Crítica | Legalize Já – Amizade Nunca Morre

Duas pessoas se encontram por acaso e isso muda a vida deles para sempre. Essa frase poderia definir em poucas palavras o filme Legalize Já – Amizade Nunca Morre, cinebiografia musical da banda Planet Hemp. O filme dos diretores Johnny Araújo e Gustavo Bonafé foca na amizade entre Marcelo (Renato Góes) e Skunk (Ícaro Silva). Cada um deles vive à margem da sociedade e tem na música um refúgio dessa realidade difícil. A decisão do roteirista Felipe Braga em focar a narrativa nessa relação e não necessariamente na história da banda, é o diferencial do longa. Dessa forma ele foge de alguns clichês de obras-cinematográficas que contam a história de artistas focado basicamente na fórmula de ascensão e queda, problemas com drogas e coisas do tipo.

O filme já começa de forma interessante ao mostrar Marcelo em um cartão postal da cidade do Rio de Janeiro: os Arcos da Lapa. Algo já chama a atenção: a ausência de cores. A fotografia dessaturada dá a impressão que estamos diante de uma obra em preto e branco. O local tem uma grande parede branca, então essa sensação é ressaltada. Essa decisão artística permeia todo o longa ao apresentar um mundo sem cores, onde a realidade dos personagens não têm muitas alegrias. A ambientação urbana, também sem muitas cores, ajuda na imersão no mundo dos personagens e sua realidade difícil.

Marcelo ganha a vida como camelô vendendo camisas de rock. Além disso, ele está lidando com a gravidez indesejada da sua namorada e eles pensam em fazer um aborto, e também o pai do rapaz o pressiona para sair de casa e assumir suas responsabilidades. Já Skunk ganha vida vendendo fitas K7, algo que fazia sentido no início dos anos 1990, época em que a história se passa. Eles se esbarram durante uma confusão com a polícia no decorrer de um “rapa” (quando os policiais confiscam a mercadoria dos camelôs).

Skunk fica sem querer com o caderno de Marcelo, onde está escrito algumas poesias do rapaz e se impressiona com o conteúdo das letras. Ele resolve então chamar o rapaz para montar um projeto musical, já que ele possuía algumas bases de rap, faltava apenas as palavras para colocar por cima. Marcelo não se anima com a idéia, mas cede devido a insistência de Skunk. Dessa forma o Planet Hemp começa a ganhar vida.

Legalize Já – Amizade Nunca Morre, imagem

A banda é conhecida por suas letras que falam sobre maconha, mas o filme mostra que é muito mais do que isso. É sobre lutar contra o sistema e não aceitar as imposições que eles colocam em você. Skunk e Marcelo são pobres, e o primeiro ainda é negro. Essas são barreiras que ambos tem que lidar. As letras de Marcelo falam justamente dessa luta e Skunk enxergou o potencial disso.

O drama de Skunk é ainda mais complicado porque o homem lida também com uma doença: AIDS. O filme usa essa situação de forma interessante, sem cair no melodrama, funcionando muito bem para dar um clima emocional à narrativa. E isso funciona também graças a atuação de Ícaro Silva que interpreta o personagem de forma competente e sem exagerar nos maneirismos.

A relação entre Marcelo e Skunk não é fácil e tem altos e baixos. A química entre Ícaro e Renato Góes é muito boa, transformando essa amizade em algo verossímil e interessante. Renato também está muito bem como Marcelo. O ator se parece muito fisicamente com o músico que serve de inspiração. A voz deles é tão parecida que muitas vezes parece que estamos realmente diante do próprio Marcelo D2.

Legalize Já – Amizade Nunca Morre conta a história da origem do Planet Hemp, mas ao focar na relação entre Skunk e Marcelo o filme surpreende e entrega um ótimo resultado. Skunk tem papel fundamental na criação da banda, mas poucas pessoas sabem disso. Então o longa de Johnny Araújo e Gustavo Bonafé funciona também para apresentar essa figura ao grande público. Se ele não tivesse acreditado e incentivado o talento de Marcelo, hoje não teríamos um dos grupos mais importantes do rock/rap brasileiro.


Uma frase: – Skunk: “Essa aqui é a única fita, da única gravação, da banda mais foda que você vai ouvir falar nos próximos tempos.”

Uma cena: A apresentação musical de Marcelo e Skunk em uma igreja.

Uma curiosidade: Na época das filmagens, o longa-metragem se chamava “Anjos da Lapa”, referência ao bairro boêmio do Rio de Janeiro onde nasceu o Planet Hemp. Posteriormente, o título mudou para “Meu Tempo é Agora” antes da definição por “Legalize Já!”, nome de uma das músicas mais conhecidas da banda.


Legalize Já – Amizade Nunca Morre, cartazLegalize Já – Amizade Nunca Morre

Direção: Johnny Araújo e Gustavo Bonafé
Roteiro:
Felipe Braga
Elenco: Renato Góes, Ícaro Silva, Ernesto Alterio, Rafaela Mandelli, Stepan Nercessian e Marina Provenzzano
Gênero: Biografia, Drama
Ano: 2017
Duração: 90 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

One thought on “Crítica | Legalize Já – Amizade Nunca Morre”

  1. Confesso que esse tipo de filme não me atrairia muito, Ramon, por eu não ser muito familiarizada com o universo do Planet Hemp, mas a sua crítica me mostra que se trata de um filme interessante.

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