Crítica | Quem Você Pensa que Sou

A insegurança e as dúvidas de um relacionamento fazem parte da vida de qualquer um. E quando o abandono se torna algo real, muitas vezes questionamos nosso próprio padrão, querendo estar inclusive na pele de outra pessoa. Essa premissa é o que norteia o filme francês Quem Você Pensa que Sou, trazendo um drama psicológico e nos levando à dimensão das incertezas humanas e da era dos relacionamentos virtuais.

Claire (interpretada por Juliette Binoche) é uma professora, divorciada e com dois filhos que, em meio aos seus 50 anos, vive um período de descoberta de novos sentimento e receios. Ela se relaciona com Ludo, um rapaz mais jovem e que aparentemente não está tão envolvido na relação quanto ela. Essa dúvida a leva a criar um perfil falso em uma mídia social para descobrir algo que tente justificar esse comportamento do parceiro. Assim surge Clara: uma estagiária de moda de 24 anos que revela ao mundo virtual tudo o que Claire gostaria de ser.

Então Claire adiciona o colega de Ludo, Alex (François Civil), com seu perfil de Clara. Assim ela acaba nutrindo uma relação de amor platônico e cheio de experimentações mútuas. A sensação de se estar apaixonado e das descobertas é de fato incrível e empolgante em qualquer idade. Aqui não é diferente, a única coisa que não é de fato real é a identidade dela. Mas até que ponto isso poderia ser nocivo?

O filme usa uma fotografia maravilhosa para mostrar todas as feições da personagem. É nítido ver que as roupas, cabelo e o astral de Claire mudam ao se comportar como Clara. A jovialidade e a energia de uma mulher de 24 anos se reflete em Claire nos momentos em que ela usa desse alter ego para “finalmente viver de verdade”. Claire é uma mulher que vive uma vida cheia de rancor por não ter vivido parte dela como gostaria e por isso usa Clara como sua versão mais “jovem e bonita”.

Todas essas descrições e análises de comportamento são feitas durante sua terapia com a doutora Catherine Bormans (Nicole Garcia), que a ajuda a entender suas ações e as consequências de cada uma delas. De forma geral, a interação entre as personagens norteiam a descrição dos acontecimento e ditam a atmosfera no momento, se há algo mais alegre, ou triste, ou de revolta ou de prazer. No entanto, a ética paciente-médico aqui não é respeitada e no final cria uma das reviravoltas mais interessantes do filme.

A trama é destrinchada de forma muito inteligente e em um ritmo muito bom. Existem inúmeras camadas que trazem a todo momento uma nova informação que muda todo o curso do filme. Isso traz ao espectador uma sensação de sinergia entre os personagens e de conexão, ainda que o relacionamento de Alex e Clara seja totalmente virtual. As surpresas que são reveladas pouco a pouco nos impressionam e mostram o altíssimo nível de produção e roteiro. Quem você Pensa que Sou poderia facilmente ser mais um filme de apropriação de identidades falsas para uso virtual. No entanto, se mostra muito além disso. As incertezas humanas e a dificuldade em se encarar términos de relacionamentos (seja ele qual for) é algo real e cotidiano, no entanto a forma como lidamos com isso é que define nosso caráter.

O mundo virtual não é algo confiável, e disso sabemos bem. Porém quem nunca omitiu uma informação pessoal, melhorou uma foto, ou se mostrou algo que não é online (?). Quando Claire resolve criar Clara, a intenção era encontrar uma justificativa para suas dúvidas, no entanto ela acaba dando vazão a um problema muito maior que irá afetar outras pessoas ao seu redor. Então o filme Quem Você Pensa que Sou nos mostra de forma sensível e empática o que uma mulher pode sofrer após um abandono, e o quão fina é a linha entre a curiosidade e a obsessão.


Uma frase: Catherine:“- Para você é muito importante que os outros te vejam sempre bonita e jovem não é?”
Claire: “- Sim. É um prazer que nunca abri mão!”

Uma cena: Claire dançando em uma festa.

Uma curiosidade: O filme foi selecionado para a mostra World premiere da 69ª edição do Festival de Berlim.


Quem Você Pensa que Sou (Celle que Vous Croyez)

Direção: Safy Nebbou
Roteiro:
Safy Nebbou, Julie Peyr, Camille Laurens
Elenco: Juliette Binoche, François Civil, Nicole Garcia, Marie-Ange Casta e Guillaume Gouix
Gênero: Drama
Ano: 2019
Duração: 102 minutos

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