítico a obra – mesmo que ainda assim não sejam obrigados a dar o play no aplicativo da Netflix, o filme revelerá que “a tentação de Cristo“, na verdade, era o próprio Lúcifer na pele do homossexual Orlando. Ele busca desviar o messias de seu caminho e acaba entrando em confronto direto com o filho de Deus, agora consciente de sua verdadeira missão no mundo. Jesus então decide reprimir suas emoções carnais em troca de proteger a Humanidade. Quer mensagem mais bíblica do que essa? Se é cristã, mesmo, eu já não concordo. Mas essa é uma outra discussão.


Uma frase:“Não sei se eu quero novos desafios, mãe”.

Uma cena: Quando Maria, José e Deus contam para Jesus quem é seu verdadeiro pai.

Uma curiosidade: A Justiça brasileira determinou a retirada do filme do ar, a semelhança do que aconteceu com a produção do renomado cineasta Martin Scorcese intitulada “A última tentação de Cristo” (1988), baseada no romance de Nikos Kazantzakisque, que também retrata Jesus como um homem comum, encarnado num Messias contraditório, frágil e perturbado.


A primeira tentação de Cristo

Direção: Rodrigo Van Der Put
Roteiro: Fábio Porchat e Gustavo Martins
Elenco: Gregório Duvivier, Fábio Porchat, Antonio Tabet, Evelyn Castro, Rafael Portugal, Robson Nunes, João Vicente de Castro, Estevam Nabote e Thati Lopes.
Gênero: Comédia.
Ano: 2019.
Duração: 46 min.

 

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