Crítica | Rocketman (2019)

Não haveria outra forma de contar a história de Elton Hercules John, que não através de um musical.

Musicais são um dos gêneros mais clássicos e festejados do cinema. Ainda assim, não são exatamente uma unanimidade. Este que vos escreve, particularmente, é bastante crítico com relação ao gênero.

Para ser bem franco tenho bastante dificuldade em embarcar em uma obra na qual, subitamente, protagonistas começam a “cantar” seus diálogos. A suspensão da descrença, para mim, em tais situações, costuma ficar bastante comprometida, o que se torna um fator de incômodo. Porém, recentemente, tenho percebido que o problema não está tanto no gênero em si, mas mais como os números musicais costumam ser incorporados à narrativa. Deve haver, imagino, uma forma mais orgânica de integrar a cantoria e a dança típica dos musicais ao desenvolvimento da película que preserve a suspensão da descrença e garanta um entretenimento de qualidade. São filmes como Rocketman (2019) de Dexter Fletcher, que me ajudaram a ver a questão dessa perspectiva.

A verdade é que não haveria forma mais apropriada de contar a história da vida e carreira de Elton Hercules John do que recorrendo a um musical. Não apenas por sua peculiar posição de ser um gênio da música pop que incorpora em cada pequeno gesto e composição desse mundo ao seu personagem (que também se confunde, proposital e voluntariamente, com sua persona, como sugere a trama). Mas também pelo fato da vida de Reginald Dwight (aquele que viria a morrer para Elton nascer) ter fornecido, naturalmente, toda a matéria-prima necessária para acentuar o lirismo e a melancolia que perfazem a película e dão as bases sólidas de um excelente musical.

Mas se Rocketman funciona muito bem como musical, o mesmo não se pode dizer da fita enquanto narrativa cinematográfica. Embora o diretor Dexter Fletcher já tenha assinado o ótimo Voando Alto (Eddie the Eagle, 2015), no qual também trabalhou com o ator Taron Egerton, em Rocketman ele não alcança a mesma qualidade em termos de desenvolvimento e ritmo do filme. Rocketman, infelizmente, fica comprometido da sua segunda metade para o final pois, evidentemente, o diretor não sabe como encerrar a história. O que vemos em tela é um longo prolongamento do segundo ato, até o fim da película, sem uma clara definição de conflitos, tampouco de resolução dos mesmos. Talvez seja o resultado de se querer realizar uma cinebiografia de uma personagem que ainda está vivo e ativo e não encerrou sua história. Mas o fato é que, o lirismo ao qual o diretor abertamente recorre, com muita sabedoria e habilidade, desde a primeira sequência, poderia lhe dar a liberdade de encerrar o filme como bem entendesse, atendendo aos propósitos estéticos de sua obra ao invés de buscar preservar um equilíbrio – nesse caso, frágil e dispensável – com a realidade.

Isso não é suficiente, porém, para comprometer o filme. Além das ótimas canções e números musicais já mencionados, o longa conta, particularmente, com um excelente trabalho de atuação. Richard Madden (o Robb Stark, de Game of Thrones) está surpreendentemente sedutor na pele do cínico John Reid. Jamie Bell (a vinte interpretando jovens de vinte anos) entrega muito bem, também, a performance do principal parceiro de Elton. Ambos dão a sustentação necessária para Taron Egerton brilhar no papel principal. E Egerton se destaca de maneira ainda mais impressionante. Seu Elton John consegue, com bastante competência, transitar entre momentos de profundo drama e comédia, de forma fluida e sutil, que se apresentam em tela através de cada pequena gesto, expressão facial, olhar e até mesmo em pausas de respiração e entonação de voz. Aliás, é próprio ator quem executa os números musicais, com um talento que também surpreende e que contribui para colocar a sua atuação em destaque em relação a certas biografias recentes (questionavelmente) premiadas.

Como nem tudo são flores, também no quesito atuação, o filme falha quando escolhe Bryce Dallas-Howard para interpretar a mãe de Elton John. As notórias limitações artísticas da atriz se acentuam significativamente quando ela fracassa ao tentar apresentar uma personagem dual e cheia de contradições, particularmente quando submetida a uma maquiagem que, também por conta de suas limitações artísticas, torna tudo ainda mais superficial e pouco convincente. Trata-se de um imenso erro, sobretudo, de escalação, que fica na conta da produção e direção. Basta ver, a exemplo, o curto tempo de tela de Harriet Walter em tela, interpretando a professora que avalia o jovem Elton John para a bolsa na escola Real de música, e percebemos como, de longe, o filme se favoreceria muito mais de uma atriz como ela no importante papel da mãe do protagonista.

Ainda assim, Rocketman é uma experiência que merece nossa atenção. Trata-se de um retrato lírico, sincero, divertido e, com uma contradição que refere à intimidade do personagem principal, singelo e extravagante a um só tempo. Se comparado a recentes – e exageradamente festejadas – cinebiografias de outros ícones da cultura pop até mais importantes, sem dúvida o filme protagonizado pelo talentoso e promissor Taron Egerton decola na frente.


Uma frase: – “Eu te amo, cara. Eu realmente te amo. Só não desse jeito.”

Uma cena: O número musical de abertura é particularmente eficiente em dar um tom lírico do filme, recorrendo de forma criativa a tons de cores de personagens diferenciados na tela. O número seguinte, que inclui até mesmo coreografias que evocam Bollywood, aprofundam ainda mais o aspecto fantasioso.

Uma curiosidade: O produtor musical John Reid interpretado por Richard Madden nesse filme, foi representado por Aidan Gillen, (colega de Madden em Game of Thrones) em Bohemian Rhapsody (2018).


Rocketman

Direção: Dexter Fletcher
Roteiro:
Lee Hall
Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden e Bryce Dallas Howard
Gênero: Biografia, Drama, Música
Ano: 2019
Duração: 121 minutos

3 thoughts on “Crítica | Rocketman (2019)”

  1. Os números musicais são realmente preciosos, desde a forma como eles são utilizados quanto as suas coreografias, são mesmo espetaculares.

    Também senti esse cansaço no final do filme, mas realmente nada que prejudique. Vale muito a pena ir no cinema assistí-lo

  2. Eu adoro musicais e fiquei bem feliz com a estratégia do roteiro de inserir as canções de forma a fazer sentido para o desenvolvimento da cinebiografia. A carreira do Elton John é admirável, seus sucessos continuam contagiando gerações. Por trás de todo grande ídolo, costuma ter sempre uma história de fracasso e/ou superação, nesse caso, muito bem dimensionada e equilibrada no filme com a própria essência artística exagerada do músico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *