Crítica | Bohemian Rhapsody

Fazer um filme baseado em fatos reais sempre é uma tarefa complicada. Ainda mais de uma figura tão icônica e lendária quanto Freddie Mercury, vocalista da banda Queen. A escritora Lesley-Ann Jones, autora de “Freddie Mercury – A Biografia Definitiva”, afirmou que a música Bohemian Rhapsody foi uma forma de Mercury revelar ao mundo que era gay. Então usar o nome da canção como título do longa foi uma boa idéia. Se em 2018 a homossexualidade ainda é um tabu, quanto mais nos anos 1970. Felizmente a obra-cinematográfica de Bryan Singer toca no assunto, mesmo que de forma superficial.

Outra questão importante em se fazer uma biografia de uma pessoa famosa é a forma como ela é retratada na tela. Bohemian Rhapsody faz um retrato interessante de Freddie Mercury, apresenta um pouco da sua vida, o que fez com que se tornasse uma lenda da música. Contudo, sua vida pessoal foi muito complexa para ser resumida em pouco mais de duas horas. O roteirista Anthony McCarten sabia disso, então preferiu focar no que foi o fato mais importante da vida de Mercury: sua música.

Bohemian Rhapsody segue fórmula básica de uma cinebiografia, mas o seu diferencial está no poder da música do Queen. O que vemos na tela é um resumo básico da história da banda, focando principalmente em Mercury. Então se em um instante o cantor acabou de entrar na banda, não demora muito para que eles consigam o sucesso. É óbvio que na vida real não foi assim tão fácil, mas para o público é importante apenas seguir os destaques e pontos mais importantes da carreira dos músicos.

Como estamos diante de uma obra de ficção, mesmo que ela seja inspirada em fatos reais, é óbvio que muitas adaptações e mudanças foram feitas do que realmente aconteceu. Uma maneira inteligente e divertida é usar as músicas como forma de pontuar determinadas características e acontecimentos da vida de Freddie e sua relação com a banda. Uma cena que exemplifica bem isso é o momento que Brian May (Gwilym Lee), guitarrista do Queen, tem uma idéia no estúdio para a música “We Will Rock You”, que seria uma forma da platéia “cantar” junto com o grupo. Logo depois os vemos tocando a canção ao vivo e de como na prática a idéia foi bem sucedida. É óbvio que no mundo real não deve ter sido tão “simples”, mas dentro do filme funciona muito bem.

Mesmo focando na música, o problema, como já foi citado, é que a vida pessoal de Freddie Mercury foi muito complexa. Então a tarefa de conseguir captar toda a sua essência era praticamente impossível. Da sua relação com a família, passando por seu relacionamento de amizade e casamento com Mary Austin (Lucy Boynton) e chegando a sua descoberta como gay, além é claro da banda Queen, é muito terreno para ser coberto. Apesar da falta de aprofundamento, o roteiro faz um bom resumo da vida de Mercury, apresentando os fatos mais importantes.

O elenco está muito bem, principalmente Rami Malek como Mercury. O ator que ficou famoso pela série Mr. Robot dá vida ao músico de forma muito competente e carismática, evitando os maneirismos. Ele consegue dar vida a todas as facetas do músico, principalmente sua energia em cima do palco. A química entre os atores é muito boa e eles passam verossimilhança aos papéis que estão interpretando, mesmo que em alguns momentos o roteiro apresente alguns diálogos absurdos e pouco realistas.

No entanto, o grande trunfo de Bohemian Rhapsody está nas apresentações musicais do Queen. É quando a banda é mostrada em cima do palco que o filme brilha e emociona. Não foi por acaso que foi deixado para o final do longa um show que é sem dúvidas um dos mais marcantes do grupo: o Live Aid em 1985. A forma como a performance foi recriada na tela impressiona e emociona. É quase impossível segurar a comoção e a vontade de chorar. E uma biografia conseguir passar esse sentimento sem utilizar as cenas reais é um feito que merece aplausos. Mesmo sabendo que não estamos diante de algo real e se emocionar não é algo fácil de ser alcançado, e isso é que faz do cinema algo tão mágico quanto a própria vida de Freddie Mercury.


Uma frase: – Ray Foster: “Dura uma eternidade. Seis malditos minutos” (se referindo a duração da música Bohemian Rhapsody)
– Freddie Mercury: “Tenho pena da sua esposa, se acha seis minutos uma eternidade.”

Uma cena: A apresentação do Queen no Live Aid.

Uma curiosidade: O diretor Bryan Singer foi substituído por Dexter Fletcher perto do final da filmagem principal do filme, mas continuou com o crédito de diretor sozinho de acordo com as regras da Directors Guild of America (sindicato dos diretores de cinema dos EUA). Fletcher recebeu o crédito de “Produtor Executivo”.


Bohemian Rhapsody

Direção: Bryan Singer
Roteiro:
Anthony McCarten
Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Tom Hollander e Mike Myers
Gênero: Biografia, Drama, Música
Ano: 2018
Duração: 134 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

3 thoughts on “Crítica | Bohemian Rhapsody”

  1. O filme, definitivamente, toma liberdades criativas em cima da história da vida de Freddie Mercury, mas acho que, quando analisamos que a produção foi bastante conturbada, chega a ser quase chocante que “Bohemian Rhapsody” tenha resultado num filme bom. Rami Malek está sensacional no papel principal e a sequência final, com o retrato do show completo no Live Aid 1985, como se este tenha sido o momento mais apoteótico da banda, foi bastante corajosa.

  2. O filme é emocionante por conta, principalmente, da atuação de Rami Malek e pelo poder cativante das músicas do Queen. Porém, acho que o filme pecou em banalizar o processo criativo das músicas e a própria “genialidade” de Mercury, como se os sucessos fossem fabricados instantaneamente por obra do acaso e da oportunidade. Outra coisa que me incomodou bastante foi a bagunça cronológica dos fatos. Acredito que obras ficcionais tenham certa “licença poética” para incluir ou mudar a narrativa de uma história para adaptá-la para o público, mas penso que essa interferência precisa ao menos respeitar a realidade dos fatos quando for o caso de mencionar datas e locais.

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