Crítica | Parasita (Gisaengchung)

O diretor sul-coreano Bong Joon-ho apresenta em Parasita, seu mais novo filme, mais uma vez, uma fascinante fábula com forte crítica social. Apesar de se repetir no pano de fundo de suas obras, o cineasta sempre obtém uma narrativa surpreendente que transita entre gêneros como drama e comédia sem perder a coesão. A trama fala basicamente sobre a diferença entre uma família rica e uma pobre, mas por trás da “simplicidade” da temática há diversos simbolismos e uma riqueza de discursos que dizem muito sobre os dias atuais.

No longa, o espectador é conduzido pelo olhar dos Kim, uma família pobre da Coreia do Sul, que encontra na rica família Park uma chance de ganhar dinheiro. Primeiro, o filho mais novo Ki-woo consegue o emprego de tutor da jovem Da-hye, por indicação de um amigo. Essa é a porta de entrada e logo o jovem já indica sua irmã Kim Ki-jeong para ser professora de artes do pequeno Park Da-song. Em seguida, o pai Kim Ki-taek vira o motorista e a mãe, Kim Chung-sook, a nova governanta.

Bong Joon-ho explora na tela uma teoria interessante, sobre a qual, inicialmente, a família Kim é interpretada como os “parasitas” da história, já que eles encontraram nos Park uma maneira de sobreviver. Contudo, com o desenrolar da história percebemos que não é bem assim. A desigualdade social é um grande problema mundial. O que se vê na Coreia não é muito diferente da realidade brasileira. Fica claro que, na verdade, os grandes “parasitas” são os ricos, que exploram a mão de obra dos pobres para sobreviver.

O diretor constrói uma fábula incrível a partir do ponto de vista de cada família, sem lançar julgamentos sobre a narrativa ou apontar bandidos e mocinhos. Isso faz a história ainda mais verossímil, já que no mundo real as coisas são bem mais complexas. Mas, aos poucos, os Park revelam detalhes de um perfil social forjado em preconceitos. E, assim, a trama ganha cada vez mais forças.

Parasita pode ser resumido como um filme sobre luta de classes, mas o cineasta sul-coreano ainda apresenta diversas surpresas durante a construção da narrativa, no roteiro escrito por ele junto com Han Jin-won. A mistura de gêneros, como comédia e drama, somadas ao suspense e mistério transformam a jornada do filme em algo fascinante e surpreendente. E também contribuem para o realismo, afinal de contas, na vida real, os gêneros também estão sempre se misturando.

O filme também é excelente na parte técnica! A começar pelo desenho de produção ao mostrar as diferenças entre a humilde casa dos Kim e a bela residência dos Park. No lugar dos pobres, o local fica abaixo do nível da rua, demonstrando sua inferioridade, e a falta de espaço é tanta que o vaso sanitário precisa ser colocado no alto, fazendo com que a pessoa que a utilize tenha que se dobrar bastante por causa do teto. Ou o que falar deles andando por dentro da casa em busca de um sinal gratuito de wi-fi de algum vizinho? Enquanto isso, na parte rica, o que não falta é espaço, com um design arrojado e móveis estilosos. A superioridade fica bastante visível.

A montagem também consegue manter o ritmo fluindo bem a ponto das mais de 2 horas do filme passarem voando, além de apresentar planos interessantes, como ao mostrar a contradição de um grupo de pessoas num abrigo recebendo doação de roupas para em seguida vermos o enorme guarda-roupas de Choi Yeon-gyo. O abismo social é assustador!

Outro ponto de destaque são as atuações. Song Kang-ho, tradicional colaborador do diretor, como Kim Ki-taek desenvolve o pai da família Kim de maneira brilhante. O restante do elenco também está muito bem. Os atores apresentam papéis bem desenvolvidos capazes de retratar suas personalidades bem definidas, ajudando a entender o ponto de vista de cada classe social.

É difícil falar sobre Parasita sem entregar suas surpresas, então melhor ficar por aqui. O importante é dizer que o filme do diretor Bong Joon-ho é sem dúvidas um dos melhores de 2019 (provavelmente o melhor). O cineasta mostra mais uma vez seu incrível talento, apresentando mais uma fascinante crítica social, que apesar de focar na realidade do seu próprio país, mostra o quanto a desigualdade social é uma questão universal.


Uma frase: – Chung-sook: “Se eu tivesse tudo isso eu seria mais gentil.”

Uma cena: A volta para casa da família Kim durante a chuva.

Uma curiosidade: Vencedor da Palma de Ouro de 2019 no Festival de Cannes, primeiro filme coreano a ganhar o prêmio.


Parasita (Gisaengchung)

Direção: Bong Joon-ho
Roteiro:
Bong Joon-ho e Han Jin-won, história de Bong Joon-ho
Elenco: Song Kang-ho, Lee Sun-kyun, Cho Yeo-jeong, Choi Woo-shik e Park So-dam
Gênero: Comédia, Drama, Thriller
Ano: 2019
Duração: 132 minutos

One thought on “Crítica | Parasita (Gisaengchung)”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *