Crítica | Se a rua Beale falasse

Rua Beale é endereço de resistência, trabalho, afeto, acolhimento, resiliência, compaixão e empatia. Ela conta a história de amor dos jovens negros Tish (KiKi Layne) e Alonzo ‘Fonny’ (Stephan James), inspirada no romance, de 1974, do escritor James Baldwin, que ganha cores, sons e vida própria nos cinemas com o filme homônimo do diretor Barry Jenkins – consagrado por Moonlight: Sob a Luz do Luar. Se a Rua Beale Falasse, com certeza, ela declamaria um poema delicado e sensível sobre seus habitantes.

Na trama, Alonzo ‘Fonny’ está prestes a dar um passo importante no seu relacionamento amoroso com a jovem Tish. Os dois cresceram juntos e, recentemente, se descobriram apaixonados. O rapaz, no entanto, vê seus sonhos desmoronarem ao ser preso, logo após, propositalmente, ter sido “confundido” com um estuprador. Grávida, Tish precisa reunir forças com sua família para lutar pela liberdade e pela sobrevivência do futuro marido, vítima de um complô racista das autoridades do sistema de justiça.

Ao recriar o clima dos bairros de Nova York no final dos anos 60, com personagens bem desenvolvidos e estética comovente, o longa cumpre o que promete. Entrega uma verdadeira poesia cinematográfica, que é resultado direto do casamento equilibrado de elementos técnicos como direção, fotografia e trilha sonora. Além disso, perpassa uma temática lamentavelmente ainda bastante atual: a perseguição e a violência praticada contra jovens negros por policiais.

Nessa história, a mãe da moça, Sharon Rivers (Regina King), tem papel fundamental. A narrativa cresce significativamente com sua presença na tela. Ela é quem acolhe e impulsiona Tish a manter-se firme e, ao mesmo tempo, resiliente. Aliás, é a jovem quem narra a história, em meio a flashbacks, sonhos e também ao que parecem ser projeções de um futuro desejado. E, assim, o drama avança sobre a experiência – tão comum a jovens negros, em razão da opressão da sociedade racista – de lutar por sobrevivência e equidade.

Se a Rua Beale Falasse peca apenas em mesclar as belíssimas cenas da narrativa ficcional com imagens reais de fatos históricos, que parecem terem sido incluídas somente com o intuito de reiterar a mensagem da trama. A decisão por esse tipo de montagem é questionável, na medida em que provoca pausas desnecessárias na experiência do espectador, com grande potencial para quebrar o ritmo de desenvolvimento da história principal – já bastante contundente por si só.


Uma frase: – “Lembre-se: foi o amor que te trouxe aqui. E se você confiou no amor até agora, não entre em pânico agora. Confie até o fim.”

Uma cena: Quando Sharon Rivers tenta colocar uma peruca em frente ao espelho.

Uma curiosidade: O filme comete o mesmo erro do livro no qual se baseia. Ambos afirmam que Beale Street está em Nova Orleans, enquanto na verdade é em Memphis.


Se a rua Beale falasse (If Beale Street Could Talk)

Direção: Barry Jenkins
Roteiro:
Barry Jenkins e James Baldwin
Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo e Teyonah Parris
Gênero: Crime, drama, romance
Ano: 2018
Duração: 119 minutos

One thought on “Crítica | Se a rua Beale falasse”

  1. Infelizmente, “Se a rua Beale falasse” não estreou nos cinemas da minha cidade e, provavelmente, não irá estrear. Uma pena, pois é um dos filmes que mais quero conferir nessa temporada Oscar.

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