Crítica | Vidro (Glass)

Nos extras do DVD de Corpo Fechado, na parte de cenas excluídas, o diretor M. Night Shyamalan comenta sobre uma das que mostra um flashback do personagem Elijah Price. Nela, o pequeno Elijah vai a um parque de diversões. O cineasta fala que ela não entrou na versão final porque seu visual destoava do restante do filme. 19 anos depois, chega aos cinemas Vidro (Glass), continuação do longa de 2000 e que, junto com Fragmentado, virou uma trilogia.

Curiosamente, a cena citada pelo diretor está presente na obra-cinematográfica de 2019, o que só prova que Shyamalan deixou o bom senso de lado quando se trata da estética de seus filmes e também no interesse em contar uma boa história. Parece que estava mais interessado em tentar “surpreender”, mesmo que de maneira forçada.

Corpo Fechado e Fragmentado são filmes bem distintos entre si, principalmente em sua estética. No entanto, a grande “surpresa” de Shyamalan foi mostrar que na verdade eles se passam no mesmo universo. Se o longa de 2000 surpreendia pela abordagem, ao mostrar uma narrativa que apresentava o que aconteceria se existissem super-heróis no mundo real – que também foi explorado em Kick-Ass – nos dias atuais, a realidade é diferente. Os seres fantásticos hoje dominam o cinema. Então, olhando por esse ângulo, parece que o cineasta quer surfar na mesma onda ao criar o seu próprio universo compartilhado.

Contudo, é preciso reconhecer a coragem de Shyamalan em sempre apostar em histórias originais e autorais, já que ele também é o roteirista dos seus filmes. Justamente por causa disso é tão decepcionante perceber o quanto Vidro repete muito de Corpo Fechado, não só ao utilizar cenas excluídas do longa de 2000, mas também nos objetivos de Elijah / Sr. Vidro. Ou até mesmo momentos semelhantes, como ao mostrar algum personagem indo a uma loja de quadrinhos. Como o próprio título deixa claro, o longa deveria ser sobre o personagem-título, mas o roteiro peca por não conseguir explorar sua persona mais a fundo do que já havia sido apresentado.

O filme começa de forma interessante ao mostrar que David Dunn (Bruce Willis) seguiu ajudando as pessoas, como um “justiceiro” super-herói, contando com a ajuda de seu filho Joseph (Spencer Treat Clark). Ele está atrás da “Horda” (James McAvoy) que sequestrou mais um grupo de jovens meninas. Esse início serve para fazer a conexão entre as histórias, mas acontece o oposto, elas destoam bastante uma da outra. Corpo Fechado tinha uma lógica visual forte, com o uso das cores, e observamos isso na loja onde David trabalha, onde o verde predomina. Já Fragmentado é cinza, com um clima mais pesado e denso, principalmente através da trilha sonora de West Dylan Thordson, que atua também em Vidro, criando tons genéricos de suspense.

Vidro mostra sua verdadeira face quando os personagens são capturados e levados para um sanatório, onde se juntam a Elijah para serem tratados pela Dr. Ellie Staple (Sarah Paulson). A mulher se diz uma especialista em pessoas que acreditam ser “super humanas”, oferecendo tratamento para que restabeleçam a sanidade mental. O momento em que os quatro se reúnem na mesma sala para uma sessão de terapia é interessante, mas não alcança o potencial que tinha. Um dos problemas é a atuação de Paulson, bem irregular e inferior ao restante do elenco. A partir desse ponto o filme começa a se perder e a repetir os anteriores.

Shyamalan não consegue transformar o Sr. Vidro no protagonista que ele merecia. Nada de novo é apresentado sobre o personagem, além de repetir o que já tinha sido explorado em Corpo Fechado. É uma pena ver o talento de Samuel L. Jackson ser desperdiçado. Os poucos momentos razoavelmente interessantes são quando ele encontra com a “Horda”, mais uma vez bem interpretado por James McAvoy. Mesmo assim, a repetição da troca de personalidades de Kevin já não tem mais impacto no espectador já, a essa altura, entediado. Mas sem dúvidas, o principal desaproveitamento é o de David, já que sua relação com o filho é pouco explorada pela narrativa.

O roteiro de Shyamalan tenta dar um pouco de espaço para os coadjuvantes dos protagonistas, respectivamente a mãe de Elijah, o filho de David e Casey (Anya Taylor-Joy), a jovem que foi poupada pela “Horda”. No entanto, esse é mais um elemento que o cineasta não consegue explorar de maneira satisfatória.

Não bastassem todos esses problemas, o pior do filme, ficou para o final. Sem dar nenhum SPOILER, Shyamalan, não finaliza a trilogia de maneira satisfatória. O encerramento é totalmente anti-clímax, arrastado e investe em uma desnecessária e longa sequência de reviravoltas absurdas. Infelizmente, a palavra decepção é a melhor maneira de descrever a experiência de assistir Vidro.


Uma frase: – Dr. Ellie Staple: “Sou a Dr. Ellie Staple e sou psiquiatra. Sou especialista em indivíduos que acreditam que são seres sobrenaturais.”

Uma cena: Quando a psiquiatra Dr. Ellie Staple reune Elijah, Kevin e David para conversar.

Uma curiosidade: Samuel L. Jackson, que interpreta Elijah, é 5 anos mais velho que Charlayne Woodard, que interpreta a mãe de Elijah.


Vidro (Glass)

Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro:
M. Night Shyamalan
Elenco: James McAvoy, Bruce Willis, Anya Taylor-Joy, Sarah Paulson, Samuel L. Jackson, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard
Gênero: Drama, Mistério, Sci-Fi
Ano: 2019
Duração: 129 minutos
Graus de KB: 1¹! James McAvoy e Kevin Bacon estiveram juntos em X-Men: Primeira Classe (2011)

3 thoughts on “Crítica | Vidro (Glass)”

  1. Ainda não assisti, mas a julgar por algumas opiniões que ando lendo, parece que “Vidro” decepciona um pouco. Tentarei assistir sem expectativas, mas isso será difícil, ainda mais depois do filmaço que “Fragmentado” foi.

  2. Eu discordo de vários pontos da crítica. Gostei do encerramento da trilogia. Apesar de pecar no ritmo na narrativa e no excesso de plots twists didaticamente explicados, achei bastante justo o desfecho dos personagens. Para mim, Shyamalan não fez um “filme de origem” de Glass. É o filme de origem deste novo universo que irá surgir de super-heróis. O longa é sobre esse despertar, que foi provocado justamente por Elijah, que não por acaso foi responsável indireto pela “criação” dos outros dois personagens: David e Kevin.

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