Crítica | Divaldo, o Mensageiro da Paz

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa da área de exatas com formação acadêmica em áreas do conhecimento que normalmente são totalmente dissociadas de religião. No entanto, cresci em uma família com doutrina cristã, católica praticante e, muito além disso, estudei por 14 anos em uma escola de freiras.

Mistura interessante essa. Interessante o suficiente para assistir e escrever sobre o novo filme de Clovis MelloDivaldo, o Mensageiro da Paz – de forma a entender a obra cinematográfica com o máximo de imparcialidade possível e ao mesmo tempo analisar a delicadeza de um filme desse gênero.

Contando com um elenco de atores bem conhecidos, o filme já começa nos apresentando a vida do pequeno Divaldo (interpretado durante a infância por João Bravo), vivendo com seus pais e irmãos na cidade baiana de Feira de Santana, em meados de 1933. Nos deparamos com o desespero de um garoto que vê pessoas o rodeando, o assustando e se comunicando do mundo dos mortos. Ao mesmo tempo que podemos entender um pouco de sua relação com a irmã mais velha e a mãe, personagens fundamentais no futuro do médium.

Passagens temporais no filme são executadas de forma muito ruim, no entanto têm a intenção de mostrar o crescimento (físico e espiritual) do personagem principal. Durante a adolescência (destaque para a atuação excelente de Guilherme Lobo) Divaldo consegue entender e aprimorar seu dom com a ajuda de uma amiga que mora em Salvador e o acolhe para que possa desenvolver sua mediunidade. A partir de então, sua jornada de ajuda e acolhimento de necessitados através da doutrina espírita começa.

Já em sua fase adulta, aqui interpretado por Bruno Garcia, Divaldo se vê acompanhado mais de perto pelo espírito obsessor (Marcos Veras) e pela sua guia espiritual – na pele de Regiane Alves. Ele e sua guia se envolvem na missão de fundar uma instituição para abrigar necessitados e na produção de obras literárias. Um ponto negativo na trama, além de longos diálogos expositivos entre os dois, é a atuação de Regiane Alves que se mostra um tanto superficial. Os trejeitos da personagem é um tanto trivial, apresentando o que para mim seria uma visão muito estereotipada de um espírito (Nunca vi um, mas assim imagino que seja).

O enredo do filme é interessante, e para aqueles que o assistem admitindo que seja só uma obra fictícia, ainda assim surpreende. Existem algumas falhas, como por exemplo a ausência de situações explícitas nas quais os seguidores da doutrina espírita são questionados sobre a veracidade de suas crenças. Ou então sobre questões delicadas como envolvimento do próprio Divaldo em investigações – o que traria um componente mais complicado e alongaria a trama.

Da religião para o Cinema

Independente de doutrinas religiosas (ou a ausência delas) é crível o pensamento que o ser humano deposita suas esperanças e anseios em “algo maior”. No mundo há mais de 10 mil religiões, dessa forma, cada crença é baseada em diferentes doutrinas e quem se julga capaz de definir qual delas está certa ou errada?

As 8 maiores religiões no mundo, por número de adeptos são (em ordem do maior para menor): Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo, Religião tradicional Chinesa, Budismo, Sikhismo, Judaísmo e Espiritismo. Aproximadamente 13 milhões de pessoas no mundo são adeptas do espiritismo – dessas, 1.3% residem no Brasil, acumulando assim o país com maior número de espíritas no globo. Dessa forma, nada mais inteligente, financeiramente falando, do que associar essa parcela da população com a religião nas telas de cinema.

Divaldo Franco, atualmente com 92 anos, é um ícone no Brasil representando a religião espírita, se dedicando a ela por cerca de 72 anos. Ele possui uma produção literária de mais de 200 obras e atuou como peregrino em diversos países com suas palestras. Junto a Nilson de Souza Pereira fundou a instituição “Mansão do Caminho”, local o qual havia sido uma visão psíquica olhando pela janela de um trem durante uma viagem.

Auto-reflexão e Conclusão

Qual então o destaque para esse filme, em meio a várias outras produções cinematográficas com a temática religião? A fotografia do filme é boa, o enredo criado é leve e, para surpresa de muitos, tem partes criadas intencionalmente para ser um alívio cômico. Porém muito além disso, o filme trás uma mensagem de bondade, que tenta emocionar o espectador e incentiva uma auto-reflexão sobre seu papel no mundo.

Apesar de ser um filme com a clara definição de público-alvo, a trama se preocupa em contar história de vida de Divaldo Franco e não tanto em converter pessoas. Obviamente a religião principal com enfoque é a espírita, porém aqui ela não é apresentada como única e absoluta. São apresentadas outras religiões e crenças ao longo do filme que se comunicam e se apoiam. Em um mundo cheio de intolerância religiosa, é fundamental que cada um de nós respeite as crenças dos outros.

Divaldo, o Mensageiro da Paz apresenta uma trama cinematograficamente regular. Com um elenco comprometido em apresentar a história a que se propõe o filme. Diálogos expositivos poderiam ser mais curtos, no entanto a necessidade de se utilizar esse artifício fica justificado uma vez que o filme mistura pessoas vivas e espíritos. A fotografia, trilha sonora e alívios cômicos preenchem a tela de forma agradável. Porém o destaque está na forma como a história é contada, sem forçar ninguém à conversão para religião espírita.


Uma frase: – “Como você vê eu sou espírita, mas o meu Deus é o mesmo que o seu!”

Uma cena: Divaldo adolescente se confessando ao padre na igreja católica.

Uma curiosidade: O filme foi baseado na obra Divaldo Franco – A trajetória de um dos maiores médiuns de todos os tempos, uma biografia de Ana Landi.


Divaldo – O Mensageiro da Paz

Direção: Clovis Mello
Roteiro:
Clovis Mello
Elenco: Bruno Garcia, Regiane Alves, Ghilherme Lobo, Laila Garin e Marcos Veras
Gênero: Biografia, Drama
Ano: 2019
Duração: 119 minutos

One thought on “Crítica | Divaldo, o Mensageiro da Paz”

  1. Belíssimo texto, Tássya! Cresci numa família católica, mas, hoje em dia, sigo e estudo a doutrina espírita. Achei que, dos filmes com essa temática, “Divaldo – O Mensageiro da Paz” é o que mais é fiel à doutrina, apresentando seus princípios em diversas das cenas, mas sem querer doutrinar, e sim, esclarecer. Achei o filme muito bonito e com uma mensagem maravilhosa. Divaldo é uma inspiração, por sua devoção ao próximo e ao que faz!

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