Crítica | A Casa que Jack Construiu

O diretor Lars von Trier seguiu uma fórmula própria em seus últimos filmes. Uma história “polêmica” e controversa, um narrador/protagonista, muitas reflexões e comparações com outras obras de arte, e claro, cenas “chocantes”, tudo isso dividido em capítulos. Em A Casa que Jack Construiu ele relata a vida de Jack (Matt Dillon) e seus “incidentes” com outros seres humanos, principalmente mulheres.

O próprio Jack narra sua história enquanto conversa com Virgílio (Bruno Ganz), como se estivesse numa mistura de terapia com confessionário. O protagonista fala sobre seus “incidentes” com mulheres e faz reflexões sobre seu comportamento, citando exemplos da natureza, como a relação entre um leão e um cordeiro, ou falando sobre música e outros tipos de arte.

É possível afirmar que Lars von Trier criou o seu próprio universo cinematográfico, que poderíamos chamar de “Larsvontrierverse”, já que em A Casa que Jack Construiu ele cita os seus próprios filmes como referências pop, mostrando imagens dos mesmos. Algo que pode ser interpretado como “genialidade” ou simplesmente como puro egocentrismo. Dessa forma, o comportamento de seus personagens é confundido com sua própria persona. Um bom exemplo disso é que esse filme tem sido classificado como misógino, mas seria o próprio diretor também ou apenas Jack que saiu da sua mente?

Os filmes de Trier sempre exploram o comportamento humano e como os personagens lidam com o próprio comportamento, muitas vezes condenados pela sociedade. Digamos que em A Casa que Jack Construiu ele cruza a linha do bom senso em alguns momentos, já que o protagonista é basicamente um serial-killer que mata mulheres. Um bom exemplo disso é quando a história sugere que Jack resolve matar uma mulher simplesmente porque ela o provocou, como se a culpa fosse da vítima e não do assassino. Mas claro que isso é apenas o “tempero” para criar uma história controversa.

A Casa que Jack Construiu, foto

Afinal de contas, não é esse um dos objetivos da arte? Nos fazer refletir sobre ela, principalmente se ela está disposta justamente a provocar sentimentos controversos de quem a está assistindo. Certamente a filmografia de Lars von Trier é essencialmente sobre isso. O diretor é hábil em evocar esse tipo de resposta do seu público. Em A Casa que Jack Construiu ele inclusive faz uma mistura de ironia e comédia ao apresentar um serial-killer que sofre de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo). Então imagine esse homem tentando deixar a cena de um crime onde acabou de assassinar uma mulher, mas que quer deixar tudo limpo e sem nenhuma mancha de sangue. Esse é o tipo de “humor” de Lars.

Matt Dillon transforma Jack em uma figura fascinante, mostrando todas as suas facetas e a evolução do seu comportamento. De um homem solitário que vê na “inocência” da sua primeira vítima a oportunidade de colocar seus instintos para fora, até o momento onde ele parece apenas querer ser pego por seus crimes. A cena na qual ele pede para uma das mulheres grite por ajuda de dentro do seu apartamento, apenas para provar que ninguém vai aparecer e está disposto a ajudar, é um ótimo exemplo da ironia do diretor em torno do comportamento humano.

Talvez esse não seja um de seus filmes mais inspirados, já que Lars von Trier insiste muito nas próprias fórmulas, que deixam A Casa que Jack Construiu um pouco “engessado”. O epílogo após a conclusão é exemplo disso, já que a mensagem do filme já estava clara e concluída, mas o diretor resolve esticar a narrativa como se quisesse provar algo para si mesmo, mas sem acrescentar nada para o espectador.

A Casa que Jack Construiu, foto

No entanto é impossível negar seu talento como cineasta. Um dos destaques da sua última obra são as referências musicais, seja através de canções de artistas como David Bowie e Ray Charles, ou visuais ao usar o clipe de “Subterranean Homesick Blues” de Bob Dylan como inspiração para mostrar o protagonista segurando placas com frases.

A “fórmula” do “Larsvontrierverse” apresenta sinais de desgaste, mas ainda assim A Casa que Jack Construiu é uma obra-cinematográfica que vale a pena ser vista, principalmente por suas provocações e reflexões, que deveriam ser o objetivo de qualquer tipo de obra de arte.


Uma frase: Mulher 1: “Talvez tenha sido um erro. Pegar carona com você. Você pode ser um serial-killer. Desculpe, mas é o que você parece.”

Uma cena: Quando vemos a casa que Jack construiu pronta.

Uma curiosidade: O diretor inicialmente pretendia fazer uma mini-série na televisão em 8 partes, mas depois mudou de idéia e transformou A Casa que Jack Construiu em um longa-metragem.


A Casa que Jack Construiu, cartazA Casa que Jack Construiu (The House That Jack Built)

Direção: Lars von Trier
Roteiro:
Lars von Trier
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman, Siobhan Fallon Hogan, Sofie Gråbøl, Riley Keough e Jeremy Davies
Gênero: Drama, Horror, Thriller
Ano: 2018
Duração: 155 minutos

2 thoughts on “Crítica | A Casa que Jack Construiu”

  1. Queria muito ter assistido a este filme, mas, infelizmente, perdi a chance quando passou aqui na minha cidade. Gosto do cinema de Lars Von Trier, acho que ele sempre faz filmes provocativos e que merecem a nossa atenção.

  2. Essa parte específica do humor de Tio Lars um gostinho de Coen no ar, daria uma belo filme dos Coen sobre o serial killer com TOC.

    Claro que o filme é mais que isso e concordo muito com sua crítica. Achei o epílogo desnecessário, mas Trier tem dessas

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