Crítica | Infiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Infiltrado na Klan conta uma história real tão inusitada que mais parece fruto de ficção. Com a dose necessária de humor e drama que fazem o espectador sair incomodado da sala de cinema, o diretor Spike Lee – reconhecido por sua cinematografia de temática racial – explora de forma sagaz o tom pouco crível da narrativa baseada do livro de memórias Black Klansman, de 2014, de Ron Stallworth, o protagonista da trama.

A parceria de Lee, na direção, com a produção do novato e aclamado cineasta Jordan Peele – ganhador do Oscar de roteiro original em 2018 com o filme Corra! – garantem a genialidade do longa que, ao mesmo tempo, evidencia a crítica ao racismo velado estadunidense – inflado pela ascensão do presidente Donald Trump ao poder em 2017 – e exibe cenas e diálogos que satirizam a irracionalidade de movimentos supremacistas.

O filme acompanha o progresso de Ron Stallworth (John David Washington, filho mais novo de Denzel), primeiro policial negro a trabalhar na Polícia de Colorado Springs nos anos 70 a se infiltrar na Ku Klux Klan – organização de extrema-direita que defende a supremacia branca. O intuito é investigar o grupo e tentar sabotá-lo por dentro. Para isso, o policial conta com a parceria de Flip Zimmerman (Adam Driver), que comparece aos encontros da Klan se passando por Ron Stallworth.

No início da trajetória de Ron no departamento de inteligência da Polícia, o protagonista conhece e se apaixona pela líder estudantil Patrice (Laura Harrier), personagem que conduz o olhar do espectador sobre o movimento de luta pelos direitos da população negra, contra a opressão, a discriminação, a segregação, e em resistência à violência policial. O filme, inclusive, lembra a perseguição e a criminalização do grupo revolucionário Panteras Negras.

Aliás, as referências, principalmente as cinematográficas, cumprem uma função didática no longa. Spike Lee utiliza esse recurso com maestria para narrar como se deu a sedimentação do terreno das tensões e dos confrontos raciais vividas pelos americanos nos anos 60 e 70, que agora ressurgem na esteira da ascensão política de partidos e movimentos de extrema direita em todo o mundo.

Há espaço para uma cena de “E o Vento Levou..”, que segundo o próprio Lee admitiu em recente entrevista ao Estadão, romantizou a guerra civil americana, obtendo sucesso de público e crítica, sem que fossem sopesados os impactos da recepção da obra pela comunidade negra. Tem ainda a exibição de partes do filme racista que incitou nos anos 20 o ressurgimento da Ku Klux Klan: “O Nascimento de Uma Nação”, do cineasta D.W. Griffith, considerado o pai do cinema.

Além dessas referências explícitas, Ron e Patrice são fãs da Blaxploitation, um movimento cinematográfico norte-americano que surgiu no início da década de 70. O gênero tinha como característica a representatividade, a perspectiva e o protagonismo negro, tanto na construção dos roteiros, como na direção e na interpretação dos filmes, bem como na presença marcante de trilhas sonoras da black music da época.

Infiltrado na Klan, foto

Elenco em sintonia

E da dobradinha de sucesso entre Spike Lee e Jordan Peele também sobressaem excelentes atuações e construções de personagens, com destaque para a equilibrada interpretação de John David Washington, que dá a cota adequada de humor ao seu personagem. Outra boa participação é a do coadjuvante Adam Driver, famoso nos cinemas pelo vilão Kylo Ren da nova franquia de Star Wars. A química dos dois atores é sutil e agregadora para os personagens e para o filme.

Ainda sobre atuações, não seria justo deixar de fora o trabalho de Topher Grace ao dar vida ao líder da Klan e ainda atuante político americano de extrema direita: David Duke – retratado com características que transitam entre a sátira e a incômoda verossimilhança com a conhecida e controversa personalidade de Duke. O desconforto marca ainda toda a presença em cena e os diálogos de Jasper Pääkkönen como o convincente Felix Kendrickson, um membro mais radical e violento da KKK.

Uma das cerejas do bolo, por assim dizer, é entregue logo no início do longa, com a curta participação de Alec Baldwin, em um monólogo no qual seu Dr. Kennebrew Beauregard discursa inflamadamente olhando na direção da câmera enquanto se vê refletido em seu rosto a projeção de imagens. O efeito dessa técnica de fotografia faz a imagem do supremacista branco variar entre o sombrio/nebuloso e o vermelho com feições diabólicas.

Infiltrado na Klan, foto

Make America Great Again

Todos esses elementos semânticos e visuais, os quais tangenciam o roteiro baseado em fatos reais, se conectam e conversam com o claro intuito de Lee, que é entregar uma obra cinematográfica que gera, sobretudo, angústia e incômodo – emoções e reações potencializadas pela infeliz retomada de confrontos raciais, incitadas pelo resgate do nacionalismo extremado americano.

Por isso, não é à toa que para encerrar essa crítica manifesta, o diretor faz questão ainda de incluir uma sequência final, em paralelo, de cenas reais de arquivo dos protestos de 2017 em defesa da supremacia branca em Charlottesville e também de atos em defesa dos negros nos Estados Unidos, no movimento batizado de “Black Lives Matter” (vidas negras importam). A imagens atuais de violência, intolerância e ódio nas ruas americanas inevitavelmente remetem ao momento passado retratado pelo filme.

Apesar do excesso de didatismo, é compreensível a necessidade de Spike Lee em reiterar sua mensagem crítica declarada ao racismo e ao nacionalismo endossados pelos ideais propagados pelo presidente Donald Trump desde sua campanha em 2016, sintetizados pelo slogan “Make America Great Again”.

Nada resume melhor esse intuito narrativo do que as duas aparições da bandeira – símbolo representativo de unidade nacional, que aparece em dois momentos fundamentais: no início do filme, com um exemplar todo rasgado daquela usada pelos estados confederados na guerra civil dos EUA; e no fim, com a versão atual, porém, desconstruída, de cabeça para baixo e em preto e branco.


Uma frase: – Flip Zimmerman: “Para você é uma cruzada. Para mim é um trabalho”. Ron Stallworth: “Você é judeu. Eles te odeiam. Isso não te irrita? Por que você está agindo como se não tivesse pele no jogo?”

Uma cena: Quando o verdadeiro Ron Stallworth é escalado para fazer a segurança pessoal de David Duke durante uma cerimônia da Ku Klux Klan em Colorado Springs.

Uma curiosidade: O filme é dedicado à vida de Heather Heyer, que foi fatalmente atingida por um carro enquanto protestava contra a manifestação “Unite the Right”, realizada em 12 de agosto de 2017 em Charlottesville, VA. O filme estreou nos EUA em 10 de agosto de 2018 para marcar o aniversário de um ano da manifestação e sua morte.


Infiltrado na Klan, cartazInfiltrado na Klan (BlacKkKlansman)

Direção: Spike Lee
Roteiro:
Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmott, Spike Lee e Ron Stallworth
Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Alec Baldwin, Robert John Burke, Brian Tarantina, Topher Grace e Michael Buscemi
Gênero: Biografia, Comedia, Crime e Drama.
Ano: 2018
Duração: 135 minutos

Filha dos anos 80, a Não Traumatizada, Mãe de Plantas, Rainha de Memes, Rainha dos Gifs e dos Primeiros Funks Melody, Quebradora de Correntes da Internet, Senhora dos Sete Chopes, Khaleesi das Leituras Incompletas, a Primeira de Seu Nome.

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