Crítica | O Irlandês (The Irishman)

Definir O Irlandês simplesmente como um “filme de máfia” é desmerecer essa obra-prima dirigida por Martin Scorsese. A jornada do personagem Frank Sheeran, interpretado por Robert De Niro, passa por diversos temas como honra, política, família, amizade e muito outros. O novo trabalho do cineasta americano é ambicioso e épico, e ao mesmo tempo pessoal e minimalista. Um estudo de personagens sobre a natureza humana através de um período histórico importante da história dos EUA.

Em suas 3 horas e 30 minutos, O Irlandês conta a história de Frank Sheeran, um homem que era um simples motorista de caminhão mas se envolveu com mafiosos e outras pessoas importantes, mudando de profissão e se transformando em um “pintor de casas” (piada com o fato de assassinar pessoas, sujando a parede de sangue). O roteiro de Steven Zaillian adapta a obra “I Heard You Paint Houses” (traduzido por aqui como O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia), escrito por Charles Brandt em 2004, de maneira brilhante, já que o livro abrange diversas décadas de histórias dos personagens. A narrativa alterna entre linhas temporais sem em nenhum momento parecer confusa.

Como temos uma longa jornada através dos anos, um detalhe foi fundamental para que O Irlandês funcionasse: maquiagem e efeitos visuais. O que fizeram principalmente com Robert De Niro e Joe Pesci impressiona. O rejuvenescimento e envelhecimento deles é incrível e fica até difícil saber quando eles estão em cena em suas idades reais. A troca de atores com o passar do tempo seria complicada, então esse recurso permite que tenhamos os mesmos atores nas diversas épocas.

Falando nos atores, o elenco de O Irlandês também é primoroso. A começar pelo protagonista Robert De Niro, voltando a trabalhar com Scorsese e entregando uma atuação de alto nível. A transformação de Frank Sheeran de um homem comum para um “pintor de casas” é desenvolvido pelo ator com maestria, em um personagem extremamente humano. As nuances de Frank dizem muito sobre a própria narrativa, já que vemos uma pessoa que acredita fazer as coisas certas e muitos sacrifícios, principalmente em nome do melhor para a família, e sofre as consequências de suas ações. A primeira vez que o vemos em cena é logo no início do filme, onde a câmera passeia por dentro de um asilo até encontrar a figura dele sozinha, enquanto começa a falar e refletir sobre seu próprio passado. Ele é o fio condutor da história.

Outra mudança na vida de Frank é quando ele começa a trabalhar para Jimmy Hoffa (Al Pacino), presidente do sindicato dos caminhoneiros e pessoa extremamente conhecida na época. A relação de trabalho se desenvolve para a amizade e é nela onde iremos ver o maior conflito na jornada do protagonista. Pacino usa seus maneirismos para construir um personagem carismático e poderosos, e as conversas entre os dois estão entre os principais destaques do filme. São 2 grandes atores que apesar de já terem trabalhado juntos antes, finalmente passam muito tempo em cena contracenando um com o outro.

Contudo, a principal mudança na vida do protagonista é quando ele conhece Russell Bufalino, interpretado por Joe Pesci. É a partir daí que começa o seu contato com a máfia e quando ele deixa de ser um simples caminhoneiro. E sem dúvidas o personagem de Pesci é o mais denso e complexo de O Irlandês. Temos um homem dividido entre a honra com a máfia e com suas próprias amizades, sendo que é quase impossível separá-las. Russell toma as decisões mais difíceis, lidando com poderosos e com seus “clientes” da mesma maneira.

Entretanto, a relação mais importante e a mais difícil da vida de Frank é com sua filha Peggy, interpretada quando criança por Lucy Gallina e depois por Anna Paquin quando fica mais velha. A forma como ela o enxerga é o que mais machuca o protagonista, já que a pequena não demonstra muito empatia pelo pai. Um medo justificado já que ela presenciou a figura paterna espancar um homem que a maltratou, então mesmo que ele tenha feito isso pensando em protegê-la, isso só fez com que a garota desenvolvesse um temor dele, que depois ainda evoluiu para algo pior, graças às ações que o senhor Sheeran toma durante a narrativa.

Além do elenco excelente, O Irlandês também é um primor na parte técnica, provando que Martin Scorsese é sem dúvidas um dos melhores cineastas (talvez o maior) em atividade. A forma como o diretor comanda o filme impressiona, já que em sua longa duração não existe uma cena que pareça desnecessária para a narrativa. Ele desenvolve sua história no ritmo certo, apresentando seus personagens e através dos saltos temporais vemos como Frank chegou onde está. A reconstituição de época é sensacional, principalmente no figurino e cenários, com destaques para os automóveis – local onde uma boa parte das conversas acontece. A fotografia também impressiona, com movimentos de câmera bem interessantes, principalmente quando caminham seguindo algum personagem e de repente muda sua trajetória para outro caminho indo na direção de outra pessoa. Esse recurso chama a atenção algumas vezes e tem papel-chave nos momentos finais da história.

Cinema X Netflix

O Irlandês é uma obra que foi feita para ser consumida no cinema, mas foi realizada pela Netflix, serviço de streaming que o consumidor assiste o vídeo onde quiser. O fato do filme ser lançado e produzido pela plataforma diz muito sobre a realidade em torno da sétima arte. Os grandes estúdios arriscam cada vez menos em filmes originais, preferindo não ousar e se garantir em grandes franquias. Então é difícil convencer as pessoas a saírem do conforto de suas casas, ainda mais com o avanço da tecnologia onde é possível ter telas grandes e bons sistemas de som nas residências. Dessa forma a obra cinematográfica de Martin Scorsese enfrenta esse dilema em torno de qual seria a melhor maneira de assistir. Pelo menos em algumas cidades o filme teve exibição nos cinemas e dessa forma o cinéfilo pode escolher de qual forma ele prefere “consumir”.

Então não importa onde ser assistido, O Irlandês continua sendo uma obra-prima e um ambicioso projeto de cinema, que reúne grandes atores em uma épica narrativa, mas totalmente humana. Falar sobre todas as suas camadas é difícil, contudo o mais importante é assistir o filme, que com certeza já pode ser considerado um grande clássico.


Uma frase: – Frank Sheeran: “Que tipo de homem faz uma ligação assim…”

Uma cena: O assassinato dentro de um restaurante.

Uma curiosidade: Com 3 horas e 30 minutos, esse é o filme mais longo que Martin Scorsese já dirigiu, e é o mais longo filme mainstream lançado nos últimos 20 anos.


O Irlandês (The Irishman)

Direção: Martin Scorsese
Roteiro:
Steven Zaillian
Elenco: Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci, Ray Romano, Bobby Cannavale, Anna Paquin e Stephen Graham
Gênero: Biografia, Drama, Crime
Ano: 2019
Duração: 209 minutos

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