Crítica | Game of Thrones – 8×03: The Long Night

O que nós dizemos no rosto do Deus da morte? Hoje não.

Uma batalha muito antecipada, tomada por muitas expectativas, fatalmente terá na frustração, em uma medida ou outra, seu resultado mais certo.

Expectativas, claro, são um fenômeno eminentemente subjetivo e que tendem a variar. Porém, se é possível se falar em uma consenso geral nesse âmbito, infelizmente é preciso reconhecer que, ao menos de uma perspectiva técnica, “The Long Night” deixou bastante a desejar.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em The Long Night, o terceiro episódio da oitava temporada de Game of Thrones.

#GoT (S08E03) – The Long Night

O terceiro episódio da última temporada de Game of Thrones, afinal, trouxe uma das mais importantes batalhas de toda a série. Isso se considerarmos apenas dentro de uma perspectiva de lógica interna da narrativa. Mas sua importância, no que diz respeito à expectativa, foi sensivelmente ampliada na medida em que passou a ser propalada como um dos maiores feitos técnicos da história da teledramaturgia. Segundo matéria veiculada na IndieWire uma das batalhas da temporada teria tomado 55 noite de filmagem, 11 semanas e 3 locações. Mais que o dobro da aclamada “Batalha dos Bastardos”, ponto alto em matéria de encenação de batalhas trazida pela série, e talvez mesmo da história da TV, até hoje. Não só isso, haveria cerca de 500 figurantes envolvidos, com alto investimento em efeitos especiais práticos e digitais. Sem dúvidas, algo sem precedentes. Quando, enfim, se anunciou que o competentíssimo e Miguel Sapochnik, o mesmo responsável pela já referencial Batalha dos Bastardos, seria o diretor, o sarrafo só fez aumentar. Juntando todos esses elementos, as expectativas gerais não tinham como ser pequenas.

Infelizmente, foi justamente naquilo em que Sapochnik se destacou em seus trabalhos prévios na série, em condução de complexas cenas de batalha, que ele mais falhou em entregar. Um condução técnica adequada de uma batalha complexa que fosse capaz de inserir o espectador em meio a uma complexa batalha, sabendo conduzir a narrativa de maneira empolgante e tensa, sem, contudo, perder a clareza na exposição e desenvolvimento das sequências de ação.

Estamos falando da famosa “mise-en-scène”, ou, mais especificamente, na capacidade de se dispor elementos cênicos de forma a conduzir o olhar do espectador em um sentido lógico que garanta uma compreensão mínima do desenrolar dos eventos. Quando se prenunciou a possibilidade da batalha se desenrolar totalmente durante à noite, em um ambiente escuro, essa preocupação por parte daqueles atentos a tais aspectos técnicos, apenas se ampliou. O resultado, infelizmente, reforçou os maiores receios dessa parte da audiência. O que vimos em cena foi um resultado caótico e confuso, sem qualquer clareza dos eventos que deveriam ter se desenrolando em um tom que viesse a equilibrar de maneira delicada, terror, desespero e um certo caráter épico (afinal, tratava-se de enfrentar a criatura mítica mais poderosa apresentada pela série, e um mal que ameaçava o mundo dos homens desde os primeiros segundo do primeiro episódio).

Não cabe aqui a justificativa de que a confusão e o caos teriam sido propositais, com o intuito de buscar reproduzir o sentimento dos personagens; o próprio Sapochnik, afinal, na direção da Batalha dos Bastardos, conseguira, com enorme sucesso, emular essas sensações a partir de uma perspectiva interna da narrativa, sem com isso descartar a importância da “mise-en-scène”. Ao contrário, naquele episódio seu domínio da narrativa foi determinante para a qualidade do episódio, mantendo inclusive um sentido de desespero e heroísmo que, seguramente, faltou em muito no terceiro episódio da oitava temporada. Outros elementos como uma fotografia e uma montagem inadequadas e pouco habilidosas contribuíram para o resultado muito abaixo da média de qualidade de cenas de combate que a série estabelecera não só para si, mas para toda a história da teledramaturgia.

Há, sem dúvida, aspectos técnicos positivos. As cenas de CGI com os dragões, embora comprometidas pelos mesmos problemas técnicos já mencionados – particularmente fotografia e montagem – ainda assim são impressionantes e de tirar o fôlego em alguns momentos. O embate entre o desmorto Viserion cavalgado pelo Rei da Noite e seu irmão Rhaegal cavalgado por Jon Snow merecem destaque, nesse sentido. Sem dúvida, fez história. Ainda no aspecto técnico, a trilha sonora do talentoso Ramin Djawadi ajuda a resolver os problemas da direção, imprimindo drama, tensão e heroísmo, explorando silêncios, de forma precisa e bela, sempre evocando temas sonoros que se relacionam com os elementos narrativos que serão destacados. Não é por acaso que o tema da sexta temporada, que tem o treinamento de Arya na Casa de Preto e Branco como um dos focos principais, volta com força no clímax do episódio.

Os pontos positivos do episódio, assim, se restringem mais ao aspecto narrativo. Ainda assim, não em sua totalidade. O recurso narrativo utilizado para afastar Jon e Daenerys da maior parte do conflito foi claramente pobre, e comprometeu bastante a lógica interna da trama que vinha se desenrolando desde o primeiro episódio da última temporada. Faltou ainda criatividade por parte dos roteiristas para entregar momentos de sacrifício com maior destaque e glória, ressaltando a importância que certos personagens tiveram ao longo da história. Um exemplo que me ocorre agora é o de Jorah Mormont: seria muito mais interessante se ele morresse enfrentando dignamente um White Walker, e não meros mortos-vivos. Aliás, os poderosos tenentes do Rei da Noite foram completamente desperdiçados, podendo ter servido a momentos muito mais intensos e heróicos para figuras chave da trama como o já mencionado Jorah, e talvez até mesmo Jon Snow. Mais uma vez, algo para se lamentar.

Porém, ao escolher Arya e Melisandre como o núcleo narrativo do episódio, e conduzir essa posição – principalmente no que diz respeito à Arya – de forma sutil e menos ostensiva, os realizadores fazem um grande acerto que ecoa de forma coerente com toda a narrativa da sensacional saga imaginada por George R.R. Martin. Em meio há tantos problemas, as sequências que envolvem Arya dão um gosto e um sentido todo especial ao episódio. Papéis sugeridos muitas temporadas antes são resgatados com sucesso preservando um sentido de entrega capaz de conferir ao episódio o peso e a força narrativa que o mesmo mereceria. Antigos e queridos personagens, de uma longínqua primeira temporada, são homenageados e lembrados com movimentos e uma frase que se insere de maneira orgânica e emocionante no texto do episódio: o que nós dizemos diante do Deus da morte? Hoje não. Hoje não. E o Rei da Noite, iludido, acreditando que seu inimigo seria Jon Snow, sequer percebeu sua morte chegar. Syrio Forel teria orgulho de sua pupila.



Série: Game of Thrones
Temporada:
Episódio: 03
Título: The Long Night
Roteiro: David Benioff e D. B. Weiss
Direção: Miguel Sapochnik
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Liam Cunningham, Carice van Houten, Nathalie Emmanuel, Alfie Allen, John Bradley, Isaac Hempstead Wright, Gwendoline Christie, Conleth Hill, Rory McCann, Jerome Flynn, Kristofer Hivju, Joe Dempsie, Jacob Anderson, Hannah Murray e Iain Glen

5 thoughts on “Crítica | Game of Thrones – 8×03: The Long Night”

  1. Mais um texto espetacular, concordo completamente contigo MB, tanto nas críticas quanto aos quesitos técnicos e também da condução da batalha quanto nos acertos. Ainda que Arya tenha sido uma DEUSA ex-machina fez sentido se você pensar em como toda a história ao longo dos anos da série foi criada.

    Uma pena que não deu pra enxergar metade do episódio

    1. Muchas gracias.

      Só queria discordar de classificar Arya como um Deus Ex. Da maneira como ela é construída, ao longo de toda a trama, fica difícil adequar a personagem a esse tipo de recurso narrativo. Quem está usando essa classificação, recomendo conferir o sentido e o conceito por trás desse recurso. Pelo contrário, até. Ali, diversas regras da narrativa foram devidamente respeitadas, e é isso que faz tudo tão interessante. Até o fato de “não vermos Arya chegar” – isso dito, inclusive, de uma perspectiva metalinguística – faz sentido em diversos níveis e se acomoda perfeitamente ao tom da série de perverter certos estereótipos (Uma novela de fantasia clássica faria um personagem como Jon Snow, ou Daenerys, ou Jorah, matar o Rei da Noite).

      Com relação ao aspecto técnico, tenho que fazer um reparo. Revi o episódio hoje e, aparentemente, a exibição da HBO no domingo comprometeu bastante a qualidade técnica.

      Revendo o episódio, agora em melhor qualidade, percebi que a fotografia é muito boa. A montagem deixa um pouco a desejar, ainda; mas se analisarmos a narrativa da perspectiva de Arya, compromete menos, já que o sentido da batalha serve mais para dar contexto à cena dela com o Rei da Noite.

      As cenas com dragões também melhoram muito. São espetaculares.

      Enfim, dá até pra aumentar um Bacon! Hahahaha!

  2. Eu gostei bastante da batalha. Achei que eles conseguiram emular bem o clima de terror. Baixei o episódio e não estava escuro, como muitos falaram, então nesse quesito, não tenho o que reclamar. O que tenho que reclamar, como tu pontuastes, foi a inutilidade dos WW. Tirando o Rei da Noite mandando uma geada/nevoeiro para cima dos dragões, ressuscitando os mortos e da Dança dos Dragões que ele fez com os dois Targaryens, o resto não fez nada.

    Mas isso não é o pior, o pior foi além de acabarem a maior batalha em um episódio, foi quem acabou com ela. Não era para ser a Arya.

    Tecnicamente, gostei muito do episódio, visto que não tive problema com a escuridão e pelo clima de terror e os vários momentos legais que ele teve.

    Catarticamente, foi muito curta e era para ser o Jon Snow. Esse artificio dos olhos não me convenceu e só rebaixou a Melisandre, que ficou de cara com o “príncipe prometido”, não percebeu e , desde então, só fez errar achando que ora era Stannis, ora era o Jon, ora Daenerys. Sem contar que magicamente, na hora, percebeu tudo? Aliás, o Gelo e Fogo que ela juntou (Dany e Jon) serviram para quê mesmo?

    PS¹: Espero que resolvam a luta com Cersei em um episódio. E tenha outra coisa, uma briga pela independência do Norte, talvez… Não tem sentido a Grande Guerra (como a própria Danny se refere no promo do próximo episódio) acabar em um episódio e a guerra com a Cersei durar mais três. Além de quê, Cersei é uma personagem chata pra caramba.

    PS²: O fim do Theon, com o Bran falando com ele, foi muito bonito. Sua jornada acabou muito, muito bem.

    1. Quando revi o episódio, achei bem melhor.

      Sobre ser Arya e não Jon: lembre que Martin se notabilizou por saber subverter muito bem estereótipos do gênero. Nesse sentido, deixar a resolução para um personagem como Arya, é adequado.

      Fico curioso de saber como será o caminho para resolução disso nos livros. Não tenho dúvida que resolução é a mesma. Mas o caminho, que faz a diferença, deve mudar. Nesse caso o papel de Melisandre deve até ficar mais bem explicado.

      Mais uma vez, obrigado pelo comentário.

      Abraços.

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