Crítica | Era uma vez… em Hollywood

Em seu penúltimo filme, Quentin Tarantino realiza uma declaração de amor à uma imagem romântica de Hollywood e a figura que, para ele, a personifica: Sharon Tate.

Tarantino é um contador de história de habilidade indiscutível. E possa ser quem ache que talvez ele tenha se deixado seduzir demais por suas próprias habilidades. Mas se fosse de outra forma, não seria Tarantino. Mais do que conduzir a história de um ponto a outro, mais do que contar uma história de forma original, Quentin Tarantino claramente se delicia com cada detalhe da história que conta. O resultado pode ser considerado por muitos, digamos, pouco objetivo. Ainda assim, sem dúvida, um dos mais singelos que o autor já conduziu.

É sabido como o cinema de Tarantino é referencial. Nos últimos trabalhos, também, a maturidade do cineasta tem se depurado cada vez mais. A maturidade, nesse caso, o leva a se divertir como poucas vezes fez em sua filmografia. Tarantino tira sarro de si mesmo e até de seus grandes ídolos: Bruce Lee, Sérgio Leone, e a própria Hollywood são alvos de troça e pilhéria. Porém, é como se ele, e apenas ele, estivesse autorizado a executar esse tipo de movimento. Tarantino apresenta em tela aquela sua nostalgia daquilo que jamais houve, com a diferença de que ele sabe muito bem disso.

O centro das atenções de Tarantino é, sem dúvida, sua elegia a Sharon Tate. A todo momento ela é apresentada com um misto de pureza e ingenuidade que beira o idílico, mas que funciona mais como um ponto de fuga do que como um foco em si. O filme, aliás, se desenvolve a partir quase que exclusivamente dos personagens de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt e da relação de ambos. É a primeira vez que as duas estrelas contracenam e o resultado é simplesmente fenomenal. Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt) são as proverbiais tampa e panela. Personagens e atores se complementam e dão o tom a um filme quase que exclusivamente sustentado por suas atuações.

Talvez, de fato, “Era uma vez… em Hollywood” não seja o melhor filme de Tarantino. Mas é um filme delicioso. Como se você fosse ao restaurante de um grande chef e, ao invés de ele lhe servir um prato sofisticadíssimo, ele passasse um pãozinho na chapa e lhe entregasse com um café com leite, e você se desse conta que jamais irá de novo saborear um lanchinho simples do mesmo jeito.


Uma frase: Ele disse que era o diabo e disse vinha fazer coisas do demônio.

Uma cena: Rick Dalton ameaça Rick Dalton com um tiro na cabeça se ele errar as falas de novo.

Uma curiosidade: O Cadillac usado no filme pertence a Michael Madsen, antigo colaborador de Tarantino que, para variar, faz uma pontinha na película.


Era uma vez… em Hollywood (Once upon a time… in Hollywood)

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro:
Quentin Tarantino
Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Austin Butler, Dakota Fanning, Bruce Dern e Al Pacino
Gênero: Comédia, Drama
Ano: 2019
Duração: 161 minutos

6 thoughts on “Crítica | Era uma vez… em Hollywood”

  1. Assisti ontem a este filme, Mário. Confesso que me incomodei com vários aspectos da obra. Entretanto, é inegável que o filme tem aspectos técnicos muito bons e um elenco competente. Após assisti-lo, não acho que seja fundamental para a plateia ter o entendimento sobre quem foi Sharon Tate e o trágico destino que ela teve – até mesmo porque a intenção de Tarantino foi não se debruçar sobre isso.

    1. Até imagino o que deve ter te incomodado. Gravamos um episódio de nosso podcast sobre o filme e Márcio Melo falou do que incomodou ele. Pode ser a mesma coisa. Ouve lá, e comenta.

      Também acho erre é possível curtir bem o filme em conhecer a história real. Só é uma experiência bem diferente, mesmo.

  2. Tô com o Ramon, tem pé demais e muita gente dirigindo, uma gordura q poderia ter sido cortada, mas que não chega a comprometer a obra e a originalidade com a qual o cineasta aborda a história da Sharon Tate. Confesso que fui para o cinema sem informações sobre essa história real e senti sim uma dificuldade de acompanhar a narrativa e entender a forma como a personagem de Margot Robie foi desenvolvida no filme. No geral, Taratino é quase um selo de qualidade. Mesmo que não seja assim tão bom, tende a ser acima da média.

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