Crítica | Juliet, Nua e Crua (Juliet, Naked)

Juliet, Nua e Crua é a mais nova adaptação de um livro de Nick Hornby para o cinema. A história gira em torno de música, suas obsessões e como elas afetam o relacionamento entre as pessoas. As obras de Hornby costumam ter o tema musical como pano de fundo. O diretor Jesse Peretz captou a essência da obra-literária e a transformou em um longa-metragem que mistura muito bem o drama com a comédia romântica.

A trama gira em torno de 3 personagens: Annie, Tucker Crowe e Duncan Thomson. Duncan e Annie são namorados e vivem juntos. Ele é obcecado pela obra musical de Tucker, um artista que lançou apenas 1 disco há 20 anos atrás. Duncan tem um site especializado em discutir a obra de Crowe e os mistérios em torno da vida do cantor, que sumiu e nunca mais gravou ou se apresentou ao vivo.

Um dia Thomson recebe uma versão inacabada do único disco de Tucker Crowe, que foi batizado de Juliet, Nua e Crua, e a percepção que ele tem é bem diferente da que Annie tem, gerando uma briga entre o casal. Ela escreve um comentário no site do namorado e chama a atenção do próprio Tucker, assim os 2 começam a conversar virtualmente e se conhecer.

Então, o filme fica ainda mais interessante a partir desse primeiro contato entre Annie e Tucker. Os 2 conversam sobre seus arrependimentos e suas próprias vidas. Ela acha que desperdiçou seus últimos anos de vida, enquanto ele apesar de ter passado musical tem vários problemas familiares com filhos de mulheres diferentes. O que seria “pior”? A mulher acha que nunca fez nada de errado na vida e acha interessante que ele tenha o registro artístico musical, mas para ele sua vida como cantor não faz mais sentido.

Essas cenas das conversas são muito boas em apresentar uma montagem dinâmica e interessante, já que temos basicamente 2 personagens trocando mensagens. Mas o diretor aproveita para mostrar a dinâmica da vida de cada um deles, enquanto os atores falam o que estão escrevendo como se fossem narradores, assim o espectador entende de forma visual o motivo deles estarem se conectando tão naturalmente.

Juliet, Nua e Crua, imagem

Um dos temas interessantes que Juliet, Nua e Crua aborda é a discussão sobre a interpretação musical de um artista, reflexão parecida com a do texto sobre “Churros grátis” de BoJack Horseman. A cena em que Duncan conversa com o próprio Tucker sobre a obra do artista é interessante, já que o fã enxerga vários significados nas letras, enquanto o músico acha que não é nada de mais.

Outro ponto importante é a relação entre Annie e o namorado Duncan, já que ele “obriga” a moça a compartilhar os mesmos gostos que ele, que servem como um tipo de “aprovação”. Temos um pouco de um relacionamento abusivo aqui e o filme explora bem o tema. A mulher se sente um pouco sufocada e com o sentimento de que, mesmo após anos de relacionamento, não fez o que queria.

Contudo, a questão central é a aproximação entre Annie e Tucker Crowe. Ela sabe tudo sobre a obra do cantor, por causa do namorado, mas o quanto isso pode influencia a relação entre eles? Seria apenas amizade ou existe a possibilidade de algo romântico? Será que pessoas que já “desperdiçaram” um tempo de vida teriam alguma chance de dar certo? A cena em que Crowe está no hospital e recebe visita de seus filhos e ex-mulheres mostram o caos que é sua vida pessoal, e esse é o momento que ele conhece Annie pela 1ª vez. Então a moça sabe muito bem os obstáculos que teria que enfrentar para que uma vida amorosa desse certo.

Todas essas questões funcionam graças ao roteiro coeso e eficiente, que apesar de não ser tão denso quanto a história poderia ser, encara os temas de forma inteligente e divertida. Ele equilibra muito bem o drama e a comédia, sem em nenhum momento parecer melodramático ou piegas. O tom encontrado acerta na emoção na medida certa.

Além disso, o elenco também é muito bom. A química entre os 3 personagens principais é ótima e os atores criam muito bem a dinâmica entre suas relações. O destaque fica por conta de Rose Byrne e Ethan Hawke, já que eles representam o tema principal da narrativa. Dessa forma Chris O’Dowd funciona mais como um tipo de alívio cômico, já que é a obsessão musical de Duncan o ponto inicial da narrativa.

Em síntese, temos mais uma ótima adaptação de um livro de Nick Hornby. O diretor captou a essência da obra e transformou Juliet, Nua e Crua em um filme muito bom, que aborda temas interessantes de forma leve, divertida e inteligente. Tudo isso funciona graças ao roteiro e elenco de qualidade.


Uma frase: – Duncan: “Quem quer trazer crianças para esse mundo horrível? Só acho que o mundo não precisa de mais crianças.

Uma cena: O jantar entre Annie, Tucker Crowe e Duncan Thomson, onde Duncan faz perguntas sobre a obra de Tucker.

Uma curiosidade: A atriz Rose Byrne estava grávida de seis meses durante as filmagens. A produção teve que fazer tomadas especiais para que o volume da barriga não fosse facilmente percebido, além de utilizar objetos, como bolsas de colo e laptops, estrategicamente posicionados.


Juliet, Nua e Crua, cartazJuliet, Nua e Crua (Juliet, Naked)

Direção: Jesse Peretz
Roteiro:
Tamara Jenkins, Jim Taylor, Phil Alden Robinson e Evgenia Peretz
Elenco: Rose Byrne, Ethan Hawke, Chris O’Dowd, Megan Dodds e Azhy Robertson
Gênero: Comédia, Drama, Música
Ano: 2018
Duração: 105 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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