Review | Watchmen S01E04 – If You Don’t Like My Story, Write Your Own

Entra Lady Trieu, a nossa própria “Ozymandias” da série de TV de Watchmen.

O título do quarto episódio da primeira temporada de Watchmen parece remeter ao autor Nigeriano China Achebe, famoso pela crítica ao colonialismo e ao imperialismo europeu sobre a África. Adequado, portanto, para introduzir a já tantas vezes prenunciada – porém, ainda misteriosa – Lady Trieu: a mulher que, aparentemente, em mais de um sentido, sucedeu Adrian Veidt, o Ozymandias, na narrativa de Watchmen.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em If You Don’t Like My Story, Write Your Own, o quarto episódio da primeira temporada de Watchmen.

#Watchmen (S01E04) – If You Don’t Like My Story, Write Your Own

Lady Trieu, afinal, é o nome de uma lendária heroína vietnamita que, no século III, liderou seu povo na resistência das invasões chinesas. Na realidade de Watchmen, não nos esqueçamos, o Vietnã, após ser derrotado pelo poderio atômico do Dr. Manhattan, se tornou o 51° estado dos EUA. O comentário ao imperialismo estadunidense, assim, que aproxima o título do episódio e a personagem apresentada, se evidenciam nesse sentido. Passariam as motivações da misteriosa e trilionária Lady Trieu por um senso de justiça e reparação pelo sofrimento de seu povo na mão dos estadunidenses? Ainda não sabemos.

O que fica claro, porém, é que ela tem um plano e um importante aliado: Will Reeves, o avô de Angela “Sister Night” Abar, e, tendo a arriscar, o fundador dos Minutemen. Sim, pois a série tem lançado diversas pistas de que Reeves não é ninguém menos do que o misterioso “Hooded Justice”, o primeiro vigilante a surgir, durante a década de 40, e inspirar outros, se aposentando sem jamais revelar sua identidade. Reeves e Trieu se uniram e o plano deles aparenta ter um escopo e proporções dignas de um plano de Ozymandias, por quem, aliás, a trilionária vietnamita alimenta uma estranha devoção. Como em Watchmen, desde a obra de Alan Moore, as definições de “mocinhos” ou “bandidos” não cabem, podemos estar certos de que a dupla, embora não tenha exatamente boas intenções, também se estabelecerá como a única antagonista da trama. O que fica sugerido, porém, é que o plano deles move, e tem movido a trama, desde muito antes de seu começo.

Trata-se de um episódio, como se percebe, de organização e desenvolvimento de elementos da trama. O escopo das coisas têm sido gradualmente ampliado e o cenário da série melhor definido. Em uma série como Watchmen, que não se preocupa em entregar tudo mastigado para a audiência, são episódios importantes para se possa avançar para um desfecho satisfatório. A série terá apenas nove episódios. Se os três primeiros marcaram o primeiro ato da narrativa, apostando no ritmo intenso, no mistério, no uso inteligente e bem-humorado do mundo criado por Alan Moore e Dave Gibbons e na crítica política; os três episódios seguintes tendem a desenvolver melhor a trama e explicar algumas situações e motivações para que os três episódios finais tragam o desfecho.

Ainda assim, não faltam referências e criatividade nesse quarto episódio. Somos convidados a rever cenas prévias do ponto de vista de outros personagens, e nos damos conta de que a trama principal vem se desenrolando em um curto espaço de tempo. O episódio, ainda, referencia mais uma vez a história de origem do Super-Homem (o primeiro dos super-heróis). Lady Trieu vai até a fazenda dos Clarks (nada sutil, hein) um casal de meia-idade no meio-oeste dos EUA, vivendo em uma fazenda, porém, sem filhos. O casal tentou anos, sem sucesso. Até que um belo dia a misteriosa Lady Trieu entra em suas vidas mostrando todo seu poder: poder sobre a vida. Lady Trieu oferece aos Clarks um filho, que ela já havia criado em laboratório antes de encontrá-los, e cinco milhões de dólares, por sua fazenda que, até então, não estava a venda. A alternativa seria, segundo ela, simplesmente descartar o bebê. Os Clarks aceitam e vendem sua fazenda e, assim que o contrato é assinado, algo cai do céu rasgando a noite estrelada numa bola de fogo bem no meio do terreno que, agora, é de Lady Trieu.

Paralelamente, a narrativa de Ozymandias se torna mais reveladora, e nos damos conta de que sua trama se desenvolve ao longo de pelo menos 4 anos que, tudo indica antecederam os eventos da narrativa principal da série. Estamos sendo apresentados ao que aconteceu ao grande “antagonista” da obra original após os eventos narrados na mesma. Aparentemente o reservou para Adrian Veidt um exílio que se transformou em uma prisão na Lua. Nessa sequência também vemos, mais uma vez, o tema da criação da vida recorrente no episódio. Em uma das mais inusitadas e deliciosas cenas da série, descobrimos como Ozymandias consegue seus servos: ele os pesca, ainda fetos, de um lago, e os envelhece artificialmente em uma máquina. O poder sobre a vida e a morte, e o ato da criação, parecem,, cada vez mais, ser temas importantes na série.

Embora não tenha o impacto dos três primeiros episódios, e se apresente de maneira mais convencional, para cumprir sua função de desenvolvimento da narrativa, o quarto episódio da primeira temporada de Watchmen não deixa de ser um deleite. É raro encontrar tanto cuidado soa detalhes e habilidade em contar uma história densa e complexa, de maneira verossímil em um mundo fantástico, com personagens interessantes e de maneira inteligente. De certa maneira, Damon Lindelof tem se mostrado um mestre da narrativa e prova que desde de The Leftovers não perdeu a mão e, é bem possível, tenha até se aprimorado. É claro, dificilmente ele será uma unanimidade. Não é difícil encontrar nas redes aqueles cérebros acostumados com diálogos expositivos e uma entrega mastigada de uma trama, mas esse nunca foi o estilo de Lindelof, bem como jamais foi a essência de Watchmen. Após quatro episódios Lindelof se afirma como um dos melhores em atividade no meio, e mostra estar à altura da gigantesca obra que decidiu encarar o desafio de adaptar. Haverá, como já disse, aqueles que reclamem. Sempre haverá. Mas, como já deixou o autor sugerido nesse episódio: se você não gosta da história dele, escreva você mesmo a sua.



Série: Watchmen
Temporada:
Episódio: 04
Título: If You Don’t Like My Story, Write Your Own
Roteiro: Damon Lindelof e Christal Henry
Direção: Andrij Parekh
Elenco: Regina King, Don Johnson, Tim Blake Nelson, Yahya Abdul-Mateen II, Andrew Howard, Jacob Ming-Trent, Tom Mison, Sara Vickers, Dylan Schombing, Louis Gossett Jr., Jeremy Irons, Jean Smart, Adelaide Clemens, Hong Chau e James Wolk

4 thoughts on “Review | Watchmen S01E04 – If You Don’t Like My Story, Write Your Own”

  1. Mario, acho improvável que Will Reeves seja Hooded Justice.
    Na revista dá para ver o contorno dos olhos e ele é claramente branco. Aliás, tão branco que o principal suspeito de ser a identidade secreta dele era um alemão.

    1. Se eu tivesse ouvido essa teoria antes dessa série de TV, eu concordaria contigo. Mas a série vem investindo muito em uma série de pistas que relacionam o Hooded Justice com Will Reeves.

      1-Na cena de abertura da série vemos o pequeno Will assistindo a um filme no qual um homem encapuzado a cavalo persegue e prende um bandido branco com um laço. Logo em seguida esse encapuzado se revela Bass Reeves, o xerife negro.

      2- É recorrente a afirmação de que o série de TV dos Minutemen não guarda qualquer relação com a realidade. Associado a isso temos uma grande sequência de luta desse seriado no qual vemos o Hooded Justice descendo a muqueta em um monte de bandido (branco). O close nos olhos dele reforça bem a identidade caucasiana. Não me parece por acaso que reforcem esse aspecto do personagem Hooded Justice associado a um seriado de TV que dentro da narrativa da série é referência de revisionismo histórico.

      3- Um dos temas centrais da série de TV tem sido o apagamento da identidade negra por conta do racismo. Faria todo sentido um negro, na década de 40, que decidisse ser um vigilante, ter que esconder sua identidade de todos, inclusive de seus aliados (todos brancos). No episódio 4 Laurie dá um pequeno dossiê sobre Will para Ângela e explica que ele foi policial em Nova York entre as décadas de 40 e 50, e depois desapareceu. Tirando o tom da pele (que, como disse, a série busca justamente problematizar) os outros elementos se adequam ao que se sabe do Hooded Justice.

      4- Há um grande quê de justiça (poética mesmo) e uma forte simbologia, em colocar um negro, agindo como um vigilante, usando uma das principais ferramentas de linchamento dos negros nos EUA contra a bandidagem branca. Mais uma vez, considerando o tom da série de TV, me parece razoável.

      Enfim, posso estar errado. Mas se eu estiver certo, você leu aqui na Pocilga primeiro.

      Bijus!!!

  2. Nada contra mudar etnia de personagens, por mim tem mais é que mudar mesmo. Manda mais Rei do Crime, Dominó e Heimdall negros, acho ótimo.
    E eu sei que a série já deu lá suas pistas, mas a questão é que eu não estou certo se eles vão topar desfazer algo da revista. Na revista o principal suspeito de ser HJ é o tal alemão do circo, isso é mencionado na biografia do Coruja etc. etc., será que eles vão querer alterar isso?

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