Crítica | Game of Thrones – 8×02: A Knight of the Seven Kingdoms

Diferente do esperado A Knight of the Seven Kingdoms, o segundo capítulo da última temporada de Game of Thrones, não mergulhou de imediato na longa noite. A opção, porém, em prolongar a tensão foi acertada.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em A Knight of the Seven Kingdoms, o segundo episódio da oitava temporada de Game of Thrones.

#GoT (S08E02) – A Knight of the Seven Kingdoms

Dessa vez todo o episódio se concentrou exclusivamente na ação em Winterfell. As relações e tensões estabelecidas no anterior foram devidamente aprofundadas nesse, com o tempo necessário a cada um. Um movimento importante que além de destacar o aspecto humano de cada um dos envolvidos na batalha a vir, e assim dar maior gravidade ao embate em questão, também confere uma consistência aos personagens que sempre foram o ponto forte da série literária de G. R. R. Martin.

Outro ponto importante que esse episódio soube explorar muito bem é a entrega. Entrega é como se costuma chamar uma resolução em relação a algo estabelecido previamente e que deixa a audiência em antecipação. Quanto maior o tempo de antecipação, maior a intensidade dela, se esta for bem feita. E se há algo que a simboliza nesse episódio, é a tórrida cena de amor entre Gendry e Arya. Sim, é claro que não faltarão cítricas que se limitarão a classificar esse momento como “fanficzação” – talvez não sem razão. O fato, porém, é que a relação entre os dois personagens já havia sido sugerida desde a segunda temporada. Se há “shippeiros” por aí, isso se dá, sobretudo, pelo fato dessa sugestão ter sido apresentada de forma convincente. Assim, quando vemos eles se encontrarem e trocarem sorrisos – com mais química do que Jon e Dany, diga-se de passagem – no primeiro episódio, esperamos, junto com eles, o momento da entrega da consumação de amor de ambos.

Embora, no contexto geral da série, essa entrega seja a mais simbólica, ela não chega a ser a mais importante. Como sugere o próprio título do episódio – que, sabiamente, a HBO tem mantido em segredo até depois da exibição – existe uma entrega ainda mais importante no contexto da narrativa interna do belíssimo cenário criado com maestria por Martin. Talvez, para que essa afirmação faça sentido, seja necessário que o leitor tenha algum conhecimento das noveletas e contos que antecedem a narrativa da guerra pelo trono de ferro, mostrada na série de TV. No Brasil, alguns desses contos em específico foram publicados sob o título “O Cavaleiro dos Sete Reinos”. Não por acaso, as histórias narram as aventuras de um cavaleiro deslocado, Sor Duncan, o Grande, e seu fiel escudeiro, Egg, ou melhor dizendo, Aegon Targaryen V, o último rei justo da linhagem dos Targaryen a sentar no trono de ferro, e em honra a quem Jon Snow foi batizado.

Eis que, enfim, temos o momento mais poético e singelo desse episódio. E talvez um dos mais icônicos da série! A maior parte dos fãs aparentemente tende apenas a compreender Game of Thrones através da chave do impacto e da crueldade. Mas a série nunca foi sobre isso. Esse é mais um resultado que, embora planejado, não define bem o escopo da obra. A série é uma história sobre política e poder. Mas não qualquer política, nem qualquer poder. É sobre política e poder, onde a honra luta desesperadamente para sobreviver como um valor a ser cultuado, e na qual é constantemente posta à prova. Assim como Cervantes (guardadas as devidas proporções, peço desculpas pela pretensiosa comparação) em um só movimento pois a nu as novelas de cavalaria e as imortalizou com seu Dom Quixote. Martin buscou fazer o mesmo ao recriar a Europa medieval que habita nosso imaginário através de sua Westeros. Assim, embora haja pouco do código de cavalaria que a ficcionalização – malditos fanfics, destruindo a realidade desde o século XIX! – nos apresentou, é certo também de que o modo de sociabilidade da forma histórica feudal que antecedeu à modernidade era orientada por valores como honra e lealdade, de maneira muito mais determinante do que costumamos lembrar no mundo contemporâneo.

E tal como Dunk, Sor Duncan, o Grande, o cavaleiro sem sangue nobre, no qual nas veias parecia correr apenas honra, assim é Lady Brienne de Tarth. Ou, como o episódio à consagra, Sor Brienne de Tarth, Cavaleiro dos Sete Reinos. Nada mais belo e propício, ainda, que tenha sido Jamie a pessoa a ordenar. Ali vimos o equivalente a um pedido de casamento e a celebração do mesmo, em uma única cena. Uma entrega que fanfic nenhum seria capaz de imaginar. Reduzir a relação entre eles aos estereótipos vazios e desgastados do amor romântico na modernidade seria um desserviço a personagens que são tão puramente lindos, o quanto são complexos. Não o farei. Um casamento empalideceria ante aquela cena – talvez apenas um certo casamento na casa dos Frey ficasse à altura. Tudo que precisava ser dito foi dito no simbolismo, nas palavras, mas muito mais nas expressões e nos olhares. E quando nos lembramos – e o episódio nos lembrou de maneira bastante elegante e funcional sobre isso, em sua cena inicial, quando nos fazia acreditar que o centro seria Jamie, quando na realidade seria Brienne – de todo o arco de ambos os personagens, a entrega fica ainda mais climática.

Jamie tem uma função narrativa importantíssima na estrutura metanarrativa que a série têm buscado construir desde o primeiro episódio, reforçando sempre o retorno ao começo. Seu encontro com Bran, o Corvo de Três Olhos, merece uma atenção especial. Não se trata, como alguns podem imaginar, de um distanciamento de Bran, enquanto uma figura praticamente onisciente como o Corvo de Três Olhos, de sua identidade como o jovem que foi cruelmente defenestrado do alto da torre para a morte por um jovem e detestável Jamie Lannister. Não se trata de ignorar os erros de Jamie, pelo fato dele, a vítima, ter se tornado outro. Trata-se de reconhecer que, nenhum dos dois estaria ali, naquele momento, se Jamie não tivesse tentado matar Bran. Destino ou não, ambos se tornaram aquilo que se tornaram graças àquele momento no final do primeiro episódio da primeira temporada. Bran reconhece isso. Não há um sentido de perdão por trás disso. Ao contrário, há o amargo reconhecimento do peso da responsabilidade que, graças ao ato de Jamie, ambos tiveram e terão que assumir na guerra por vir. Haverá um depois? O Corvo de Três Olhos talvez saiba, mas prefere deixar a incerteza corroer Jamie. Não. Não há um perdão ali. Há apenas o reconhecimento de que a mudança é inevitável e tudo que nos resta é dar algum significado a ela para que possamos encontrar algum sentido para seguir lutando.

Para encerrar, um texto que já se alongou por tempo demais, gostaria de mais uma vez destacar a atuação de Sophie Turner. Sua Sansa tornou-se consideravelmente mais interessante do que a Daenerys de Emilia Clarke, esta última, aparentemente, tendo chegado a um certo limite de suas habilidades dramáticas. A cena entre ambas enquadra bem como emoções e política por vezes se entrelaçam de maneira indissolúvel, e como, nessas situações, aparentemente as mulheres se encontram melhor habilitadas para conduzir as tratativas. A tensão é evidente entre ambas – provavelmente duas das três mulheres mais poderosas dos Sete Reinos – e a amabilidade embora convincente é também, claramente, meramente superficial. O que há ali não é uma tentativa de conciliação entre duas possíveis cunhadas mas, acima de tudo, uma dura negociação acerca do espaço que o Norte passará a ocupar, ao fim da guerra, na organização política de Westeros. Algo que Jon Snow não se ocupou de fazer antes de forjar alianças.

Jon Snow, aliás, passa, compreensivelmente, todo o episódio evitando Daenerys. Apenas nos momentos finais ele enfim compartilha com ela o peso da revelação que o atormenta desde o último episódio. A resposta da Mãe dos Dragões, evidente, não é das melhores. E diferente do que quis ela sugerir a Sansa, sua preocupação primeira não é com o amor, mas antes como isso afetará sua pretensão ao trono de ferro. Aegon Targaryen VI, porém, não parece muito preocupado com isso. Ou pelo menos não parecia, até perceber que sua amada “Dany” talvez não pense duas vezes em literalmente atirá-lo aos dragões antes de perder o trono de ferro. Está aí um conflito interessante de testemunhar nessa reta final. Como será a entrega da resolução desse conflito poderá ser determinante para a forma como viremos a avaliar Game of Thrones nos dias e anos que se seguirão a seu fim.



Série: Game of Thrones
Temporada:
Episódio: 02
Título: A Knight of the Seven Kingdoms
Roteiro: Dave Hill
Direção: David Nutter
Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams, Liam Cunningham, Carice van Houten, Nathalie Emmanuel, Alfie Allen, John Bradley, Isaac Hempstead Wright, Gwendoline Christie, Conleth Hill, Rory McCann, Jerome Flynn, Kristofer Hivju, Joe Dempsie, Jacob Anderson, Hannah Murray e Iain Glen

2 thoughts on “Crítica | Game of Thrones – 8×02: A Knight of the Seven Kingdoms”

  1. “A série é uma história sobre política e poder. Mas não qualquer política, nem qualquer poder. É sobre política e poder, onde a honra luta desesperadamente para sobreviver como um valor a ser cultuado, e na qual é constantemente posta à prova.”

    Gosto de suas análises porque vai muita além do que a maioria das pessoas vêem: morte, traições e sexo. Muito obrigado por elas e parabéns.

    PS: Só não concordo com a nota do episódio, merecia a nota máxima, episódio foi perfeito.

    1. Muito obrigado.

      São comentários assim que nos dão prazer de escrever.

      Sobre a nota, sabe como é né? Crítico tem que ser chato. Hehehehe.

      Quero dar 5 para o próximo ! Espero.

      Abraços,e mais uma vez, obrigado.

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