Nada que aparece na tela é gratuito, ou uma reflexão sobre Churros grátis

O 6º episódio da 5ª temporada de BoJack Horseman serviu de inspiração para esse texto. Em “Churros grátis” o protagonista faz um longo discurso no funeral de sua mãe. Esse capítulo parece meio “perdido” dentro da temporada, como se fosse um “bottle episode”. Já falei mais sobre ele no review sobre a série, então aqui vamos nos atentar a uma determinada parte dele.

Durante o monólogo, BoJack lembra que durante uma convenção de fãs do programa Horsin’ Around um deles pergunta sobre uma determinada cena de um episódio. Nela o protagonista conversa com outro personagem e na troca de perspectiva entre eles, é possível visualizar um copo de café. Horseman explica que o objeto visto na tela foi esquecido por um assistente. No entanto, um fã viu nisso um significado diferente e questionou para BoJack se era isso mesmo. O cavalo, com pena, concordou para deixar o fã satisfeito com sua teoria.

A descrição dessa cena me fez refletir a respeito do tema e resolvi compartilhar com vocês a minhas teorias através desse texto.

Nada que aparece na tela é gratuito!

Quando assistimos um filme ou uma série, tudo que é visto em cena tem um significado. Isso faz parte da interpretação que cada um vai ter sobre a imagem apresentada. Essa “regra” vale para qualquer tipo de arte: seja no cinema, televisão, música ou literatura.

Vamos voltar um pouco no tempo e lembrar das aulas de português e literatura, onde aprendemos sobre interpretação de texto. Uma das coisas que mais me irritava era que não adiantava muito ler os livros indicados que iriam cair no vestibular (ou ENEM se você for jovem), já que o que importa era a forma de interpretar cobrada pela banca examinadora. Ou o que falar quando o próprio autor da obra não consegue acertar as questões, como aconteceu com o escritor Mário Prata?

Bom, é muito importante aprender sobre interpretações de obras de arte, mas talvez falte a nossa metodologia de ensino algo que incentive aos alunos a chegar de forma mais instintiva as suas próprias conclusões.

É claro que temos que tomar cuidado com isso, afinal de contas no mundo real o brasileiro parece estar em uma profunda crise sobre interpretação de história. Afinal de contas queremos ensinar o povo da Alemanha sobre o nazismo, ou ao Papa Francisco sobre cristianismo. Depois de mansplaining temos um “braziliansplaining“.

Mas vamos voltar ao mundo do cinema. Resolvi pegar 4 exemplos distintos para falar sobre algo que vimos num filme e discutir se foi algo proposital ou sem querer, e qual o significado:

Star Wars Episódio IV – Uma Nova Esperança

Um momento interessante no filme é quando um grupo de Stormtrooper passa por uma porta e um deles bate a cabeça. É um pequeno detalhe que pode nem ser percebido durante a cena, mas ela está lá. Será que George Lucas, diretor do filme, não percebeu isso? Ou ele deixou lá por algum motivo? A cena ficou tão boa que isso pode passar batido? Ou quer dizer que na verdade os soldados do império tem um lado irracional que é visto na tela ao seguirem o comando do vilão sem questioná-lo? Favor não confundir isso com o tipo de erro de continuidade visto em sites como www.moviemistakes.com.

Maratona Star Wars | Episódio IV – Uma Nova Esperança

Blade Runner

Em algumas cenas do filme de Ridley Scott é possível ver uma luz vermelha nos olhos do replicantes. Essa seria uma forma de identificá-los visualmente para o espectador. No entanto, existe um momento onde é possível enxergar isso na irís do protagonista Deckard, interpretado por Harrison Ford. Contudo, existia um questionamento se o personagem seria ou não um andróide e o diretor afirma que isso que aconteceu com Ford foi um erro. No entanto, está em cena. Então qual seria a interpretação? O vídeo abaixo fala um pouco sobre esse teoria dos olhos vermelhos:

A Sombra do Pai

No 2º longa-metragem de Gabriela Amaral Almeida, tem uma cena em que é possível ver uma luz vermelha nos olhos do personagem de Julio Machado. Isso quer dizer que ele também é um replicante? (Me desculpem, essa é bem idiota, mas eu achei que valia a piada)

Crítica | A Sombra do Pai

Três Solteirões e um Bebê

Foi criado um rumor em torno de uma cena desse filme onde o personagem de Ted Danson está com a mãe em casa e no fundo, na janela, é possível ver o que parece ser o vulto de um menino. Disseram que era uma assombração, que a criança teria se matado naquela janela, sendo que a cena foi feita dentro do estúdio. Em uma época sem Internet, esse tipo de boato pode ter sido usada simplesmente para promover o filme. Será que ninguém viu isso antes do lançamento? Deixaram de propósito ou foi apenas um erro?

Sem dúvidas durante a leitura desse texto você deve ter pensado em outros exemplos do tipo, então deixa aí seu comentário com mais exemplos.

O “poder” dos fãs sobre as obras que eles admiram

Para fechar o texto, é bom falar sobre como os fãs de determinadas franquias se manifestam na Internet como se fossem donos das obras dos artistas. Então se determinado filme troca a etnia de um personagem clássico, como um Superman negro (em breve Varacast sobre isso), criam-se diversas reclamações online.

Existe um limite entre a interpretação e querer que algo seja apenas como você imagina que seja. É um absurdo ver fãs de Star Wars, Marvel, DC, ou o que quer que seja, reclamando que determinado filme, quadrinho ou série não representa a franquia ou o universo, simplesmente porque ele acha que não.

Então amiguinhos, o que refletimos nesse texto e chegamos a uma conclusão (ou não) é de que é possível sim interpretar de maneiras diferentes uma obra de arte. Existem as certas e as erradas, as que são propositais ou não, e essa é justamente a graça da expressão artística, que é justamente o impacto que ela causa nas pessoas.

Tudo isso por causa de um “simples” churros grátis para BoJack Horseman. Vale lembrar que o episódio entrou no top 10 de melhores episódios de séries de todos os tempos, feito pelo IMDB.

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

4 thoughts on “Nada que aparece na tela é gratuito, ou uma reflexão sobre Churros grátis”

  1. Adorei o texto! ótima análise…de fato nos faz pensar em tudo que vemos nas telas (e também o que deixamos passar despercebido rsrs)

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